Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

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Trans.

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

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Pelo fim da violência contra quem não é o que você é.

Poucas coisas me emocionam tanto como casos de violência contra a mulher. Eu não sou gay, mas vejo nos olhos de meus amigos o mesmo sentimento. Compartilhamos esse horror, um medo profundo de ser violentado física ou sexualmente simplesmente pelo fato de ser. É até meio difícil falar sobre isso, mas é extremamente necessário. Vamos lá.

Na semana passada fiz uma aula de Krav Magá, um tipo de defesa pessoal associada ao treinamento do exército israelense (o que, como árdua defensora da Palestina me faz ser muito pouco simpática ao “esporte”), porque estava acompanhando uma amiga que treina já há seis anos. Estava lá eu, aprendendo a sair de um enforcamento ao mesmo tempo em que dava uma joelhada nos testículos do agressor (supondo que ele fosse ser homem), quando o professor comentou: “pra mulher é mais importante ainda saber fazer isso”. Com toda a boa intenção do mundo, o professor esclareceu um fato: você é uma vítima em potencial de agressão, muito mais do que seus colegas de treino, porque você é mulher. Pouco depois, assisti minha amiga treinando sair de uma posição em que um potencial estuprador estaria em cima dela. Agora me deparei com um artigo da revista Vírus Planetário sobre uma manifestação pelo fim da violência contra a mulher e essas imagens me vieram à cabeça. Eu não sei Krav Magá, e mesmo que soubesse, como a minha amiga mesmo diz, quero ver ter um estuprador em cima de você e conseguir ter frieza pra fazer os movimentos precisos como ela faz no treino. Eu não quero ter que ser faixa preta em Krav Magá pra poder caminhar pelas ruas e me sentir livre. Talvez seja difícil pra você, homem branco heterossexual de classe média, imaginar, mas nós andamos na rua, mesmo nos dias mais alegres e ensolarados, com uma vozinha no fundo do cérebro dizendo “Cuidado, ele pode ser um potencial agressor!”. Não é paranóia minha não, é sério. E, de quebra, se alguma coisa acontece, somos frequentemente culpabilizados. Quem mandou andar com essa saia? Quem mandou fazer esses trejeitos de bichinha? E quem diz isso não é só a turma dos homens brancos héteros não, também são mulheres, é o senso comum, é esse pensamento acrítico que não consegue ver o que está bem diante dos olhos.

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Guest Post: Dia da visibilidade lésbica.

Hoje, 29 de outubro, é dia da visibilidade lésbica (você não sabia, né? sinal de que “visibilidade” é uma palavra adequada) e nós, blogueiras feministas, decidimos organizar uma blogagem coletiva sobre o tema. Eu sempre quis pedir à minha amiga Eliza Vianna um guest post sobre qualquer assunto, porque sou fã dos seus poemas e contos há tempos. Com vontade de participar da blogagem coletiva, mas sem saber precisamente o que dizer (muito do que eu quero dizer já está escrito aqui), achei que a hora era essa. Vamos ao texto!

Eu queria escrever uma história gay porque-eu-acho-que-as-pessoas-acham-que-eu-não-tenho-cara-de-gay. Não sei que cara os gays têm e também nunca perguntei a ninguém se eu tenho cara ou não. Eu queria escrever uma história com personagens gays porque eu tenho o sonho colorido de provar-para-o-mundo-preconceituoso-que-os-gays-são-iguais-a-todo-mundo e não pessoas promíscuas. Acontece que. Um, eu só sei escrever sobre sexo e ia acabar corroborando o preconceito – e fazendo as pessoas acreditarem que reside aí a minha homossexualidade (e não no meu tesão por pessoas do mesmo sexo, é claro). Dois, eu mesma não consigo desincrustar da mente a ideia de que gay é um tipo diferente de pessoa e quero construir uma história artificial, arbitrária e – o mais importante – ruim.

Dia do Orgulho LGBT

 Tenho a impressão de que vivemos uma época de crise. Isso pode ser assustador, a princípio, mas são precisamente as épocas de crise que trazem no seu seio as possibilidades, a oportunidade. Faz tempo que eu não via agitação social como tenho visto nas ruas ultimamente. Isso é bom, é bonito, mas significa também que temos tido muita coisa contra o que lutar. Os ataques são muitos: aos nossos direitos, à nossa expressividade, à nossa liberdade.

Hoje é dia do orgulho LGBT e a escalada da homofobia no país e no mundo cresce como nunca. Mas, vejam, a resistência também cresce. Hoje é dia de orgulho porque estamos ocupando os espaços, estamos pautando discussões, já não queremos nem podemos nos esconder. Hoje é dia de orgulho porque a luta – luta mesmo, nessa terminologia guerreira – também está em escalada. E ouso ver no horizonte um arco-íris.

Eu digo isso tudo na primeira pessoa do plural não por fazer parte do extinto S da reformulada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), mas porque efetivamente me coloco como pertencente a esse grupo que – essa noção é fundamental aqui – não é pra ser um gueto.

Não quero negar a importância da constituição cultural e, principalmente, política de grupos humanos diversos, mas sou da opinião que a essa coisa de tolerar o outro pode ser uma operação perigosa. Não quero negar a diversidade, muito pelo contrário, mas acho que, do jeito que as coisas estão, ainda vale a pena insistir na noção de igualdade.

Eu tenho uma perspectiva bastante fluida em relação a sexualidade e gênero, como vocês podem perceber aqui e aqui e em mais tantas palavras minhas. O fundamental, entretanto, é entender que esse Outro homossexual, esse Outro mulher não residem do outro lado da moeda, no pólo oposto ao seu, cuja existência você tolera. Uma coisa que o movimento LGBT me ensinou, talvez mais até que o movimento feminista, foi a fluidez do ser humano, a sua complexidade, as possibilidades inesgotáveis e, principalmente, que não precisamos nos encerrar em nenhuma delas. Ser humano é ser possível, e assumir-se enquanto possibilidade demanda mais do que tudo coragem, e por isso mesmo gera muito orgulho.

Laerte, querido Laerte.

Esse texto é uma homenagem e um agradecimento emocionado a todos aqueles que tem que engendrar cotidianamente a coragem pra assumir suas próprias possibilidades, enfrentando um medo monstruoso não só de sair do enquandramento, mas da violência cruel da homofobia e do machismo que os espreitam.

Força.

E, quando o espetáculo da violência e da ignorância tomar seu campo de visão, lembre-se de tudo que já conquistamos, de como a luta tem crescido, pense no arco-íris no horizonte.

OBS: A primeira foto ficou sem legenda porque tá muito pequenininha, mas é da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, e os créditos são do Túlio Vianna. Sábado que vem, dia 2, tem marcha aqui no Rio. Informe-se!