Por que mulheres negras não vencem o The Voice US?

Ellen Oléria.

Ellen Oléria.

Eu me amarro em reality shows, mas os realities de música são, de longe, meus favoritos. Acompanhei avidamente todas as temporadas de Fama e as primeiras de American Idol, entre outros. Mas foi The Voice que realmente me fisgou. Entre outros motivos, porque o formato era muito mais respeitoso com os/as artistas participantes, sem aquelas edições com o propósito de tirar um sarro da cara de pessoas que tivessem um desempenho ruim ou que fossem consideradas “estranhas”, como era muito comum no American Idol, por exemplo.

[O The Voice Brasil, que nunca posso renegar por ter me apresentado a DIVA MÁXIMA Ellen Oléria, não acompanho por motivos de: Carlinhos Brown. Why so insuportável?]

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Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

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Cantada de rua é violência.

Parece uma faixa arranhada do disco feminista: cantada de rua é violência. Tem milhões de textos nos blogs feministas sobre isso por aí, tantos que tenho até preguiça de procurar pra linkar (até porque agora tô escrevendo no calor da raiva). Mas por mais que a gente fale, por mais que a gente debata, por mais vezes que eu já tenha proferido essa frase na minha vida, a cantada de rua parece ser um fantasma que persegue, que assombra uma mulher – pelo simples fato de ela ser mulher – pela vida inteira. “Um fantasma que persegue” é uma metáfora precisa, aliás, porque as vozes mudam, os agentes mudam, mas o sentimento de medo e revolta que provoca é absolutamente o mesmo, essa sensação de ser perseguida, “stalkeada” pra usar o termo corrente nas redes sociais, por alguma coisa disforme e persistente.

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Eleições Rio 2012: Apenas começamos.

Não fomos derrotados.

É verdade que teríamos comemorado uma ida para o segundo turno como uma vitória de campeonato (quem não gosta de esportes me perdoe, mas é a única analogia que consigo fazer), e nos abraçaríamos e choraríamos gargalhando, e nos molharíamos se caísse uma chuva do céu, como no grande comício da Lapa, e bradaríamos que nada, nada é impossível de mudar.

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Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

Essa semana está rolando no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFRJ um mini-curso sobre mitologia iorubana, ministrado pelo professor Renato Noguera, da UFRRJ. Graças à dica da Cris no facebook eu fiquei sabendo e tô tendo a experiência super legal de participar, não só porque é um assunto de interesse pessoal e relacionado à minha pesquisa (sobre a qual já comentei rapidamente aqui), mas porque o mini-curso é ligado à área de filosofia, e é sempre bom mudar um pouquinho a perspectiva epistemológica.

Oxum.

Aprendi um milhão de histórias e nomes, mas uma em especial me chamou atenção. A aula de hoje foi dedicada aos conflitos e tensões entre as noções de masculino e feminino na mitologia iorubana (se não bastasse o tanto de legal que o curso já tava sendo, o professor Renato ainda me propõe uma discussão dessas! eeee!).  Ele contou uma história super longa e complicada que eu não vou conseguir reproduzir, especialmente sendo leiga como sou. Mesmo assim, vou tentar contar pra vocês a última parte;  me perdoem eventuais equívocos. Importante lembrar também que essas histórias são interpretações do professor de uma série de itãs (versos que compõem as narrativas orais que passam a tradição adiante) que dão margem à diferentes versões dos mitos.

Pois muito bem:  Olorum (senhor supremo do destino, o princípio criador) deu a Obatalá, seu filho, a missão de criar no Aiyê (o mundo limitado, esse em que vivemos) o culto aos orixás, para que eles fossem sempre lembrados. Obatalá deu a Oxum (deusa da fertilidade, da beleza) a tarefa de criar sacerdotes e sacerdotisas – babalorixás e ialorixás -, ensinando às pessoas as histórias dos deuses e da criação do mundo. Mas Orumilá (senhor dos mistérios) era o único que tinha o poder de consultar ifá, ou seja, de comunicar-se com o mundo “espiritual” para saber como melhor proceder diante das situações. Sendo um deus masculino, Orumilá decidiu ensinar apenas aos homens o segredo de ifá, tornando-o interdito às mulheres (parece que até hoje às ialorixás não mexem com o ifá). Pelo que o professor falou, existem algumas interpretações pra essa interdição, mas em geral acredita-se que os deuses masculinos temiam que as mulheres soubessem o segredo de ifá porque assim se tornariam ainda mais poderosas do que já eram, considerando que elas tinham um poder fortíssimo que era o da fertilidade, o da gestação. Além disso ainda terem o conhecimento, aí era ameaça!

