Por que mulheres negras não vencem o The Voice US?

Ellen Oléria.

Ellen Oléria.

Eu me amarro em reality shows, mas os realities de música são, de longe, meus favoritos. Acompanhei avidamente todas as temporadas de Fama e as primeiras de American Idol, entre outros. Mas foi The Voice que realmente me fisgou. Entre outros motivos, porque o formato era muito mais respeitoso com os/as artistas participantes, sem aquelas edições com o propósito de tirar um sarro da cara de pessoas que tivessem um desempenho ruim ou que fossem consideradas “estranhas”, como era muito comum no American Idol, por exemplo.

[O The Voice Brasil, que nunca posso renegar por ter me apresentado a DIVA MÁXIMA Ellen Oléria, não acompanho por motivos de: Carlinhos Brown. Why so insuportável?]

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Por que mulher é “cozinheira” e homem é “chef”?

Meu relacionamento com o mundo da cozinha é relativamente recente. Eu sempre gostei muito de comer, mas minha família nunca foi particularmente interessada em cozinhar. Essa história de “comida da vovó”, “comida da mamãe” nunca fez muito sentido pra mim, já que lá em casa fazer comida era muito mais uma questão de necessidade, de sobrevivência, do que qualquer outra coisa. Assim, a tríade carne moída, arroz e feijão reinou na minha infância e adolescência e eu basicamente não aprendi a cozinhar de verdade.

rita

Rita Lobo, diva máxima.

Enquanto eu crescia, acabei adotando uma política de sempre responder “sim” para quando alguém me perguntava “você gosta de comer x?” porque, com frequência, eu nunca tinha experimentado x. Assim acabei me tornando uma dessas pessoas conhecidas por comer de tudo.

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Guest Post: Racismo e legislação no Brasil

Blogagem Coletiva 21 março

Texto de Rael Fiszon Eugenio dos Santos*

Pela segunda vez a amiga Bárbara me convoca e cede espaço de seu Blog para algumas reflexões minhas sobre o racismo e as relações raciais no Brasil. A primeira foi no contexto do feriado nacional em respeito à “consciência negra”, 20 de novembro. Desta vez, estamos aqui para refletir sobre o racismo brasileiro graças ao Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março.

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Trans.

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

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Dia do Orgulho LGBT

 Tenho a impressão de que vivemos uma época de crise. Isso pode ser assustador, a princípio, mas são precisamente as épocas de crise que trazem no seu seio as possibilidades, a oportunidade. Faz tempo que eu não via agitação social como tenho visto nas ruas ultimamente. Isso é bom, é bonito, mas significa também que temos tido muita coisa contra o que lutar. Os ataques são muitos: aos nossos direitos, à nossa expressividade, à nossa liberdade.

Hoje é dia do orgulho LGBT e a escalada da homofobia no país e no mundo cresce como nunca. Mas, vejam, a resistência também cresce. Hoje é dia de orgulho porque estamos ocupando os espaços, estamos pautando discussões, já não queremos nem podemos nos esconder. Hoje é dia de orgulho porque a luta – luta mesmo, nessa terminologia guerreira – também está em escalada. E ouso ver no horizonte um arco-íris.

Eu digo isso tudo na primeira pessoa do plural não por fazer parte do extinto S da reformulada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), mas porque efetivamente me coloco como pertencente a esse grupo que – essa noção é fundamental aqui – não é pra ser um gueto.

Não quero negar a importância da constituição cultural e, principalmente, política de grupos humanos diversos, mas sou da opinião que a essa coisa de tolerar o outro pode ser uma operação perigosa. Não quero negar a diversidade, muito pelo contrário, mas acho que, do jeito que as coisas estão, ainda vale a pena insistir na noção de igualdade.

Eu tenho uma perspectiva bastante fluida em relação a sexualidade e gênero, como vocês podem perceber aqui e aqui e em mais tantas palavras minhas. O fundamental, entretanto, é entender que esse Outro homossexual, esse Outro mulher não residem do outro lado da moeda, no pólo oposto ao seu, cuja existência você tolera. Uma coisa que o movimento LGBT me ensinou, talvez mais até que o movimento feminista, foi a fluidez do ser humano, a sua complexidade, as possibilidades inesgotáveis e, principalmente, que não precisamos nos encerrar em nenhuma delas. Ser humano é ser possível, e assumir-se enquanto possibilidade demanda mais do que tudo coragem, e por isso mesmo gera muito orgulho.

Laerte, querido Laerte.

Esse texto é uma homenagem e um agradecimento emocionado a todos aqueles que tem que engendrar cotidianamente a coragem pra assumir suas próprias possibilidades, enfrentando um medo monstruoso não só de sair do enquandramento, mas da violência cruel da homofobia e do machismo que os espreitam.

Força.

E, quando o espetáculo da violência e da ignorância tomar seu campo de visão, lembre-se de tudo que já conquistamos, de como a luta tem crescido, pense no arco-íris no horizonte.

OBS: A primeira foto ficou sem legenda porque tá muito pequenininha, mas é da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, e os créditos são do Túlio Vianna. Sábado que vem, dia 2, tem marcha aqui no Rio. Informe-se!

