A ideia de Revolução em Jogos Vorazes: tem, mas acabou

CONTÉM SPOILERS, claro.

the-hunger-games-catching-fireResolvi ler os livros da série Jogos Vorazes por conta da surpresa provocada pelo segundo filme, Catching Fire (Jogos Vorazes – Em Chamas). Assisti o primeiro muito despretensiosamente e curti, mas terminei o segundo de queixo caído, por causa da sequência final que revela que uma revolução contra o sistema instituído estava em curso. Aí eu falei: “PÉRA, esse filme que a juventude tá toda curtindo e lendo os livros fala sobre revolução? A revolução tá mainstream em Hollywood?? MAS GENT” e fui ler a saga, curiosa.

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Beasts of the Southern Wild

Eu uso muito hipérboles. “É o melhor do mundo”, “trezentos e cinquenta mil vezes”, essas coisas. E daí? Daí que acabei de assistir Beasts of the Southern Wild e existe uma suspeita fortíssima de que foi esse o melhor filme que já assisti na minha vida. Brabo falar isso, né? Soa tão definitivo. Mas ao mesmo tempo ele foi tão diferente de todas as outras coisas cinematográficas com as quais eu teria que comparar pra hierarquizar que… É, é isso. É que Beasts of the Southern Wild não parece cinema. Parece literatura. Um realismo fantástico que, se torcer o roteiro, vai pingar poesia.

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Mulan: “Vou fazer de você um homem”

Como qualquer criança que cresceu na década de 90, eu sou apaixonada pelos filmes da Disney. Já vi cada um umas vinte vezes, sei todas as músicas e, principalmente, canto as letras errado com convicção. É  o caso clássico da música O que eu quero mais é ser rei, do Rei Leão, que eu sempre cantei “Quando eu for rei ninguém vai me/ Não serei nenhum bléu”. Depois de velha fui descobrir que o correto era “Quando eu for rei ninguém vai me vencer em nenhum duelo”, o que de fato faz muito mais sentido, mas que me é impossível de cantar, porque pra mim é bléu, pronto acabou.

Aliás, essas reflexões que surgem “depois de velha” sobre determinadas coisas da infância às vezes deixam aquela pulguinha atrás da orelha. No próprio caso do Rei Leão. Uma vez eu tava numa conversa sobre como esse era o melhor e mais legal filme que jamais existiu, e um amigo militante, concordando, fez a ressalva de que o filme era muito conservador. Eu: “OHHH, por quêêê?” e ele mandou uma de que, poxa, o Simba largou um modo de vida libertário, assim como fizeram Timão e Pumba, pra fazer uma restauração monarquista na Pedra do Reino. Hehehehe

O que eu fiz com essa informação foi ignorá-la completamente e continuar cantando que não serei nenhum bléu. Mas é aquela coisa… Por exemplo, depois que virei uma alegre e convicta adulta feminista, às vezes penso no efeito da boneca Barbie na minha vida. Nossa, a minha vida era brincar de Barbie quando eu era pequena. Sempre tem aquelas meninas que falam: “ah, eu não, eu gostava de subir em árvore e jogar futebol com os meninos”, mas eu era capaz de passar dias inteiros sentada na frente da minha casa da Barbie inventando um enredo pra vida delas. Hoje percebo coisas do tipo: a Barbie que eu achava mais bonita era sempre a principal e a que eu achava menos bonita era sempre a mãe. Porque, sendo menos bonita, fazia sentido de que ela fosse mais velha, por exemplo. No mais, acho que brincar de Barbie foi importantíssimo pra um desenvolvimento intelectual e psicológico, acreditem se quiserem. Afinal, criar enredos de vidas, relações sociais, familiares, amorosas, problematizá-las e mesmo vivê-las, em certa medida – era isso que eu tava fazendo.

Mas na verdade esse post é sobre um filme da Disney específico. Um que eu gosto muito em particular, que também sei as falas e que também canto errado: Mulan.

