Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

Uma ode ao ressentimento & a obra-prima da interseccionalidade: Mandume [Emicida e cia.]

Hoje tive a felicidade de participar de um debate sobre intolerância religiosa no colégio onde trabalho (CPII *faz coração com a mão*) e me encontrei na situação de ter que ponderar sobre uma questão um tanto quanto espinhosa. O debate foi de altíssimo nível e acabou, em determinado momento, tornando-se focado na questão racial, a partir de quando passamos a falar sobre representatividade, protagonismo, espaços exclusivos, apropriação cultural, etc. Nesse contexto, fiz uma fala tentando compreender porque há espaços de cultura e política negros onde pessoas brancas não são bem vindas, chegando eventualmente a serem expulsas com algum nível de agressividade. Além da questão do protagonismo das pessoas negras no movimento negro e da importância de se respeitar os espaços exclusivos, ponderei que, por mais que possamos nos sentir chateados e ofendidos ao sermos retirados de tais espaços, não podemos exigir amabilidade, cuidado e delicadeza dessas pessoas. A experiência do racismo e do alijamento da maioria esmagadora dos espaços é uma experiência muito dolorosa. Da mesma maneira, ver os poucos espaços sociais que são considerados como seus, quando os quais você se identifica, sendo preenchidos (e tantas vezes dominados) por pessoas que já podem transitar por todos os outros espaços sociais que a você são interditos pode ser igualmente doloroso e, em alguma medida, revoltante.

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