Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia.

Escrever esse texto é muito difícil pra mim. Como qualquer texto sobre sair do armário deve ser. Mas eu resolvi enfrentar essa dificuldade, escrevê-lo e assumir publicamente minha bissexualidade. E eis o porquê (senta que lá vem história).

Eu fui uma adolescente bastante cabeça aberta. Não achava erradas as meninas que ficavam com várias pessoas; na verdade achava muito legal que elas fizessem o que queriam sem se importar com os rótulos babacas que muita gente lhes dava. Eu particularmente não tinha interesse em ficar com muitas pessoas, só com algumas. Mas eu tentava sempre levar em consideração minhas vontades pra além dos julgamentos sociais (na medida do possível pra uma adolescente, claro).

Da mesma forma, nunca vi nenhum problema na homossexualidade (até onde me lembro). Quando eu tinha uns 12 anos, fiz uma amiga que me contou, com muita tranquilidade, que era lésbica. Depois desse dia, eu adotei uma postura engraçada, pensando agora, mas muito bacana até. Eu pensava: “tenho que ver se é o caso de eu ser gay”, de uma maneira muito tranquila, como uma opção que todo mundo deveria considerar quando começasse a ter um despertar para a sexualidade. Como eu me sentia atraída por meninos e não me sentia particularmente atraída por nenhuma menina, concluí que não era gay. Vida que segue.

O problema é que havia uma opção que eu nunca considerei. E a invisibilidade dessa opção me gerou uma quantidade enorme de sofrimento ao longo da vida.

Eu sempre me relacionei com meninos, com homens. Tive alguns relacionamentos longos e intensos; sou uma dessas pessoas que pode dizer que já viveu mais de um grande amor (que sorte!). Mas eu nunca afirmei (ou não me lembro de tê-lo feito) que era hétero. Eu nunca tive convicção pra falar isso. Porque o meu desejo não se encerrava nesse prefixo. Eu nunca falei que era hétero. Mas nunca cheguei a falar nenhuma outra coisa.

A pergunta que eu me fiz na adolescência persistia, sob outra forma: tenho que ver se é o caso de eu ser hétero. E eu provavelmente não era. O desejo por outro gênero que não o masculino me atormentava sutilmente. Depois de assumi-lo pra mim e algumas vezes para meus parceiros homens, eu passei a classificá-lo como uma fantasia, já que era algo pouquíssimo posto em “prática”, por assim dizer. Além do mais, com muito menos frequência eu senti atração por mulheres do que por homens. Então provavelmente não era o caso de eu ser gay. Era o caso de eu ser bi?

Da mesma forma que eu não me sentia à vontade com o prefixo hétero, eu também não sentia “legitimidade” pra dizer que era bi. Isso acontecia porque o significado de ser bi era – ainda é – muito desconhecido pra mim. Ser bi é gostar de mulheres e de homens? Então se eu sentia atração por homens mais vezes do que por mulheres, eu provavelmente não era bi. Se eu fiquei infinitas vezes mais com homens do que com mulheres, eu não tinha como ser bi. Mas o que eu era?

Eu também me perguntei se tinha serventia eu continuar me colocando essa pergunta. Durante um tempo, pra fugir do sofrimento, adotei a postura de que “rótulos são opressivos”, “as possibilidades humanas são tão inúmeras que não precisamos dar nomes” etc. Com essa postura, racionalizada e fundamentada em parte do ativismo feminista, tratei de varrer minha questão pra debaixo do tapete (ou trancá-la dentro do armário). Além do mais, eu estou num relacionamento monogâmico com um homem pelo qual eu sou absolutamente apaixonada (e não gostaria de que fosse de nenhum outro jeito). Por mais francos que sejamos um com o outro, por mais apoio e abertura que tenhamos para conversar inclusive sobre a minha “confusão”, eu sinceramente não estava preparada pra enfrentá-la. Primeiro porque a heterossexualidade pode ser muito confortável. Eu podia passar mais um tempo nela e deixar pra enfrentar essa questão se um dia ela se tornasse inevitável. E segundo porque eu não conseguia enxergar a bissexualidade como uma opção na qual eu me “encaixasse”. Eu estava em um não-lugar, então parecia melhor simplesmente não pensar sobre isso.

Voltamos para o dia 23 de setembro. Como os meus feeds nas redes sociais são maravilhosamente feministas, alguns textos e imagens sobre o dia da visibilidade bi apareceram. E me bateu um remorso já antigo. Será que eu estou num armário? Que tipo de ativista feminista pró-LGBT eu sou se eu for uma mulher bissexual e não tiver a capacidade de assumir isso? Confusão, sofrimento, remorso… e culpa. Mas sempre que eu sinto culpa por coisas desse tipo, a pulga feminista que mora atrás da minha orelha fica alerta. Me lembra que a sociedade é machista, é escrota, é LGBT-fóbica e que sempre existe uma chance de que a culpa não seja minha. E não era.

A culpa, como eu comecei dizendo, foi da bifobia. Que me faz viver num mundo em que eu não pude enxergar realmente a possibilidade de ser bissexual. E olha que eu vivo numa bolha esquerdista, feminista, pró-LGBT… e nada disso me ajudou. A invisibilidade da bissexualidade existe inclusive nos meios mais progressistas. Quase ninguém entende de verdade o que significa ser bi. Ser bi não significa estar fadado à insatisfação sexual ao se relacionar com uma outra pessoa. Ser bi não significa estar indeciso (“na verdade você é gay” se estiver numa relação homo, “na verdade você é hétero” se estiver numa relação hétero”). O fato de eu estar numa relação monogâmica com um homem porque eu o amo, é isso que eu quero e é o que me faz feliz não significa que eu não seja bissexual. Bissexualidade tem a ver com a maneira como me sinto, com o meu desejo – como me disse uma amiga querida. Eu nunca tinha pensado nisso antes, nunca ninguém tinha me falado isso antes. Eu não preciso de comprovação “prática” da minha sexualidade, eu não preciso me enquadrar numa expectativa social do que é a bissexualidade. Mesmo porque a expectativa social dominante é de que bissexualidade não existe, que ser bi é na verdade estar confuso.

Quem está confuso são as pessoas bifóbicas. O dia em que eu finalmente consegui olhar para mim mesma sem o véu invisibilizador da bifobia foi o dia em que eu finalmente não estive confusa. Foi o dia em que eu estive livre.

Foi por isso que eu resolvi escrever esse texto. Eu, que tenho pavor de me expor, que tenho pavor de ser o centro das atenções. Porque se outras pessoas não tivessem escrito textos sobre bissexualidade, se outras pessoas não tivessem se assumido publicamente como bissexuais, eu ainda não estaria entendendo nada. Estaria me sentido perdida, confusa e, principalmente, sozinha. Não estamos sozinhas/os. Eu preciso, por um motivo muito pessoal e um motivo muito político, me juntar ao coro que diz: somos bissexuais. Existimos e resistimos.

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[+] (In)visibilidade bissexual, no Blogueiras Feministas.

[+] 10 coisas para NÃO dizer a uma mulher bissexual, no Blogueiras Feministas.

[+] O não-lugar, o apagamento, a bifobia e o racismo: precisamos falar sobre a mulher negra bissexual, no Blogueiras Negras.

[+] Postagens da Blogagem Coletiva Bissexual de 2015, do Bi-sides.

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