Todos sabemos que a Disney é conservadoríssima, que Walt Disney era uma máquina de fabricar ideologia (vide as clássicas aventuras da turma do Pato Donald na América Latina no bojo da política de boa vizinhança do governo norte-americano nas décadas de 30 e 40). Mas, assim… a “restauração monarquista” do Rei Leão não me fez menos libertária ou de esquerda, da mesma forma como as Barbies não me fizeram sonhar em ter uma cintura menor do que a cabeça (embora saibamos que elas fizeram isso com muita gente, num grau doentio). Só que aí vem Mulan. E Mulan, com sua mensagem a ser passada, realmente me atingiu. Me deu vontade de cortar o cabelo com a espada e ir pra guerra no lugar dos meus pais. Me deu a certeza de que eram coisas de menina inteligência e bravura, ao invés de sempre – e apenas – beleza e docilidade. É por isso que eu amo a Mulan.

Eu tava vendo uns vídeos no Youtube com as músicas em português e descobri uma coisa engraçada. Uma das letras que eu sempre cantei errado foi a da música Homem ser, cujo refrão eu sempre cantei “Vou vencer”. Em inglês, a música é entitulada “I’ll make a man out of you” (“Vou fazer de você um homem”), e ela é trilha pro treinamento dos soldados losers (Mulan inclusa) pra irem pra guerra. No final eles ficam super sinistrões e é a Mulan, aliás, que resolve o desafio lançado pelo filho gatinho do General de subir numa espécie de pau de sebo gigante (revistinha do Chico Bento mode on) pra pegar uma flecha. Achei sintomático que a música tenha esse nome, porque é o momento em que a Mulan conquista de fato o lugar reservado aos homens, o lugar da guerra, que é também o lugar da inteligência estrategista que ela parece dominar mais do que todos os outros homens, como vemos no desenrolar do filme. E assim… todo mundo acaba aplaudindo isso. É legal, parabéns, você tomou esse lugar pra si. Talvez os papéis sociais reservados para homens e mulheres não sejam tão rígidos. Isso, em termos de Disney, é ou não é revolucionário? =)

Não sei se ainda existe spoiler de Mulan (porque eu tenho pra mim que todo mundo já viu esse filme, tipo O Sexto Sentido), mas aviso que esse parágrafo comentará o final do filme. Qualquer coisa, pula pro próximo. No fim, Mulan e seus amigos salvam a China da invasão huna sob o comando dela, todos vestidos de mulher usando seus paninhos dos vestidos para subir as pilastras do castelo do Imperador, armando toda uma arapuca muito maneira. Ela, que no começo do filme tá numa depressão só porque “honrar sua família” significa coisas que ela não quer – casamento arranjado, docilidade, fim da liberdade –, acaba tendo o reconhecimento e o afeto do seu super fofo pai através da inteligência e da coragem. E ainda fica com o filho gatinho do general no final, porque, pô, é um filme da Disney, né?

Enfim, digam o que quiserem, mas acho Mulan um filme feminista. Acho que faz bem pras menininhas, acho lindo, amo as músicas. Poderia comentar mais em detalhe os pontos feministas do filme, mas a divagação me tomou muito tempo e o trabalho clama por mim, hehe. Deixo pra vocês os comentários então.

“Nome? Eu tenho um nome… E é nome de homem, viu?”

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

Olhos Azuis

Fui convidada, como alguns amigos meus, para uma pré-estréia do filme Olhos Azuis, feita especialmente para blogueiros, que aconteceu ontem no Arteplex. Adorei a idéia; além de ser uma forma bastante  barata e eficaz de divulgar o filme, reconhece a importância da blogosfera na circulação de informações (tem um post interessante sobre isso aqui).

Vocês podem estar se perguntando (como eu também o fiz) como alguém pode ter achado relevante me chamar, já que o meu blog tá paradão há um tempo e ele nem é especializado em cinema. Felizmente, eu tenho amigos queridos que gostam de mim e que tem empregos legais, como esse de chamar pessoas pra ver filmes de graça. Aí fui!

Além de uma pequena dose de coerção durkheimiana, não se cobra aos blogueiros convidados que escrevam sobre o filme, é claro. Mas achei uma oportunidade boa de tirar a poeira das engrenagens da máquina e botá-la pra trabalhar. E – não digo isso pela pipoca que me foi dada de graça – o filme vale muito a pena.

