Por que mulheres negras não vencem o The Voice US?

Ellen Oléria.

Ellen Oléria.

Eu me amarro em reality shows, mas os realities de música são, de longe, meus favoritos. Acompanhei avidamente todas as temporadas de Fama e as primeiras de American Idol, entre outros. Mas foi The Voice que realmente me fisgou. Entre outros motivos, porque o formato era muito mais respeitoso com os/as artistas participantes, sem aquelas edições com o propósito de tirar um sarro da cara de pessoas que tivessem um desempenho ruim ou que fossem consideradas “estranhas”, como era muito comum no American Idol, por exemplo.

[O The Voice Brasil, que nunca posso renegar por ter me apresentado a DIVA MÁXIMA Ellen Oléria, não acompanho por motivos de: Carlinhos Brown. Why so insuportável?]

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Guest Post: Racismo e legislação no Brasil

Blogagem Coletiva 21 março

Texto de Rael Fiszon Eugenio dos Santos*

Pela segunda vez a amiga Bárbara me convoca e cede espaço de seu Blog para algumas reflexões minhas sobre o racismo e as relações raciais no Brasil. A primeira foi no contexto do feriado nacional em respeito à “consciência negra”, 20 de novembro. Desta vez, estamos aqui para refletir sobre o racismo brasileiro graças ao Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março.

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Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

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Meninos, eu vi.

Eu hesitei bastante quanto a assistir ao show do Criolo ontem, na Fundição Progresso, e acabei comprando ingressos já num lote mais caro, depois de ouvir o Nó na Orelha com cuidado e perceber que valia muito trocar outras programações pra ver, ao vivo, qual era a desse cara afinal. E fui muito bem recompensada pela decisão positiva.

A noite começou bem com B-Negão e os seletores de frequência, enquanto ouvia-se o rumor de que o show do Emicida, que rolou na mesma noite na casa de show ao lado, o Circo Voador, só começaria por volta das 3h da manhã, quando o Criolo acabasse a apresentação. Fraternidade do hip hop em tempos de competição de egos no showbizz.

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Guest Post: Consciência Negra

O guest post sobre o dia da consciência negra aqui no Ou Barbárie sai com um pequeno atraso porque eu deixei o pedido muito pra cima da hora. Mesmo assim, meu amigo Rael Fizson conseguiu rapidamente escrever esse texto forte, emocionante e, sobretudo, importante . O Rael é professor de História do estado do Rio, mestrando em História pela UFF, flamenguista e namorado da Lalá, psicanalista e minha BFF. Vamos ao texto!

*

Ao contrário do que diz nosso senso comum, nem todos em nosso país são descendentes de africanos. Com o fim do comércio atlântico e o fim legal da escravidão, vieram medidas que proibiam a entrada de africanos (mesmo que livres!) e estimulavam a entrada de imigrantes europeus em solo brasileiro.  Durante o século XX, o desenvolvimento industrial, urbano, imigrações e migrações, tornaram o Brasil em muitíssimos aspectos completamente diferente dos séculos anteriores. Hoje encontramos muitas famílias que diferem do tipo ideal brasileiro inventado em meados do século XIX, mas consagrado por Gilberto Freire (a famosa mistura entre o negro, o índio e o europeu).

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Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

Essa semana está rolando no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFRJ um mini-curso sobre mitologia iorubana, ministrado pelo professor Renato Noguera, da UFRRJ. Graças à dica da Cris no facebook eu fiquei sabendo e tô tendo a experiência super legal de participar, não só porque é um assunto de interesse pessoal e relacionado à minha pesquisa (sobre a qual já comentei rapidamente aqui), mas porque o mini-curso é ligado à área de filosofia, e é sempre bom mudar um pouquinho a perspectiva epistemológica.

Oxum.

Aprendi um milhão de histórias e nomes, mas uma em especial me chamou atenção. A aula de hoje foi dedicada aos conflitos e tensões entre as noções de masculino e feminino na mitologia iorubana (se não bastasse o tanto de legal que o curso já tava sendo, o professor Renato ainda me propõe uma discussão dessas! eeee!).  Ele contou uma história super longa e complicada que eu não vou conseguir reproduzir, especialmente sendo leiga como sou. Mesmo assim, vou tentar contar pra vocês a última parte;  me perdoem eventuais equívocos. Importante lembrar também que essas histórias são interpretações do professor de uma série de itãs (versos que compõem as narrativas orais que passam a tradição adiante) que dão margem à diferentes versões dos mitos.

Pois muito bem:  Olorum (senhor supremo do destino, o princípio criador) deu a Obatalá, seu filho, a missão de criar no Aiyê (o mundo limitado, esse em que vivemos) o culto aos orixás, para que eles fossem sempre lembrados. Obatalá deu a Oxum (deusa da fertilidade, da beleza) a tarefa de criar sacerdotes e sacerdotisas – babalorixás e ialorixás -, ensinando às pessoas as histórias dos deuses e da criação do mundo. Mas Orumilá (senhor dos mistérios) era o único que tinha o poder de consultar ifá, ou seja, de comunicar-se com o mundo “espiritual” para saber como melhor proceder diante das situações. Sendo um deus masculino, Orumilá decidiu ensinar apenas aos homens o segredo de ifá, tornando-o interdito às mulheres (parece que até hoje às ialorixás não mexem com o ifá). Pelo que o professor falou, existem algumas interpretações pra essa interdição, mas em geral acredita-se que os deuses masculinos temiam que as mulheres soubessem o segredo de ifá porque assim se tornariam ainda mais poderosas do que já eram, considerando que elas tinham um poder fortíssimo que era o da fertilidade, o da gestação. Além disso ainda terem o conhecimento, aí era ameaça!