Iansã.

É claro que Oxum ficou muito danada da vida com essa história, e resolveu fazer de tudo pra conhecer o segredo de ifá e passá-lo também para as mulheres. Daí se desenrolou todo um plano comprido de Oxum que eu não vou contar aqui e ela conseguiu arrancar de Orumilá e de Exu que, sendo amigo de Orumilá e sendo homem, também sabia o segredo de ifá, algum conhecimento, mas não todo. Com a obtenção desse conhecimento por Oxum, o bagulho começou a ficar doido. Os orixás masculinos começaram a ficar muito tensos com a possibilidade das mulheres tomarem o poder no Aiyê, coisa em torno da qual elas já começavam a se articular. Oxum, Obá (deusa guerreira, andrógina, a única solteira da galera) e Iansã (deusa guerreira dos ventos e das tempestades) se uniram em uma sociedade para trocar seus poderes e saberes entre si, realmente tendo o objetivo de colocar as mulheres no poder, como os deuses temiam.

Mulheres articuladas, disputa pelo poder, revolta contra à hegemonia masculina… que beleza! Aí é que vem o caô. Vejam vocês o que Orumilá e Exu aprontaram pra acabar com a sociedade das deusas: chamaram Xangô, deus do trovão, também conhecido como o bonitão do orum (mundo ilimitado, mundo dos deuses). “Vamo lançar o gostosão no meio das mulheres e plantar a sementinha da discórdia!”, e mandaram Xangô desposar Obá, que até então era solteira e, por isso, muito perigosa. Os itãs dizem que o casamento era uma forma de dominar as mulheres, que preocupariam-se em ser belas e agradar o marido, ficando assim enfraquecidas e distantes de pretensões políticas. Obá era solteira e guerreira. Vem Xangô, “negão, ombros largos” (nas palavras do professor) e conquista Obá, que se apaixona por ele.  Próximo passo da liga dos orixás masculinos pra derrubar a mulherada: Xangô deve engravidar Iansã, que era mulher de Ogum e que não tinha ainda conseguido engravidar dele. Isso dá uma confusão danada – dizem que até hoje os filhos de Xangô e Ogum tem desavenças – mas o fato é que Iansã engravida e fica feliz da vida gestando, não querendo mais saber de guerra nenhuma, de homem nenhum.

Obá.

Por fim, Xangô desposa Oxum, também conhecida como a gatinha do orum, aquela que seduz geral. Só que aí o bicho termina de pegar: Xangô quer passar todas as noites com Oxum, enquanto Obá se sente rejeitada. E daí desenrola-se mais um longo episódio envolvendo uma armação de Oxum pra cima de Obá, que, inocente, acaba sendo expulsa de casa por Xangô. Obá é associada aos ciúmes, às loucuras de amor, à baixa auto-estima, etc.

Fiquei muito impressionada ao ouvir esse mito. Não só porque ele é ultra legal (e olha que eu pulei os babados fortes), mas porque numa tradição oral milenar, de uma matriz étnica não-ocidental como as que estamos mais familiarizados, encontramos as concepções até hoje vigentes de que:

1) A maternidade é o sonho de vida das mulheres, o seu grande objetivo e função, sem o qual elas se sentem incompletas e imperfeitas e no qual elas se sentem plenas, não precisando de mais nada.

2) Os homens superam as divergências entre si em nome da coletividade e, nesse caso, do poder político (eu não contei, mas Oxum era esposa de Orumilá, mas dormiu com Exu e depois foi desposada por Xangô, além do problema entre Ogum e Xangô que, apesar do mau estar, foi superado por Ogum tendo em vista a causa nobre em questão).

3) As mulheres não, elas são competitivas entre si, disputam a atenção e o amor dos homens, querem derrubar uma à outra em nome de seus interesses pessoais (que raramente são políticos, mas passionais, sentimentais).

Assim, Exu e Orumilá perceberam que a vaidade e o casamento eram as grandes formas de controle sobre as mulheres. A única maneira de enfraquecê-las era fazerem com que tivessem a necessidade constante de serem jovens, bonitas, de manterem-se interessantes para os seus maridos. As sem marido, coitadas, deveriam se sentir fracassadas. Lembram como Obá era perigosa antes de casar? Lembram o que aconteceu com ela depois do casamento? É por aí.