O filme se passa em momentos paralelos na vida de um mesmo personagem que se intercruzam. No último dia de trabalho de um policial da alfândega norte-americana (aquele cara que é encarregado de dizer quem pode entrar e quem não pode), ele resolve sortear alguns passaportes de latino-americanos desafortunados pra infernizar-lhes a vida. Paralelo a isso, esse mesmo policial americano está no Brasil, mais precisamente em Recife, procurando por uma menininha.

O cara que faz o policial se chama David Rasche, excelente ator americano que eu não lembro de ter visto antes, mas aparentemente ele costuma trabalhar na tevê. O outro personagem central, o brasileiro Nonato, escolhido como alvo máximo do policial escroto, é o Irhandir Santos, “o novo cara do cinema nacional”, que tá chegando nas telonas com mais dois outros filmes, Quincas Berro d’Água e Viajo.

A primeira história se passa inteiramente na sala da imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque. Quando eu vi a primeira imagem daquela sala, senti um arrepiozinho: já estive numa daquelas. Vou contar primeiro a minha história pra não acabar soltando algum spoiler do filme.

A primeira – e única – vez que saí do país foi em agosto de 2007, pouco depois de atingir a maioridade. Meu tio era professor de física convidado em Harvard (tem gente que é chique!) naquele ano, e eu fui de gaiata passear nos êua por conta disso. Pegar o visto no consulado americano foi muito mais fácil do que eu esperava. Fui com 350 documentos diferentes, cheirosinha, bonitinha – mas não muito, né?, sei lá. Entrei na salinha, um officer careca de mau-humor olhou um ou dois documentos e me perguntou se eu ia pra Disney. Ahm… Não, meu senhor, eu vou pra Boston. Ah tá, pode ir. E meu deu o visto.

Tanta facilidade não podia sair impune. Peguei meu avião e cheguei no aeroporto de Atlanta, na Georgia, pra passar pela alfândega e depois pegar a conexão. Me senti num Carrefour pós-moderno: eram dezenas de estações feito caixas de supermercado, uma do lado da outra, com suas filas, só que pra entrar. Chegou minha vez. Um policial negro careca (eles são todos carecas?) olhou meus documentos com calma. O que você veio fazer aqui? Vim visitar meus tios e primos. Quantos anos têm seus primos? 7 e 9. E por que você quer visitar crianças tão pequenas? Porque eu as amo, ué!

Peguei um bad cop. Ele não gostou da minha resposta. Botou meus documentos numa pasta laranja e me mandou pra immigration room. Eu, menininha bonitinha, just turned eighteen, sozinha, querendo entrar nos Estados Unidos? No mínimo ia ser stripper, prostituta, sei lá! Entrei na salinha. Tinha só eu, um homem com cara de índio e uma mulher com cara  provocantes. Ai meu deus. Vim pra sala dos suspeitos.

No fim das contas deu tudo certo. Peguei um good cop e fui liberada logo. Não sem quase morrer do coração, é claro. Porque naquela sala você é um inimigo em potencial. Os olhares são de superioridade, de desdém. Aquela sala é um território a ser pensado. E é isso que Olhos Azuis faz.

No fim da história, eu cheguei.

Em Olhos azuis, o bad cop chega ao seu extremo. Mas o retrato não é irreal, muito pelo contrário. O racismo, a xenofobia e a estupidez que o patriotismo norte-americano quer implantar nas cabeças dos ianques exala realidade. E a posição dos latinos (e nós brasileiros também somos latinos, acredite se quiser) também chega ao extremo, também de forma totalmente verossímil. A tensão entre as posições de forte e fraco,  dominante e subalterno, senhor e escravo (porque ando lendo Nietszsxsche) chega a um pico com o qual é possível se relacionar intimamente e explode, chegando mesmo à inversão de posições.

O filme é muito bom. Deviam passar na sessão da tarde dos êua. É um filme brasileiro muito diferente do que estou acostumada a ver, num bom sentido. É claro que tem uma coisa aqui outra ali que eu faria diferente, mas é essa coisa que se tem com filme brasileiro, uma proximidade com aquele fazer. De qualquer forma, a reflexão que o filme propõe é fundamental. Vale a pena assistir – e não digo isso pela pipoca e coca cola que ganhei degrátis. Juro!

