A ideia de Revolução em Jogos Vorazes: tem, mas acabou

CONTÉM SPOILERS, claro.

the-hunger-games-catching-fireResolvi ler os livros da série Jogos Vorazes por conta da surpresa provocada pelo segundo filme, Catching Fire (Jogos Vorazes – Em Chamas). Assisti o primeiro muito despretensiosamente e curti, mas terminei o segundo de queixo caído, por causa da sequência final que revela que uma revolução contra o sistema instituído estava em curso. Aí eu falei: “PÉRA, esse filme que a juventude tá toda curtindo e lendo os livros fala sobre revolução? A revolução tá mainstream em Hollywood?? MAS GENT” e fui ler a saga, curiosa.

Os livros me surpreenderam positivamente, muito legais de ler e com um enredo instigante. Neles, há diversas coisas ocultas pelos filmes: pra começar, o fato de que a protagonista não é nada parecida com a Jennifer Lawrence, exceto pelo penteado. Katniss é descrita como tendo “olive skin”, um tom de pele mais escuro (pra dar uma noção, pessoas como a Kim Kardashian e a Jessica Alba aparecem numa busca por “olive skin” no Google). Isso por si só deu o maior quiprocó – e com toda razão. Perdemos a oportunidade de ver uma protagonista não-branca forte, valente, complexa, o que certamente teria vindo muito à calhar em termos de representatividade.

Fan art da Katniss e do Peeta conforme a descrição dos livros. Não tenho créditos :(

Fan art da Katniss e do Peeta conforme a descrição dos livros. Não tenho créditos 😦

Outra coisa que o livro traz são os intensos conflitos internos da Katniss. Se nos filmes ela aparece andando por escombros com aquela cara de atormentada, no livro a gente tem acesso a todas as questões que se passam por trás da expressão facial. A opção narrativa dos filmes não foi necessariamente ruim, mas perde em complexidade e profundidade para os livros (o que é bem comum em adaptações, né).

Voltando à minha questão inicial — como Jogos Vorazes trabalha a ideia de revolução? –, novamente o Google me trouxe uma informação fundamental. Uma das principais inspirações da autora Suzanne Collins para a série foi a experiência de seu pai como oficial da Força Aérea norte-americana e veterano da Guerra do Vietnã. Com isso, eu saquei: Jogos Vorazes não é um filme de luta do bem contra o mal, nem um filme exatamente sobre revolução. É um filme de orientação pacifista sobre os horrores inerentes à guerra. E se a revolução é (ou inclui) uma guerra, ela é inerentemente terrível. Daí que Jogos Vorazes é uma história contra-revolucionária. Chora, neném.

Katniss caminha pelo Distrito 12 destruído.

Katniss caminha pelo Distrito 12 destruído.

O terceiro livro da saga e o quarto filme, principalmente, são um balde de água fria na Bárbara do passado que achou que os adolescentes iam curtir um filme insuflando à revolução contra o status quo. Mas calma, vamos complexificar isso aí.

A despeito de onde vai parar o argumento central, a saga nunca deixa de reconhecer o problema da desigualdade social e da exploração da periferia pelo centro. Não chega à explicitar uma “luta de classes” nesses termos, mas os distritos concentrando mão-de-obra e matéria-prima para manter a Capital que, por sua vez, é totalmente dependente desse suprimento, é uma imagem muito clara. No último filme, o presidente Snow chega a afirmar de maneira bem simplista e didática que os revolucionários estão se revoltando contra o estilo de vida da Capital, porque eles tem muitas coisas boas que os trabalhadores dos distritos não tem.

O próprio evento dos Jogos, em que cada distrito é obrigado a enviar dois “tributos” para se matarem como lembrança anual de que não devem voltar a se rebelar contra a Capital — evento esse espetacularizado como um reality show 24h –, é uma excelente alegoria da complexa união entre coerção e consenso a que somos submetidos pelo sistema. O papel dos meios midiáticos e da tecnologia na manutenção da status quo é uma parada que Jogos Vorazes retrata excelentemente (#fikdik de um tópico que vale destrinchar em textos, fóruns e salas de aula por aí).

galeMas aí minhas discordâncias com o argumento. O discurso sobre os “horrores da guerra” tem um núcleo de pessimismo relacionado àquela ideia de que a “natureza humana” é má. Nós temos sede de sangue, nós temos sede de poder, nós queremos pisar uns nos outros para ascender… e, por isso, no fim das contas, não importa se tivermos as melhores intenções, sempre vamos meter os pés pelas mãos. Exemplo disso é o Gale: uma pessoa ótima, bonitão (outro aliás que no livro tinha “olive skin” e nos filmes virou o Liam Hemsworth), mas que acabou “corrompido” pela guerra. No descorrer da história, sua ascensão na carreira militar foi acompanhada pela perda do amor da Katniss justamente por causa do seu entendimento de que mortes de civis e inocentes não são um problema significativo quando se tem um objetivo mais importante (fazer a revolução, vencer o inimigo). A própria presidente Coin é o clássica personagem que tinha uma nobre intenção, mas que, inebriado pelo poder, acabou tornando-se autoritária e malvadona.

Nada disso seria um problema se não nos ensinasse uma certa moral da história. E a moral da história em Jogos Vorazes é que, na guerra, a gente acaba sendo tão ruim quanto eles. E se a revolução inclui guerra… O fim da franquia de filmes nem deixa um gosto tão amargo como o fim dos livros. Nos livros, é mais clara a mensagem de que a guerra mata uma parte fundamental das pessoas que nela estiveram, decepa uma parte da sua humanidade. E isso tem muito sentido; os relatos de sobreviventes de guerras estão aí para provar. Mas o argumento é um tanto quanto imobilista, porque diz que nos encontramos numa situação impossível de superar, por pior que seja. A obra reconhece que a exploração e a desigualdade são reais e são injustas. E aponta que a única forma de superá-las é levantar-se, unir-se, lutar. O problema é que lutar é fazer guerra, e a guerra faz emergir o pior de nós (da “natureza humana”). De quebra, dela não nos recuperamos nunca… O beco torna-se sem saída. Mockinjay da depressão.

fanart2

Fan art deprê. Sem créditos 😦

Mesmo assim, é uma saga muito maneira. O argumento central dos livros me deixou com um gosto ruim na boca, mas os filmes pegam muito mais leve, com um final felizes-para-sempre para Peeta e  Katniss e um apontamento mais claro para um futuro melhor para a Panem (no livro, com o mesmo final, o cenário que eu imaginei era de que os dois tinham ficado juntos, mas que estavam desintegrados individualmente por tudo que aconteceu, um casal feliz-apesar-de).

De Jogos Vorazes, prefiro ficar com o aspecto da certeza da injustiça da exploração e da desigualdade, da tenacidade de todos que lutaram contra a Capital e da possibilidade de construir consciência coletiva e união, de transformar a realidade. Prefiro deixar de lado o pessimismo imobilista. Espero que a maior parte do público faça essa opção também.

"A esperança é a única coisa maior que o medo", citação do filme.

“A esperança é a única coisa maior que o medo”, citação do filme.

Anúncios