Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

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Masculino versus Feminino: psicanálise, senso comum ou fluidez?

Arrasei no título do post, né, gente? É o academicismo tomando conta do meu ser… Também, já estraguei todo ele no comecinho do texto… Mas vamos lá. A Ludmila me recomendou essa palestra da psicanalista Maria Rita Kehl (aquela que foi demitida por ter uma opinião desviante do Estadão, lembram?) sobre os padrões de feminilidade e masculinidade, como ela mesmo chama, e sua relação com a violência doméstica, e mais um monte de coisas. A palestra tem em torno de duas horas, e embora seja super interessante, eu não consegui assistir tudo prestando toda a atenção necessária. De qualquer forma, a quase uma hora que assisti me suscitou algumas questões que sempre me perturbam o juízo, mas que  ainda não tinha sistematizado. Como fazer um texto discutindo a palestra em si seria uma parada muito longa e complicada que eu não tenho arcabouço teórico nem poder de síntese suficiente pra fazer aqui, vamos simplificar.

Esse é o "Tickle me Freud"! HAHAHA

Quando eu começo a ouvir um psicanalista falando de masculino e feminino, já começo a me coçar toda. Não se enganem, eu me amarro em psicanálise, minha melhor amiga é super freudiana e lacaniana e adoramos conversar sobre o assunto (leia-se eu pergunto e ela me ensina). Ela até me ensinou a não ser muito fã das outras linhas da psicologia e validar mesmo o trabalho da clínica psicanalítica, hehe. Então eu tenho pensado sobre Freud e psicanálise desde as aulas de filosofia do colégio até hoje, mas sempre como uma leiga intrometida e perguntadeira.

Mas então, por que minhas expressões faciais automaticamente viram caretas com as noções de homem e mulher da psicanálise? Por causa das estruturas – que a Maria Rita chama de lei de Freud, atentem. Como não quero nem sei explicar psicanálise pra ninguém, vamos dizer que, grosso modo, segundo essa perspectiva, homens teriam uma determinada estrutura psíquica e mulheres outra, admitindo-se ocasionalmente uma tendência de alguns homens pra estrutura da mulher e vice-versa. Mas, no fim das contas, dentro da neurose, mulheres são histéricas e homens, obsessivos. Acertei, Larissa?

Eu nunca consegui com isso. Sempre faço mil argumentações e a Larissa, mil relativizações, mas no fim das contas, homem é de um jeito PORQUE é homem e mulher é de outro PORQUE é mulher. Um tem pênis, outra tem vagina, e isso determina seu ser social e psíquico. Ora, eu não posso concordar, por questão de princípio, que qualquer característica psíquica, comportamental ou social seja determinada por uma condição biológica. Sou muito ciências sociais pra isso, muito feminista, muito anti-racista pra isso. Nenhuma explicação biologizante pra fenômenos sociais me convence. Quando se trata disso, sou só pós-modernidade, se vocês quiserem chamar assim.

Agora é a hora que todos os psicanalistas falam: “Aaai, que buuuurra, dá zero pra ela!”, mas, na boa, quem tiver uma explicação que me convença ou simplesmente esclareça minhas burrices, tô aceitando de bom grado.

A careta que eu faço quando isso acontece é muito similar à que me acomete quando eu ouço as frases “Hunf… Homens!”, “Mas mulher é assim mesmo…” e todas as variáveis dessas. Tipo, TODOS os meus amigos mais lindos, inteligentes, esclarecidos, marxistas, capitalistas, alienados… adoram mandar isso nas conversas. E toda vez eu tenho que fazer a pausa dramática e chata do “peraí, homens não são obrigatoriamente de um jeito e mulheres de outro”, o que é uma coisa mais ou menos óbvia pra mim. E não é que eu sempre encontro resistência? Acho que ainda não consegui convercer realmente ninguém de que as pessoas são pessoas, tem vivências singulares e não é a genitália delas que determina o comportamento diante das situações. Devo ser uma péssima feminista, tenho que rever meus métodos. Parece que essa é uma distinção básica muito importante pras pessoas, categorias sem as quais elas não conseguem entender o mundo. E isso é um problema muito sério, porque é dessa diferenciação radical entre o que pertence ao masculino e o que pertence ao feminino, esses dois grandes conjuntos que dividem a humanidade, que decorrem um mooonte de problemas e violências, tanto pra mulheres e homens (biologicamente falando). Até mesmo as discussões sobre homossexualidade, feitas da perspectiva anti-homofóbica, muitas vezes ficam presas a esse dualismo – ou você é hétero ou é gay, ou gosta de homem ou de mulher, tem que escolher pra poder assumir. E se as coisas forem mais fluidas?

Não pensem que essa minha perspectiva é consensual dentro do feminismo ou dos estudos de gênero. Esses daí tão sempre pipocando de opiniões e abordagens analíticas diferentes. Mas, cara, pra mim é isso aí: as pessoas fazem sua história, a existência delas é o que determina sua consciência, e não o corpo. Eu só quero o poder de me conceber como plural, como possibilidade. Por que insistirmos nós mesmos em amarras?

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

Crítica: XXY

Como prometido, o post sobre XXY.

Um casal argentino tem um bebê que nasce com ambos os órgãos genitais femininos e masculinos e decide se mudar para uma cidade pequena no Uruguai para que a criança possa crescer livre da discriminação. A história do filme começa quando uma amiga de infância da mãe de Alex e seu marido, cirurgião plástico, vão visitar a família, com o objetivo de convencer o pai de Alex da importância de uma cirurgia de definição de sexo no momento em que sua sexualidade começava a “definir-se”.

A chegada do casal coincide com o momento em que, por decisão própria, Alex para de tomar os remédios que, até então, faziam com que o feminino predominasse na sua constituição corporal. Assim, a indefinição fica acentuada no momento em que os adultos discutem o destino d@ jovem (o pai de Alex agradeceria se ele pudesse usar @ como artigo definido) acerca da pergunta principal da película. Não, não é sobre por qual predominância escolher, feminino ou masculino. A questão é: Há necessidade de definir? Nas palavras de Alex: “E se não houver escolha a ser feita?”

O casal de amigos traz consigo seu filho, Álvaro, que se envolve sexualmente e afetivamente com Alex. Álvaro é a alegoria perfeita para a visão do expectador em relação a Alex. Ao chegar na casa, ele se depara com um ser estranho, chegando ao bizarro. Há fotos sombrias de Alex pela casa, bonecas deformadas no seu quarto e, de quebra, o primeiro diálogo que eles tem é sobre punheta. O garoto se assusta, desconversa, tenta se afastar, mas após o choque inicial, Alex vai se humanizando , se fragilizando e, principalmente, tornando-se encantadora pra ele. Assim também é pra quem assiste o filme: a empatia pela protagonista vai crescendo cada vez mais. Ela deixa de se tornar uma aberração pra se tornar uma adolescente (quase) comum: assustada, cheia de dúvidas. A descoberta da sexualidade por Alex não difere muito do processo doido pelo qual todo mundo passa, mas o nível de tensão chega aos píncaros por ela ser vista pela sociedade como um monstro, por ela sentir isso.

Achei o filme perfeito, no sentido de preciso. Espero que o que eu disse tenha sido o suficiente pra aguçar a vontade de vocês de assisti-lo, porque, além de ser o único jeito com que vocês vão conseguir me entender realmente, vale muito a pena como obra cinematográfica. O elenco é absurdo, e a interpretação da linda Inés Efron (Alex) é um show a parte. O Ricardo Darín (pai), mais famosinho do elenco, também manda muito bem.