Anticristo (Lars Von Trier): O elogio da misoginia.

Não quero nem saber do que as mais elaboradas críticas de cinema anticristo_poster-360x490advogam: Anticristo é um filme misógino. Se o filme é um produto artístico que resulta dos pesadelos mais profundos do maluco do Lars von Trier, se tem uma fotografia linda e uma trilha erudita, continuo sem querer saber. Na linha fundamental do filme está escrito: “mulher é um bicho do demônio!”.

Mas vamos por partes, como Jack (já que vi esse filme motivada por uma tradição de Halloween que cultivo com a Larissa desde a sexta série). Eu tenho uma implicância com o que podemos chamar hoje de cinema cult. E não tô falando dos filmes que passam no grupo Estação nem nada, mas de filmes que são catalogados Dogvillepor diretor, e não por ordem alfabética, por exemplo. Eu não entendo mais de cinema do que as pessoas normais; eu assisto filmes e penso sobre eles. Mas nunca vi um filme de Truffaut, Bergman, Godard e nem sei o que significa o von Trier ter dedicado Anticristo ao Tarkovski. E não é simples ignorância minha, é só que eu imagino que esses filmes devam ser chatinhos, hehe. Ok, me batam Taíses, Felipes e Carols da vida. Mas a questão é que, pelo que vi de von Trier – Dançandomanderlay no Escuro, Dogville e Manderlay -, não posso negar que o cara tem um olhar único pro cinematógrafo. A proposta de um cinema mais realista está presente até nesse novo filme cheio de guéri-guéri, num momento em que a câmera parada, no nível do chão, capta um choro copioso, de um jeito que qualquer ser humano cujo coração pulse consegue se identificar de cara.

Lars von Trdancerier também é conhecido por ser absolutamente pancada da cabeça, enlouquecendo todas as protagonistas dos seus filmes de tanto encher o saco delas (o que, aliás, nos privou de ver qualquer atuação no cinema da Björk depois de Dancer in the Dark). Tá bom, meu filho, seja artístico, seja doido, faça o que bem entender. Mas daí a fazer 1h44min de elogio à misoginia, aí complica.

Lars parece juntar na sua protagonista os principais estereótipos do ideário misógino da história ocidental (ou oriental também, sei lá). A mulher é absolutamente irracional, emocional, sexual, dissimulada e, acima de tudo, perigosa. Ah, e o melhor! O título anticristo não é à toa; a bicha (bicha, sim, de animal fêmea) tá assim-assim com o demônio! A construção do discurso radicalmente misógino fica bastanteanti didática no filme, por causa do personagem masculino, um psicólogo comportamental (maiores esclarecimentos quando a Larissa quiser comentar sobre o post) que vai explicando ao expectador como funciona aquele animal perigoso e lascivo que é a mulher, de etapa em etapa.

A velha dicotomia Natureza x Cultura também está presente, é claro. A mulher é tão louca, feiticeira e desvairada, que chega a praticamente copular com a Natureza, selvagem e avassaladora, como tem que ser. Em contraposição à ela, o homem, racional, cultural e, acima de tudo, at2domador da natureza, tenta, na maior benevolência da história do cinema, concertar aquela árvore torta. Aliás, em dado momento do filme, o homem se torna o clássico mocinho dos thriller, daquele estilo que a platéia grita “corre, corre, o monstro tá vindo!”, e torce muito pra ele escapar vivo.

Concluir meu comentário é complicado, já que não posso contar o fim do filme. O que eu sei é que é definitivamente pesado abordar o femicídio da forma como Lars o fez. E, amigos, por favos, não se enganem. Esse filme não é uma belíssima obra sobre a crueldade necessária da natureza humana. O mérito de Lars talvez é deixar bem claro o que ele pensa de nós, nas profundezas da cabeça maluca dele. O que o filme emoldura é a crueldade necessária da natureza feminina, que urge por ser controlada, domesticada, enquadrada, subjugada. Ah, faça-me o favor. That is soooo XVI century!