Com isso todo, estou longe de querer sugerir que a mitologia iorubana seja machista. O professor Renato foi enfático no ponto de que as tensões de poder entre feminino e masculino são constantes e não se encerram nesse episódio, o poder está sempre em jogo.

Pra mim, é muito interessante que essas noções “machistas” estejam presentes na mitologia, porque é justamente o medo histórico das mulheres – seus mistérios, suas possibilidades, sua capacidade de gestar, sua sexualidade – que fez com que tanta coisa de ruim acontecesse e aconteça com a gente ainda hoje. Acho que já comentei por aqui, mas falo de novo: a própria Ginecologia, enquanto especialidade médica, foi criada diante da necessidade dos homens de controlarem aquela criatura que eles não conseguiam decidir se era uma santa mãe ou uma puta sensual.

Como já escrevi pra caramba, deixo o resto pra vocês. Putz, como dá o que pensar! =)

PresidentA. Com A.

Eu queria começar dizendo que não sou petista. Eu juro! Hehehe.

Ainda assim, votei na Dilma no segundo turno das eleições e comemorei a vitória discretamente, da mesma forma que sorri no dia 1 de janeiro desse ano, quando lembrei que o Brasil tinha a primeira presidenta mulher.

– QUÊÊÊÊ?!?! PRESIDENTAAA! Não existe “presidenta”, sua burra!!!! Aiiiii!

Então, existe a palavra “presidenta”. Você pode não gostar dela, não usá-la,

Ex-presidentA Bachelet.

achar que ela macula a sagrada Constituição do seu país… Mas ela existe. Pode procurar no dicionário, pode googlar

Ontem minha avó, fiel ouvinte da Rádio Globo, veio me dizer que era um absurdo a tal da Dilma querer ser chamada de presidenta. Vale lembrar que minha vó é uma dessas pessoas que odeia a Dilma só por odiar, só porque a Rádio Globo falou. Enfim, ela me disse que ouviu alguém muito conceituado e importante dizer que a Dilma não poderia ter o título de presidenta porque esse cargo não existia na Constituição. O que tava escrito lá era “presidente”, então ela era presidente e pronto.

A essa pessoa tão distinta e culta faltou considerar que a Constituição não é um documento portador da verdade absoluta e isenta sobre a nação. Ela foi escrita por gente, ela é um produto histórico e, assim, está recheada com diversas ideologias e preconceitos vigentes na nossa sociedade. Eu digito isso e me sinto meio boba, porque parece tão óbvio, tão repetitivo, tão raso. Mas não é! PUTZ! Nego é mongol! Que inferno, mané!

 

PresidentA Kirchner.

Tudo bem, tudo bem… nem tão mongol assim. Gente que manda essas asneiras em geral não é nada burro. Taí o artigo do Alberto Dines pra provar (tudo bem que ele já tá meio gagá, mas vamos lá). Além de mandar esse mesmo argumento sobre a redação da Constituição, ele ainda argumenta que reivindicar a palavra “presidenta” é ir contra a luta feminista. Realmente, pra conseguir escrever um texto aparentemente coerente que defenda essa idéia, tu deve ter que ser muito inteligente! Nas ciências humanas a gente descobre que é possível “provar” qualquer merda se você tem uma redação minimamente aceitável.

Mas graças aos céus nós também não somos mongóis. Sabemos que a palavra “presidenta” não apenas é correta na língua portuguesa (e se não fosse, sinceramente, e daí?), mas está aí pra marcar o fato de que o cargo de Presidente da República é agora ocupado por uma mulher. UmA. Mulher.

A gramática da língua portuguesa é toda machista, nunca vi nenhum desses paladinos da verdade e da justiça reclamarem. Agora que só essa palavrinha foi proferida pra marcar uma conquista das mulheres nesse país, fudeu. Crime constitucional!

Eu não sou petista. E não apóio a Dilma pelo fato de ela ser uma mulher, como um amigo meu esses dias veio argumentar. Mas eu sou feminista, e não posso fechar os olhos para o fato de que o Brasil tem uma mulher na presidência. E isso incomoda muito, incomoda demais. Desde que o nome Dilma foi lançado pra concorrer ao cargo, começaram os ataques, esses sim pelo fato de ela ser uma mulher. A roupa da Dilma. O rosto da Dilma. A idade da Dilma. O divórcio da Dilma. A plástica da Dilma. O guarda-roupas da Dilma. A vice-primeira-dama da Dilma.

A presidenta Dilma. Com A.

E olha que hoje só é dia 5 de janeiro.