A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

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Um drops de esperança:

“I believe in earning one’s own way
but I also believe in the unexpected gift.”

(Charles Bukowski)

Eu nunca gostei muito desse negócio de esperança. A esperança é a última que morre. Então, coitada, espera, espera, vê os amigos todos morrendo e acaba morrendo sozinha, de solidão, de esperar. Esperança é verde, é bonito, todos tem, todos recomendam, a esperança estampa camisas. Mas de esperar mesmo ninguém gosta. Pra mim esperar soa muito passivo, esperar soa como torcer pra que as coisas aconteçam sem de fato fazer nada pra isso.

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Pelo fim da violência contra quem não é o que você é.

Poucas coisas me emocionam tanto como casos de violência contra a mulher. Eu não sou gay, mas vejo nos olhos de meus amigos o mesmo sentimento. Compartilhamos esse horror, um medo profundo de ser violentado física ou sexualmente simplesmente pelo fato de ser. É até meio difícil falar sobre isso, mas é extremamente necessário. Vamos lá.

Na semana passada fiz uma aula de Krav Magá, um tipo de defesa pessoal associada ao treinamento do exército israelense (o que, como árdua defensora da Palestina me faz ser muito pouco simpática ao “esporte”), porque estava acompanhando uma amiga que treina já há seis anos. Estava lá eu, aprendendo a sair de um enforcamento ao mesmo tempo em que dava uma joelhada nos testículos do agressor (supondo que ele fosse ser homem), quando o professor comentou: “pra mulher é mais importante ainda saber fazer isso”. Com toda a boa intenção do mundo, o professor esclareceu um fato: você é uma vítima em potencial de agressão, muito mais do que seus colegas de treino, porque você é mulher. Pouco depois, assisti minha amiga treinando sair de uma posição em que um potencial estuprador estaria em cima dela. Agora me deparei com um artigo da revista Vírus Planetário sobre uma manifestação pelo fim da violência contra a mulher e essas imagens me vieram à cabeça. Eu não sei Krav Magá, e mesmo que soubesse, como a minha amiga mesmo diz, quero ver ter um estuprador em cima de você e conseguir ter frieza pra fazer os movimentos precisos como ela faz no treino. Eu não quero ter que ser faixa preta em Krav Magá pra poder caminhar pelas ruas e me sentir livre. Talvez seja difícil pra você, homem branco heterossexual de classe média, imaginar, mas nós andamos na rua, mesmo nos dias mais alegres e ensolarados, com uma vozinha no fundo do cérebro dizendo “Cuidado, ele pode ser um potencial agressor!”. Não é paranóia minha não, é sério. E, de quebra, se alguma coisa acontece, somos frequentemente culpabilizados. Quem mandou andar com essa saia? Quem mandou fazer esses trejeitos de bichinha? E quem diz isso não é só a turma dos homens brancos héteros não, também são mulheres, é o senso comum, é esse pensamento acrítico que não consegue ver o que está bem diante dos olhos.

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Dia do Orgulho LGBT

 Tenho a impressão de que vivemos uma época de crise. Isso pode ser assustador, a princípio, mas são precisamente as épocas de crise que trazem no seu seio as possibilidades, a oportunidade. Faz tempo que eu não via agitação social como tenho visto nas ruas ultimamente. Isso é bom, é bonito, mas significa também que temos tido muita coisa contra o que lutar. Os ataques são muitos: aos nossos direitos, à nossa expressividade, à nossa liberdade.

Hoje é dia do orgulho LGBT e a escalada da homofobia no país e no mundo cresce como nunca. Mas, vejam, a resistência também cresce. Hoje é dia de orgulho porque estamos ocupando os espaços, estamos pautando discussões, já não queremos nem podemos nos esconder. Hoje é dia de orgulho porque a luta – luta mesmo, nessa terminologia guerreira – também está em escalada. E ouso ver no horizonte um arco-íris.

Eu digo isso tudo na primeira pessoa do plural não por fazer parte do extinto S da reformulada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), mas porque efetivamente me coloco como pertencente a esse grupo que – essa noção é fundamental aqui – não é pra ser um gueto.

Não quero negar a importância da constituição cultural e, principalmente, política de grupos humanos diversos, mas sou da opinião que a essa coisa de tolerar o outro pode ser uma operação perigosa. Não quero negar a diversidade, muito pelo contrário, mas acho que, do jeito que as coisas estão, ainda vale a pena insistir na noção de igualdade.

Eu tenho uma perspectiva bastante fluida em relação a sexualidade e gênero, como vocês podem perceber aqui e aqui e em mais tantas palavras minhas. O fundamental, entretanto, é entender que esse Outro homossexual, esse Outro mulher não residem do outro lado da moeda, no pólo oposto ao seu, cuja existência você tolera. Uma coisa que o movimento LGBT me ensinou, talvez mais até que o movimento feminista, foi a fluidez do ser humano, a sua complexidade, as possibilidades inesgotáveis e, principalmente, que não precisamos nos encerrar em nenhuma delas. Ser humano é ser possível, e assumir-se enquanto possibilidade demanda mais do que tudo coragem, e por isso mesmo gera muito orgulho.