Up: poesia elevada.

Hoje, depois de um longo e tenebroso inverno, eu e Titão assistimos img_up_poster_2601finalmente Up. Acho que não vai ficar mais muitas semanas em cartaz, inclusive porque tá estreando muita coisa lontante (=que lota) ultimamente, dentre as quais alguns filmes de animação 3D.

Desde que vi o trailer eu tive certeza de que seria um filme maravilhoso, muito diferente dos Shreks da vida. Nada contra o Shrek, muito pelo contrário! Adoro de paixão. Mas ultimamente, talvez exatamente por causa do sucesso estrondoso dos Shreks (me corrijam se eu estiver cronologicamente errada), a maioria das animações tem caminhado por essa linha, um humor muitas vezes ácido (ou acebolado, no caso do ogro) entrelaçado à uma história encantadora. Up não. Up definitivamente não era ácido. Up era lindo. E eu queria muito ver.

A primeira demora foi por conta de procurar uma sessão que não fosse 3D, já que em troca dos óculos maneiros, o preço dobra. Depois eu me arrependir de ser sovina e demorei mais ainda pra conseguir assistir o filme porque queria ver em 3D, já  que eu nunca vi nada tridimensional no cinema (ahm, a não ser as pessoas de carne e osso, as poltronas, etc). Com a redução do número de sessões disponíveis, eu me assustei e fui de uma vez por todas, vendo sem os óculos maneiros mesmo.

Acho que a essa altura muita gente já deva ter assistido o filme, então vou partir desse pressuposto. Quem não assistiu e não entender uma coisa ou outra, que se apresse! Porque é definitivamente um dos filmes mais bonitos que eu já vi na vida.

(…)

Tô há alguns segundos pensando no que dizer. É difícil, porque tudo parece lugar comum demais. Digamos assim: cinema bem feito tem um braço inglocomprido, que entra pelo peito do espectador, puxa lá de dentro sentimentos improváveis para o instante em que ele vive e faz com que emerjam de uma forma muito limpa, muito clara. Foi assim na primeira cena de Bastardos Inglórios, longa, tensa, de tal modo que eu saí de dentro do universo do filme pra notar que meu coração batia tanto que parecia estar a ponto de pular pela minha garganta. E foi assim com Up. Uma das primeiras cenas, em que o Senhor Friederickson se assusta com a sua própria rabugisse e se esconde dentro de casa, lá foi a mão-cinematográfica dentro do meu peito puxar um nó na garganta que se desfez em lágrimas. Isso porque eu me relaciono terrivelmente com aquela cena – acho que muita gente se relaciona – e não esperava algo assim de um cartum. Ok, o velhinho e o menino, balões e aventura, mas não uma análise tão profunda e ao mesmo tempo límpida de questões humanas como aquela.

Dali em diante nós convertidos em lágrimas foram aparecendo. up_20“Emocionante” é uma palavra maxi-batida, mas é ela que melhor verbaliza o que eu achei do filme. Grandes questões sobre as relações humanas, resolvidas da forma mais poética possível: no céu, penduradas por um fio… a balões. É uma constante no filme inteiro o perigo de cair e morrer, achei engraçado sentir uma tensão como essa numa animação. E, pensando agora, faz o todo o sentido, numa metáfora genial, encoberta de filme-de-criança:

As questões mais profundas e mais mal-resolvidas são colocadas pixar_up-8na berlinda no filme, tanto pro Senhor Friederickson, principalmente, quanto para o Russel, o cachorro Doug e até pro explorador-do-zeppelin. Enfrentar seus fantasmas de frente têm encargos: a sensação de suspensão, de perigo, o medo constante de cair, a necessidade de coragem e de simplesmente não olhar pra baixo.

Pra não spoilar: eu e Titão terminamos o filme abraçados, emocionados, morrendo de medo de um morrer, mesmo que velhinho. Mas a Senhora Ellie avisa: o importante é a aventura vivida, o meio, que não tem fim.

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Viajei?

Psicologia-de-não-psicóloga  mode off… fico por aqui.