Uma ode ao ressentimento & a obra-prima da interseccionalidade: Mandume [Emicida e cia.]

Hoje tive a felicidade de participar de um debate sobre intolerância religiosa no colégio onde trabalho (CPII *faz coração com a mão*) e me encontrei na situação de ter que ponderar sobre uma questão um tanto quanto espinhosa. O debate foi de altíssimo nível e acabou, em determinado momento, tornando-se focado na questão racial, a partir de quando passamos a falar sobre representatividade, protagonismo, espaços exclusivos, apropriação cultural, etc. Nesse contexto, fiz uma fala tentando compreender porque há espaços de cultura e política negros onde pessoas brancas não são bem vindas, chegando eventualmente a serem expulsas com algum nível de agressividade. Além da questão do protagonismo das pessoas negras no movimento negro e da importância de se respeitar os espaços exclusivos, ponderei que, por mais que possamos nos sentir chateados e ofendidos ao sermos retirados de tais espaços, não podemos exigir amabilidade, cuidado e delicadeza dessas pessoas. A experiência do racismo e do alijamento da maioria esmagadora dos espaços é uma experiência muito dolorosa. Da mesma maneira, ver os poucos espaços sociais que são considerados como seus, quando os quais você se identifica, sendo preenchidos (e tantas vezes dominados) por pessoas que já podem transitar por todos os outros espaços sociais que a você são interditos pode ser igualmente doloroso e, em alguma medida, revoltante.

“Para a luta!”, cartaz soviético, 1950.

Uma expressão velha conhecida dos militantes do século XX (desculpa fazer o pessoal se sentir coroa) é o ressentimento de classe ou ódio de classe. Ressentir-se, antagonizar o opressor, é uma força social importante. Vejam bem: não estou dizendo que ódio e ressentimento são coisas bacanas, que devemos todos entrar em lutas fratricidas (afinal, são tantas opressões) nem nada disso — mesmo porque eu sou a rainha da contemporização; quem me conhece pessoalmente sabe da minha fala mansa. Mas acredito que o ressentimento, antes de mais nada, tem fundamento. É isso que tentei explicar hoje no debate. Ele tem fundamento e cabe principalmente a nós, pessoas privilegiadas em termos de pertencimento racial, compreender isso e não exigir sempre sermos recebidos de braços abertos, com carinho e cuidado, em todos os espaços de resistência que resolvermos ocupar (mesmo que com a melhor das intenções).

Enfim: acredito que o ressentimento tem lá o seu papel na construção da consciência e do movimento social. É certo, pra mim, que ele é um passo, e não um fim — eu pessoalmente não sou fã de movimentos que antagonizam as pessoas privilegiadas, me sinto muito mal em organizações que tem esse tipo de postura.

Isso tudo na verdade foi pra falar de uma música, rs. Então vamos lá, caso você ainda esteja com paciência de ler mais um bocadinho e não tenha parado no segundo parágrafo pensando: “pô, pensei que essa mulé ia falar do Emicida, mó propaganda enganosa!”

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Então, eu faço parte do grupo de pessoas que descobriu o novo álbum do Emicida e que gostou muito dele. Mas, mais do que isso, eu me tornei obcecada pela faixa Mandume, com participação de Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin. Obcecada não é exagero, eu tenho ouvido essa música repetidamente todo dia e ficado impressionada e arrepiada a cada audição. Isso porque a música é uma obra de arte da interseccionalidade, trazendo pra gente em forma de rap o complexo enredado das opressões de raça, classe e gênero, além de ser do caralho (ou da bu****, para citar a Drik Barbosa).

E ela também é uma ode ao ressentimento: “Eles querem que alguém que vem de onde nóiz vem seja mais humilde, baixe a cabeça, nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda. Eu quero é que eles se ****”. Tu ouve isso e já fica, pô, bolado. É um refrão que explica de modo direto e pouco delicado o que eu tentei explicar naqueles parágrafos iniciais.