Laerte, querido Laerte.

Esse texto é uma homenagem e um agradecimento emocionado a todos aqueles que tem que engendrar cotidianamente a coragem pra assumir suas próprias possibilidades, enfrentando um medo monstruoso não só de sair do enquandramento, mas da violência cruel da homofobia e do machismo que os espreitam.

Força.

E, quando o espetáculo da violência e da ignorância tomar seu campo de visão, lembre-se de tudo que já conquistamos, de como a luta tem crescido, pense no arco-íris no horizonte.

OBS: A primeira foto ficou sem legenda porque tá muito pequenininha, mas é da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, e os créditos são do Túlio Vianna. Sábado que vem, dia 2, tem marcha aqui no Rio. Informe-se!

Olhos Azuis

Fui convidada, como alguns amigos meus, para uma pré-estréia do filme Olhos Azuis, feita especialmente para blogueiros, que aconteceu ontem no Arteplex. Adorei a idéia; além de ser uma forma bastante  barata e eficaz de divulgar o filme, reconhece a importância da blogosfera na circulação de informações (tem um post interessante sobre isso aqui).

Vocês podem estar se perguntando (como eu também o fiz) como alguém pode ter achado relevante me chamar, já que o meu blog tá paradão há um tempo e ele nem é especializado em cinema. Felizmente, eu tenho amigos queridos que gostam de mim e que tem empregos legais, como esse de chamar pessoas pra ver filmes de graça. Aí fui!

Além de uma pequena dose de coerção durkheimiana, não se cobra aos blogueiros convidados que escrevam sobre o filme, é claro. Mas achei uma oportunidade boa de tirar a poeira das engrenagens da máquina e botá-la pra trabalhar. E – não digo isso pela pipoca que me foi dada de graça – o filme vale muito a pena.

O filme se passa em momentos paralelos na vida de um mesmo personagem que se intercruzam. No último dia de trabalho de um policial da alfândega norte-americana (aquele cara que é encarregado de dizer quem pode entrar e quem não pode), ele resolve sortear alguns passaportes de latino-americanos desafortunados pra infernizar-lhes a vida. Paralelo a isso, esse mesmo policial americano está no Brasil, mais precisamente em Recife, procurando por uma menininha.

O cara que faz o policial se chama David Rasche, excelente ator americano que eu não lembro de ter visto antes, mas aparentemente ele costuma trabalhar na tevê. O outro personagem central, o brasileiro Nonato, escolhido como alvo máximo do policial escroto, é o Irhandir Santos, “o novo cara do cinema nacional”, que tá chegando nas telonas com mais dois outros filmes, Quincas Berro d’Água e Viajo.

A primeira história se passa inteiramente na sala da imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque. Quando eu vi a primeira imagem daquela sala, senti um arrepiozinho: já estive numa daquelas. Vou contar primeiro a minha história pra não acabar soltando algum spoiler do filme.

A primeira – e única – vez que saí do país foi em agosto de 2007, pouco depois de atingir a maioridade. Meu tio era professor de física convidado em Harvard (tem gente que é chique!) naquele ano, e eu fui de gaiata passear nos êua por conta disso. Pegar o visto no consulado americano foi muito mais fácil do que eu esperava. Fui com 350 documentos diferentes, cheirosinha, bonitinha – mas não muito, né?, sei lá. Entrei na salinha, um officer careca de mau-humor olhou um ou dois documentos e me perguntou se eu ia pra Disney. Ahm… Não, meu senhor, eu vou pra Boston. Ah tá, pode ir. E meu deu o visto.

Tanta facilidade não podia sair impune. Peguei meu avião e cheguei no aeroporto de Atlanta, na Georgia, pra passar pela alfândega e depois pegar a conexão. Me senti num Carrefour pós-moderno: eram dezenas de estações feito caixas de supermercado, uma do lado da outra, com suas filas, só que pra entrar. Chegou minha vez. Um policial negro careca (eles são todos carecas?) olhou meus documentos com calma. O que você veio fazer aqui? Vim visitar meus tios e primos. Quantos anos têm seus primos? 7 e 9. E por que você quer visitar crianças tão pequenas? Porque eu as amo, ué!

Peguei um bad cop. Ele não gostou da minha resposta. Botou meus documentos numa pasta laranja e me mandou pra immigration room. Eu, menininha bonitinha, just turned eighteen, sozinha, querendo entrar nos Estados Unidos? No mínimo ia ser stripper, prostituta, sei lá! Entrei na salinha. Tinha só eu, um homem com cara de índio e uma mulher com cara  provocantes. Ai meu deus. Vim pra sala dos suspeitos.

No fim das contas deu tudo certo. Peguei um good cop e fui liberada logo. Não sem quase morrer do coração, é claro. Porque naquela sala você é um inimigo em potencial. Os olhares são de superioridade, de desdém. Aquela sala é um território a ser pensado. E é isso que Olhos Azuis faz.

No fim da história, eu cheguei.

