Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

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Anticristo (Lars Von Trier): O elogio da misoginia.

Não quero nem saber do que as mais elaboradas críticas de cinema anticristo_poster-360x490advogam: Anticristo é um filme misógino. Se o filme é um produto artístico que resulta dos pesadelos mais profundos do maluco do Lars von Trier, se tem uma fotografia linda e uma trilha erudita, continuo sem querer saber. Na linha fundamental do filme está escrito: “mulher é um bicho do demônio!”.

Mas vamos por partes, como Jack (já que vi esse filme motivada por uma tradição de Halloween que cultivo com a Larissa desde a sexta série). Eu tenho uma implicância com o que podemos chamar hoje de cinema cult. E não tô falando dos filmes que passam no grupo Estação nem nada, mas de filmes que são catalogados Dogvillepor diretor, e não por ordem alfabética, por exemplo. Eu não entendo mais de cinema do que as pessoas normais; eu assisto filmes e penso sobre eles. Mas nunca vi um filme de Truffaut, Bergman, Godard e nem sei o que significa o von Trier ter dedicado Anticristo ao Tarkovski. E não é simples ignorância minha, é só que eu imagino que esses filmes devam ser chatinhos, hehe. Ok, me batam Taíses, Felipes e Carols da vida. Mas a questão é que, pelo que vi de von Trier – Dançandomanderlay no Escuro, Dogville e Manderlay -, não posso negar que o cara tem um olhar único pro cinematógrafo. A proposta de um cinema mais realista está presente até nesse novo filme cheio de guéri-guéri, num momento em que a câmera parada, no nível do chão, capta um choro copioso, de um jeito que qualquer ser humano cujo coração pulse consegue se identificar de cara.

Lars von Trdancerier também é conhecido por ser absolutamente pancada da cabeça, enlouquecendo todas as protagonistas dos seus filmes de tanto encher o saco delas (o que, aliás, nos privou de ver qualquer atuação no cinema da Björk depois de Dancer in the Dark). Tá bom, meu filho, seja artístico, seja doido, faça o que bem entender. Mas daí a fazer 1h44min de elogio à misoginia, aí complica.

Lars parece juntar na sua protagonista os principais estereótipos do ideário misógino da história ocidental (ou oriental também, sei lá). A mulher é absolutamente irracional, emocional, sexual, dissimulada e, acima de tudo, perigosa. Ah, e o melhor! O título anticristo não é à toa; a bicha (bicha, sim, de animal fêmea) tá assim-assim com o demônio! A construção do discurso radicalmente misógino fica bastanteanti didática no filme, por causa do personagem masculino, um psicólogo comportamental (maiores esclarecimentos quando a Larissa quiser comentar sobre o post) que vai explicando ao expectador como funciona aquele animal perigoso e lascivo que é a mulher, de etapa em etapa.

A velha dicotomia Natureza x Cultura também está presente, é claro. A mulher é tão louca, feiticeira e desvairada, que chega a praticamente copular com a Natureza, selvagem e avassaladora, como tem que ser. Em contraposição à ela, o homem, racional, cultural e, acima de tudo, at2domador da natureza, tenta, na maior benevolência da história do cinema, concertar aquela árvore torta. Aliás, em dado momento do filme, o homem se torna o clássico mocinho dos thriller, daquele estilo que a platéia grita “corre, corre, o monstro tá vindo!”, e torce muito pra ele escapar vivo.

Concluir meu comentário é complicado, já que não posso contar o fim do filme. O que eu sei é que é definitivamente pesado abordar o femicídio da forma como Lars o fez. E, amigos, por favos, não se enganem. Esse filme não é uma belíssima obra sobre a crueldade necessária da natureza humana. O mérito de Lars talvez é deixar bem claro o que ele pensa de nós, nas profundezas da cabeça maluca dele. O que o filme emoldura é a crueldade necessária da natureza feminina, que urge por ser controlada, domesticada, enquadrada, subjugada. Ah, faça-me o favor. That is soooo XVI century!