Drik Barbosa, divulgação.

Drik Barbosa, divulgação.

A primeira estrofe é o rap da Drik, que traz a força do feminismo negro de uma geração diferente daquela de pioneiras como Lélia González: “Feminismo das preta bate forte, mó treta. Tanto que hoje cês vão sair com medo de bu****!”. Não tem amabilidade, não tem desculpa, não tem com-licença. “Rima pesada basta, falo mêmo, igual Tim Maia”. É que no “tempo das mulher fruta”, ela veio “menina veneno” (vamos parar um momento pra amar esse verso? Vamos? OK).

Tudo vai muito bem até chegar a estrofe do Amiri. O maluco simplesmente resume em quatro versos TODA UMA DISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA sobre a negação da subjetividade histórica da população negra, tratada sempre como objetos da história. É o povo sobre o qual se fala, mas que não se tem deixado falar em séculos: “Sem identidade, somos objeto da História que endeusa “herói” e forja, esconde os restos na História”. O rap do Amiri nessa música é uma obra de arte à parte, um tratado sociológico em questão de minutos. “Protagonista ele, preto, sim”.

Em seguida vem a participação do Rico Dalasam, rapper que todo mundo que luta contra as opressões deveria parar pra conhecer. Antes de eu atentar pra própria letra, me chamou atenção a batida funk que ele trouxe, maneiríssima. E ao atentar, finalmente, descobri um poema contemporâneo lindíssimo, que traz a questão do genocídio da juventude negra pela polícia, em que sobreviver já é um ato revolucionário: “Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala. Não marca, nossa alma sorri, briga é resistir nesse campo de fardas”.

Rico Dasalam, divulgação.

Rico Dasalam, divulgação.

O rap do Muzzike traz com mais clareza ainda a questão de classe entrelaçada com a questão racial. Ele não antagoniza simplesmente “o branco”, ele antagoniza o “playboy”: “Tá pra nascer playboy pra entender o que foi ter as corrente no pé”. Ele desce o dedo na crítica, chamando atenção pro tratamento diferente que a sociedade dispensa para os usuários de droga que tem grana e os que não tem: “São os nóia da Faria Lima [área nobre de SP], é a Cracolândia blasé”. A luta de classes se explicita ainda mais (se é que ‘tava pouco) quando ele fala: “Hoje os boy paga de ‘drão, ontem nóiz tomava seus Nike”.

Da contribuição do Alaafin, destaca-se a imagem forte do rap como resistência e impedimento ao próprio ato do colonialismo: “Sem ideia torta, no rap eu vou na frente da tropa. Sem eucaristia no meu cântico! Me vêem na Bahia em pé, dão ré no Atlântico! Tentar nos derrubar é secular. Hoje chegam pelas avenidas, mas já vieram pelo mar”.

Depois de tudo isso, peço perdão, mas o rap do Emicida ficou até fraquinho, rs. De qualquer forma, acho que a estrofe dele traz um verso que retoma bem a questão do ressentimento como uma força construtiva dos oprimidos: “Vai ver nós gargalhando com o peito cheio de rancor!”

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Rei Mandume.

Rei Mandume.

Mandume Ya Ndemufayo, que dá nome a faixa, foi o último rei dos Cuanhamas, povo africano que ocupava no início do século XX a região sul de Angola e norte da Namíbia. Ele lutou contra os colonizadores portugueses e alemães e, segundo a tradição oral angolana, ao perceber-se impossibilitado de prosseguir na resistência (visto a superioridade militar dos colonizadores), preferiu se suicidar ao ter que se render. Mandume é um símbolo de força, resistência, orgulho e, principalmente de não se ajoelhar sob nenhuma hipótese ao opressor. Não tem amabilidade, nem com-licença: só tem resistência e orgulho negro. E isso, pra mim, é perfeitamente legítimo.

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