Em Olhos azuis, o bad cop chega ao seu extremo. Mas o retrato não é irreal, muito pelo contrário. O racismo, a xenofobia e a estupidez que o patriotismo norte-americano quer implantar nas cabeças dos ianques exala realidade. E a posição dos latinos (e nós brasileiros também somos latinos, acredite se quiser) também chega ao extremo, também de forma totalmente verossímil. A tensão entre as posições de forte e fraco,  dominante e subalterno, senhor e escravo (porque ando lendo Nietszsxsche) chega a um pico com o qual é possível se relacionar intimamente e explode, chegando mesmo à inversão de posições.

O filme é muito bom. Deviam passar na sessão da tarde dos êua. É um filme brasileiro muito diferente do que estou acostumada a ver, num bom sentido. É claro que tem uma coisa aqui outra ali que eu faria diferente, mas é essa coisa que se tem com filme brasileiro, uma proximidade com aquele fazer. De qualquer forma, a reflexão que o filme propõe é fundamental. Vale a pena assistir – e não digo isso pela pipoca e coca cola que ganhei degrátis. Juro!

Todo mundo tem um grande medo.

Todo mundo tem um grande medo. Medo de morrer, de não ser amado, de perder, de ser caluniado… sei lá. O meu grande medo é não conseguir ser realmente útil. Não me lembro bem quando, mas parece que já vem de muito tempo essa minha necessidade de empregar a minha vida em alguma coisa que seja minimamente significativa nesse mundo enlouquecido. Pensei, pensei, e resolvi ser professora. Provavelmente porque, do que testemunhei nesse pouco tempo de vida, foram professores (no âmbito das profissões) que vi tocarem mais profundamente corações e mentes de pessoas, contribuindo de verdade pra que elas se desenvolvessem autonomamente. Cara, eu conheci professores incríveis. A tal ponto que talvez eu tenha escolhido essa empreitada numa tentativa meio torta de reproduzir essas histórias, “manter a chama viva”, hehe. Mas ao passo que a minha graduação vai se aproximando perigosamente do seu fim e os devaneios e anseios ameaçam virar realidade palpável… aí, meu amigo, eu fico tensa. E os melhores professores passam de inspiração a um retrato daquilo que eu posso não conseguir ser, não conseguir fazer.
A verdade é que eu sempre acreditei na minha capacidade pra fazer as coisas, quando eu quero mesmo. Mas, diferentemente da minha mãe que acha que tudo que eu fizer na vida com dedicação vai ser o máximo, eu enxergo percalços. E que percalços! Eu tenho me imaginado entrando na sala de aula pela primeira vez… e até eu me tornar a Miss G do Escritores da Liberdade, muitas águas vão rolar. Todos os professores adoram contar como é difícil no começo, como eles chegavam em casa chorando todo dia e pensando em desistir, como eles ainda hoje têm medo de aluno. Opa, ponto pra mim! Eu já tenho medo de todos os meus futuros alunos!Como é que eu, Bárbara Araújo Machado, com essa cara de Zé Ruela, vou conseguir? Porque eu quero muito. A coisa que eu mais odeio nessa vida é fazer as coisas mal feitas (entendam bem: fazer as coisas que importam mal feitas, porque de resto, hehe, não tem problema não). Até eu me tornar a Miss G., a Marisol, o Zé Cláudio e cia., eu vou ficar muito bolada. Vou chorar, vou me descabelar, vou ser infeliz e vou querer morrer.

Ok, aham, eu sei que as coisas não funcionam assim. Não é uma linha ascendente em cujo topo está escrito “parabéns, agora você é uma professora revolucionária bacana e amada!”. Mas, pô, estamos aqui falando sobre um Grande Medo. E grandes medos nem são racionais. Eu sei que eu vou ter dias ruins e dias incríveis. Mas olhando pro Panteão dos professores… Querido gênio da lâmpada, eu quero ser foda assim também! Quero que os meus alunos sintam isso que eu senti, que eu sinto tantas vezes, quando parece que toda a esperança foi pro lixo. Porque educação é isso, cara. É esperança, porque é a visão de possibilidade de transformação das coisas. E eu me acho super expert em Educação, aliás. Só li dois livrinhos do Paulo Freire e assisti àlgumas aulas na FEUFF, mas sou aluna há 20 anos, sempre atenta aos trâmites, processos, dinâmicas.

Foi só depois que eu entrei na faculdade de história que eu aprendi o que diabos história é – ou melhor, o conceito bonitinho para o que deveria ser: o estudo das mudanças no tempo (“,etereologia?”). Ouvi dizer que História é o seguinte: o conhecimento sobre as transformações que a humanidade engendrou ao longo do tempo. E sabe o que isso me faz sentir? Esperança. Importante distinguir: esperança aqui não é do verbo esperar-aguardar. É do verbo acreditar-agir. Possibilidade de mudança.

Miss G. que me aguarde… ou que me guarde, sei lá. O medo é grande, mas a esperança é maior. E ela não morre, mané! Tentam, tentam, e ela não morre. Acaba sempre vindo um professor (lato sensu, por favor) pra me mostrar que  ainda tá rolando. Tem sempre muita coisa em jogo pra se jogar.