Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

A memória da minha avó e os grossos lençóis da ditadura militar.

Hoje é aniversário de um golpe. Um acontecimento que freou um processo de ampliação da democracia no nosso país (a despeito do que alguns dizem). É difícil não pensar “Como seria se…?”.

Hoje tomei café da manhã com minha avó. Comentei algo sobre a exposição sobre os 50 anos do golpe que está rolando no CCBB-RJ e ela disse, como quem busca a resposta para uma pergunta, que gostaria de ir. Respondi que, pra ela, seria difícil; é muito tempo em pé (ela tem 84 anos e alguns problemas de saúde característicos da velhice que a impedem de fazer certas coisas). Ela lamentou, e se pôs a contar uma história.

Continuar lendo

A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

Continuar lendo

Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!

Gramsci, Portelli e Criolo: uma anedota sobre intelectuais e pobreza

Dois italianos entraram num bar. O mais velho tinha passado onze anos encarcerado a mando do governo fascista de Mussolini (e por isso mesmo era muito merecedor de uma cervejinha no bar hipotético das anedotas) e o mais jovem tentava convencer o pessoal em volta da mesa, a despeito das risadas, de que era possível, sim, trabalhar com história oral e ser marxista ao mesmo tempo. Enquanto o velhinho preocupava-se em tomar sua cerveja, o que falava aos demais resolveu contar sobre uma viagem que havia feito para os Estados Unidos, mais precisamente para Harlan County, no Kentucky. Em Harlan, ele havia se deparado com gente muito pobre que nunca tinha pensando em si como pobre, até que um dia os especialistas do governo vieram lhes dizer que eles faziam parte de um preocupante bolsão de pobreza que precisava ser erradicado. E ser pobre no país mais rico do mundo, na terra dos self made men, significa que você é pobre por apenas um motivo: incompetência sua. E mais: se toda a sua família é pobre, se os seus vizinhos são pobres, seus amigos são pobres… it must be something in the water, deveria ter alguma coisa nesse condado Harlan que fazia de quem nasceu ali um problema social. Diante dessa percepção, o pessoal de Harlan, muito injuriado com a mídia, com o governo e com os intelectuais de plantão que insistiam em denunciar sua pobreza, precisava mostrar que não tinha nada de errado com o lugar, afinal, tinha gente rica em Harlan, sim! “Aquele moço ali, naquela casa bonita, é proprietário dessa terra em que eu planto! Ele é de Harlan, como eu, e é rico”. E foi essa a bela contribuição dos especialistas que apontavam o dedo para a pobreza de Harlan: fazer com que os trabalhadores de lá encontrassem na própria elite que os explorava seu argumento-chave, seu motivo de orgulho. Não é preciso dizer que a elite local se amarrou. Mas não pensem, com isso, que os trabalhadores de Harlan eram todos passivos, tolos, manipuláveis; eles se organizaram coletivamente na luta pela sua sobrevivência e contra os abusos das empresas mineradoras locais que destruíram sua autossuficiência em termos de produção para consumo próprio. Porque, ao contrário do que os dedos dos especialistas apontavam, não tinha nada inato no povo de Harlan que os fazia naturalmente pobres. A culpa, como sempre, é do sistema.

Continuar lendo

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

Continuar lendo

Eleições Rio 2012: Apenas começamos.

Não fomos derrotados.

É verdade que teríamos comemorado uma ida para o segundo turno como uma vitória de campeonato (quem não gosta de esportes me perdoe, mas é a única analogia que consigo fazer), e nos abraçaríamos e choraríamos gargalhando, e nos molharíamos se caísse uma chuva do céu, como no grande comício da Lapa, e bradaríamos que nada, nada é impossível de mudar.

Continuar lendo