Masculino versus Feminino: psicanálise, senso comum ou fluidez?

Arrasei no título do post, né, gente? É o academicismo tomando conta do meu ser… Também, já estraguei todo ele no comecinho do texto… Mas vamos lá. A Ludmila me recomendou essa palestra da psicanalista Maria Rita Kehl (aquela que foi demitida por ter uma opinião desviante do Estadão, lembram?) sobre os padrões de feminilidade e masculinidade, como ela mesmo chama, e sua relação com a violência doméstica, e mais um monte de coisas. A palestra tem em torno de duas horas, e embora seja super interessante, eu não consegui assistir tudo prestando toda a atenção necessária. De qualquer forma, a quase uma hora que assisti me suscitou algumas questões que sempre me perturbam o juízo, mas que  ainda não tinha sistematizado. Como fazer um texto discutindo a palestra em si seria uma parada muito longa e complicada que eu não tenho arcabouço teórico nem poder de síntese suficiente pra fazer aqui, vamos simplificar.

Esse é o "Tickle me Freud"! HAHAHA

Quando eu começo a ouvir um psicanalista falando de masculino e feminino, já começo a me coçar toda. Não se enganem, eu me amarro em psicanálise, minha melhor amiga é super freudiana e lacaniana e adoramos conversar sobre o assunto (leia-se eu pergunto e ela me ensina). Ela até me ensinou a não ser muito fã das outras linhas da psicologia e validar mesmo o trabalho da clínica psicanalítica, hehe. Então eu tenho pensado sobre Freud e psicanálise desde as aulas de filosofia do colégio até hoje, mas sempre como uma leiga intrometida e perguntadeira.

Mas então, por que minhas expressões faciais automaticamente viram caretas com as noções de homem e mulher da psicanálise? Por causa das estruturas – que a Maria Rita chama de lei de Freud, atentem. Como não quero nem sei explicar psicanálise pra ninguém, vamos dizer que, grosso modo, segundo essa perspectiva, homens teriam uma determinada estrutura psíquica e mulheres outra, admitindo-se ocasionalmente uma tendência de alguns homens pra estrutura da mulher e vice-versa. Mas, no fim das contas, dentro da neurose, mulheres são histéricas e homens, obsessivos. Acertei, Larissa?

Eu nunca consegui com isso. Sempre faço mil argumentações e a Larissa, mil relativizações, mas no fim das contas, homem é de um jeito PORQUE é homem e mulher é de outro PORQUE é mulher. Um tem pênis, outra tem vagina, e isso determina seu ser social e psíquico. Ora, eu não posso concordar, por questão de princípio, que qualquer característica psíquica, comportamental ou social seja determinada por uma condição biológica. Sou muito ciências sociais pra isso, muito feminista, muito anti-racista pra isso. Nenhuma explicação biologizante pra fenômenos sociais me convence. Quando se trata disso, sou só pós-modernidade, se vocês quiserem chamar assim.

Agora é a hora que todos os psicanalistas falam: “Aaai, que buuuurra, dá zero pra ela!”, mas, na boa, quem tiver uma explicação que me convença ou simplesmente esclareça minhas burrices, tô aceitando de bom grado.

A careta que eu faço quando isso acontece é muito similar à que me acomete quando eu ouço as frases “Hunf… Homens!”, “Mas mulher é assim mesmo…” e todas as variáveis dessas. Tipo, TODOS os meus amigos mais lindos, inteligentes, esclarecidos, marxistas, capitalistas, alienados… adoram mandar isso nas conversas. E toda vez eu tenho que fazer a pausa dramática e chata do “peraí, homens não são obrigatoriamente de um jeito e mulheres de outro”, o que é uma coisa mais ou menos óbvia pra mim. E não é que eu sempre encontro resistência? Acho que ainda não consegui convercer realmente ninguém de que as pessoas são pessoas, tem vivências singulares e não é a genitália delas que determina o comportamento diante das situações. Devo ser uma péssima feminista, tenho que rever meus métodos. Parece que essa é uma distinção básica muito importante pras pessoas, categorias sem as quais elas não conseguem entender o mundo. E isso é um problema muito sério, porque é dessa diferenciação radical entre o que pertence ao masculino e o que pertence ao feminino, esses dois grandes conjuntos que dividem a humanidade, que decorrem um mooonte de problemas e violências, tanto pra mulheres e homens (biologicamente falando). Até mesmo as discussões sobre homossexualidade, feitas da perspectiva anti-homofóbica, muitas vezes ficam presas a esse dualismo – ou você é hétero ou é gay, ou gosta de homem ou de mulher, tem que escolher pra poder assumir. E se as coisas forem mais fluidas?

Não pensem que essa minha perspectiva é consensual dentro do feminismo ou dos estudos de gênero. Esses daí tão sempre pipocando de opiniões e abordagens analíticas diferentes. Mas, cara, pra mim é isso aí: as pessoas fazem sua história, a existência delas é o que determina sua consciência, e não o corpo. Eu só quero o poder de me conceber como plural, como possibilidade. Por que insistirmos nós mesmos em amarras?

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.