Iansã.

É claro que Oxum ficou muito danada da vida com essa história, e resolveu fazer de tudo pra conhecer o segredo de ifá e passá-lo também para as mulheres. Daí se desenrolou todo um plano comprido de Oxum que eu não vou contar aqui e ela conseguiu arrancar de Orumilá e de Exu que, sendo amigo de Orumilá e sendo homem, também sabia o segredo de ifá, algum conhecimento, mas não todo. Com a obtenção desse conhecimento por Oxum, o bagulho começou a ficar doido. Os orixás masculinos começaram a ficar muito tensos com a possibilidade das mulheres tomarem o poder no Aiyê, coisa em torno da qual elas já começavam a se articular. Oxum, Obá (deusa guerreira, andrógina, a única solteira da galera) e Iansã (deusa guerreira dos ventos e das tempestades) se uniram em uma sociedade para trocar seus poderes e saberes entre si, realmente tendo o objetivo de colocar as mulheres no poder, como os deuses temiam.

Mulheres articuladas, disputa pelo poder, revolta contra à hegemonia masculina… que beleza! Aí é que vem o caô. Vejam vocês o que Orumilá e Exu aprontaram pra acabar com a sociedade das deusas: chamaram Xangô, deus do trovão, também conhecido como o bonitão do orum (mundo ilimitado, mundo dos deuses). “Vamo lançar o gostosão no meio das mulheres e plantar a sementinha da discórdia!”, e mandaram Xangô desposar Obá, que até então era solteira e, por isso, muito perigosa. Os itãs dizem que o casamento era uma forma de dominar as mulheres, que preocupariam-se em ser belas e agradar o marido, ficando assim enfraquecidas e distantes de pretensões políticas. Obá era solteira e guerreira. Vem Xangô, “negão, ombros largos” (nas palavras do professor) e conquista Obá, que se apaixona por ele.  Próximo passo da liga dos orixás masculinos pra derrubar a mulherada: Xangô deve engravidar Iansã, que era mulher de Ogum e que não tinha ainda conseguido engravidar dele. Isso dá uma confusão danada – dizem que até hoje os filhos de Xangô e Ogum tem desavenças – mas o fato é que Iansã engravida e fica feliz da vida gestando, não querendo mais saber de guerra nenhuma, de homem nenhum.

Obá.

Por fim, Xangô desposa Oxum, também conhecida como a gatinha do orum, aquela que seduz geral. Só que aí o bicho termina de pegar: Xangô quer passar todas as noites com Oxum, enquanto Obá se sente rejeitada. E daí desenrola-se mais um longo episódio envolvendo uma armação de Oxum pra cima de Obá, que, inocente, acaba sendo expulsa de casa por Xangô. Obá é associada aos ciúmes, às loucuras de amor, à baixa auto-estima, etc.

Fiquei muito impressionada ao ouvir esse mito. Não só porque ele é ultra legal (e olha que eu pulei os babados fortes), mas porque numa tradição oral milenar, de uma matriz étnica não-ocidental como as que estamos mais familiarizados, encontramos as concepções até hoje vigentes de que:

1) A maternidade é o sonho de vida das mulheres, o seu grande objetivo e função, sem o qual elas se sentem incompletas e imperfeitas e no qual elas se sentem plenas, não precisando de mais nada.

2) Os homens superam as divergências entre si em nome da coletividade e, nesse caso, do poder político (eu não contei, mas Oxum era esposa de Orumilá, mas dormiu com Exu e depois foi desposada por Xangô, além do problema entre Ogum e Xangô que, apesar do mau estar, foi superado por Ogum tendo em vista a causa nobre em questão).

3) As mulheres não, elas são competitivas entre si, disputam a atenção e o amor dos homens, querem derrubar uma à outra em nome de seus interesses pessoais (que raramente são políticos, mas passionais, sentimentais).

Assim, Exu e Orumilá perceberam que a vaidade e o casamento eram as grandes formas de controle sobre as mulheres. A única maneira de enfraquecê-las era fazerem com que tivessem a necessidade constante de serem jovens, bonitas, de manterem-se interessantes para os seus maridos. As sem marido, coitadas, deveriam se sentir fracassadas. Lembram como Obá era perigosa antes de casar? Lembram o que aconteceu com ela depois do casamento? É por aí.

Com isso todo, estou longe de querer sugerir que a mitologia iorubana seja machista. O professor Renato foi enfático no ponto de que as tensões de poder entre feminino e masculino são constantes e não se encerram nesse episódio, o poder está sempre em jogo.

Pra mim, é muito interessante que essas noções “machistas” estejam presentes na mitologia, porque é justamente o medo histórico das mulheres – seus mistérios, suas possibilidades, sua capacidade de gestar, sua sexualidade – que fez com que tanta coisa de ruim acontecesse e aconteça com a gente ainda hoje. Acho que já comentei por aqui, mas falo de novo: a própria Ginecologia, enquanto especialidade médica, foi criada diante da necessidade dos homens de controlarem aquela criatura que eles não conseguiam decidir se era uma santa mãe ou uma puta sensual.

Como já escrevi pra caramba, deixo o resto pra vocês. Putz, como dá o que pensar! =)