Por que mulheres negras não vencem o The Voice US?

Ellen Oléria.

Ellen Oléria.

Eu me amarro em reality shows, mas os realities de música são, de longe, meus favoritos. Acompanhei avidamente todas as temporadas de Fama e as primeiras de American Idol, entre outros. Mas foi The Voice que realmente me fisgou. Entre outros motivos, porque o formato era muito mais respeitoso com os/as artistas participantes, sem aquelas edições com o propósito de tirar um sarro da cara de pessoas que tivessem um desempenho ruim ou que fossem consideradas “estranhas”, como era muito comum no American Idol, por exemplo.

[O The Voice Brasil, que nunca posso renegar por ter me apresentado a DIVA MÁXIMA Ellen Oléria, não acompanho por motivos de: Carlinhos Brown. Why so insuportável?]

Kimberly Nichole, the rock ballerina.

Kimberly Nichole, the rock ballerina.

Na última temporada do The Voice US, torci para a Kimberly Nichole, cujo apelido é “the rock ballerina” (a bailarina do rock/rockeira). Ela era genial, tinha uma personalidade muito cativante. Uma mulher que transparecia muita força e sensibilidade ao mesmo tempo. Além de, claro, ter uma voz incrível e uma estética moderna e interessante. Aí a Kimberly foi eliminada. E eu, acostumada com torcer pra gente que não ganha, não cheguei a me chatear tanto (#escaldada). O problema é que a Kimberly entrou pra um hall deincríveis cantoras negras que são ovacionadas pelos técnicos (coaches), tomadas como as vencedoras certas, de tão incríveis e superiores ao restante dos/as competidores/as…. que acabam ficando pelo meio do caminho na competição. Em 9 temporadas, não é só coincidência, é um padrão. E padrões como esse em geral tem explicações sociológicas.

Toda vez que um/a participante que, pra mim, é claramente o/a vencedor/a, é eliminado/a, eu me lembro da Jennifer Hudson. Ela foi eliminada pelo público no American Idol e, um tempo depois, ganhou um Oscar e se firmou como uma estrela da indústria musical norte-americana. O sentimento que eu tenho quando vejo mulheres como a Kimberly são eliminadas dessas competições estreou no meu coração no dia da eliminação da Jennifer Hudson. É mais ou menos assim:

QUE DIABOS SE PASSA NA CABEÇA DOS NORTE-AMERICANOS PRA ELIMINAREM ESSA MULHER?!?!?!?!?!??!!?!?

QUE DIABOS SE PASSA NA CABEÇA DOS NORTE-AMERICANOS PRA ELIMINAREM ESSA MULHER?!?!?!?!?!??!!?!?

O que é mais curioso é que a estética musical dessas mulheres é, de modo geral, uma referência de talento e habilidade na cultura norte-americana. Muitas grandes cantoras conhecidas pela sua habilidade e técnica vocal no panteão estadunidense são negras. Saber cantar nos Estados Unidos tem muito a ver com a estética musical do soul, com suas runs e vocalizações, com segurar longas notas

Whitney Houston.

Whitney Houston.

Então por que essas mulheres, cuja estética musical se encaixa exatamente nesse padrão (e às vezes o transcende pelo nível de talento e habilidade de algumas delas) não vencem o The Voice? Por que, apesar do nome do programa, o público precisa se deixar cativar pelo/a artista como um todo, e não só pela sua voz.

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E por que o público norte-americano não se deixa cativar pelas mulheres negras?

Minha teoria tem a ver com o fato de que as mulheres negras com a estética soul representam uma imagem de força, de poder. São mulheres negras que estão absolutamente no controle do que estão fazendo. Elas podem ir da nota mais baixa até a mais alta quantas vezes quiserem parecendo não fazer quase nenhum esforço. Elas dominam o palco. Elas enchem o ambiente com suas vozes. Elas tomam a atenção da plateia. E estou usando aqui expressões frequentemente utilizadas pelos/as próprios/as coaches quando comentam suas performances. Mesmo quando estão cantando letras sobre tristeza, abandono, fragilidade… elas são fortes.

– Ahm… E isso é uma coisa ruim?

Não, óbvio que isso não é ruim. Isso é irado! Mas não é isso que cativa o público dos reality shows de música, aparentemente. A força das mulheres negras parece incomodar. Não desperta a empatia do público da mesma forma que o fazem as imagens de uma jovem menina – branca – country ou de um jovem rapaz – branco – tímido.

Kimberly Nichole.

Kimberly Nichole.

Não querendo desfazer do talento desses/as artistas, mas a torcida parece sempre se inclinar para as pessoas mais “simpáticas” e “adoráveis”. E o curioso é que nunca em 9 temporadas a pessoa mais adorável foi uma mulher negra. E não foi por falta de momentos “simpáticos” e “adoráveis” – Kimberly Nichole se emocionou diversas vezes no programa e eu chorei em todas, óbvio.

Ora, a rainha do showbizz estadunidense é a queen Bey. Uma das maiores de todos os tempos foi Whitney Houston. As que estão sentadas no trono mais alto do panteão são mulheres como Ella Fitzgerald e Etta James. Todas mulheres, negras, poderosas. Todas exalando força, controle e talento inquestionável. Mas outras mulheres negras com características similares estão sendo sistematicamente derrotadas em reality shows. Que são, no fim das contas, concursos de popularidade, de amabilidade e de auto-identificação. Esses concursos premiam seus/suas vencedoras com dinheiro e com um contrato de gravação. Mas o público norte-americano não parece querer recompensar as mulheres negras que exalam força e auto-confiança. Talvez porque ainda seja uma imagem fora da ordem. O machismo e o racismo associados continuam atuando para limitar o lugar de ser das mulheres negras. O nome disso é backlash.

Kimberly Nichole, você deveria ter ganho. Judith HillAmanda Brown, Sisaundra Lewis, India Carney… e Celeste Betton, eliminada super precocemente na temporada atual: vocês foram incríveis. O que se passa em programas como o The Voice não é apenas gosto pessoal (ou gosto do público). É teto de vidro, backlash, racismo e machismo. A imagem do empoderamento das mulheres negras incomoda… Mas elas não vão parar 🙂

[POR QUE NINGUÉM APERTOU O BOTÃOZINHO PRA SALVAR ESSA MOLIERRRRRRRR, DELSSSSSSSSS #eliminaçãodajenniferhudson #eternoretorno]

Pra quem acha que essas mulheres não estão vencendo por que são ~mais do mesmo~, vale assistir a audition da Judith Hill, que sambou na cara do universo com a criatividade que ela empregou pra transformar a música What a girl wants, da Christina Aguilera, e a inesquecível apresentação da Amanda Brown, que fez de Dream On um rolo compressor de empoderamento feminino negro.

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