Por que mulher é “cozinheira” e homem é “chef”?

Meu relacionamento com o mundo da cozinha é relativamente recente. Eu sempre gostei muito de comer, mas minha família nunca foi particularmente interessada em cozinhar. Essa história de “comida da vovó”, “comida da mamãe” nunca fez muito sentido pra mim, já que lá em casa fazer comida era muito mais uma questão de necessidade, de sobrevivência, do que qualquer outra coisa. Assim, a tríade carne moída, arroz e feijão reinou na minha infância e adolescência e eu basicamente não aprendi a cozinhar de verdade.

rita

Rita Lobo, diva máxima.

Enquanto eu crescia, acabei adotando uma política de sempre responder “sim” para quando alguém me perguntava “você gosta de comer x?” porque, com frequência, eu nunca tinha experimentado x. Assim acabei me tornando uma dessas pessoas conhecidas por comer de tudo.

Mas a percepção de que comer poderia ser uma aventura muito mais abrangente (e mais deliciosa) do que carne moída, arroz e feijão (ou brigadeiro e batata frita para momentos festivos) chegou na vida adulta. Tive namorados que gostavam muito de cozinhar e que o faziam bastante bem. Pra mim era fabuloso, como uma pessoa que não cozinhava mas amava comer. Acabei adiando o aprendizado, mas elaborei bastante meu paladar. Conheci pelo gosto ingredientes e temperos novos.

O chef canadense Chuck Hugues.

O chef canadense Chuck Hugues.

Um desses namorados acabou decidindo tornar-se chef e foi fazer curso de gastronomia. Pouco tempo depois, terminamos. Eu fiquei sem namorado, mas também sem risotto, sem açafrão, sem hummus bitahine… E esse vazio gustativo acabou sendo o empurrão que faltava pra eu me aventurar a realmente cozinhar.

Essa história toda foi um preâmbulo para localizar mais ou menos meu lugar de fala em relação ao mundo da cozinha e também o da gastronomia. Fui uma mulher que não aprendeu a cozinhar com as mulheres de sua família que, por sua vez, não gostavam e não se interessavam muito pelo ato. Era curioso pra mim porque o senso comum sempre falava na comida da mamãe e da vovó (e raramente na comida do papai e do vovô). Todas as propagandas voltadas pra qualquer coisa que tivesse relação com cozinha, de caldo Knorr a Air Fryer, de ofertas da semana do supermercado ao peru de Natal, eram voltadas para um público feminino. A Ana Maria Braga, quando ia ensinar a receita daquela manhã, gritava “acorda, menina!”. Enfim, a sociedade nos ensina rasamente que lugar de mulher é na cozinha. A cozinha é, então,  domínio da mulher.

Gordon Ramsey boladíssimo.

Gordon Ramsey boladíssimo.

Por outro lado, o chef mais badalado da última década chama-se Jamie Oliver. Via de regra, no mundo da gastronomia — mesmo a gastronomia televisiva –, quem mandam são os homens. Os jurados de reality shows de comida são majoritariamente homens. A figura do chef é uma figura masculina. O irritado e malvadão Gordom Ramsey. O tatuado e lindinho Chuck Hughes. Alex Attala. Claude Troigros. Olivier Anquier.

Naturalmente existem mulheres chefs famosas. Mas eu só sei citar de cabeça a Roberta Sudbrack. Na TV, há a maravilhosa Nigella, cujo programa se passa supostamente na cozinha da sua casa, sempre com menções a marido e filhos. Mais recentemente, vemos a controversa Bela Gil e a diva-maravilhosa-minha-guru-culinária Rita Lobo no GNT. Isso sem falar nas Palmirinhas da vida… Mas basta fazer uma busca por “chefs brasil” no Google Imagens e ver o percentual de homens e mulheres. O mesmo vale para “world’s best chefs”. Você vai encontrar: homens.

O Netflix lançou uma série-documentário chamada Chef’s Table, em que cada episódio fala sobre algum dos maiores e mais reconhecidos chefs da atualidade. Seis episódios. Uma mulher. Essa mulher é Niki Nakayama, e o episódio em que ela aparece aborda do fato (ou seja, não é só uma observação ~feminazi~ de minha parte) de que o mundo da gastronomia é dominado por homens.

Chef André Mifano.

Chef André Mifano.

Uma jornalista comenta: “Rola toda uma conversa sobre mulheres na cozinha e como a mídia não lhes dá muita atenção. E é verdade, é assim mesmo. Mas ela [Niki] te deixa de queixo caído como qualquer chef tatuado, todo masculino [faria]”. Achei engraçado essa referência a “chef todo tatuado, todo masculino”, porque rola muito isso mesmo, não é? O estereótipo de chef hoje em dia é um pouco esse do homem cool, habilidoso, tatuado e muito masculino [“butch”].

A chef Niki Nakayama.

A chef Niki Nakayama.

Voltando à Niki, ela comenta essa questão se mostrando claramente incomodada. Diz que quando recebe críticas negativas, as pessoas justificam com o fato de ela mulher. Dizem também que ela não pode trabalhar num alto nível de gastronomia por ser uma mulher. Da mesma forma, o feedback positivo que recebe também viria só pelo fato de ela ser mulher. Ou seja: independente do que ela fizer, o mérito ou o fracasso ficam diluídos no seu gênero, que determina tudo. Nesse sentido, ela afirma: “Não quero que o fato de ser mulher seja um problema no trabalho. Mas a questão simplesmente… existe”.

A companheira de Niki conta que houve casos de homens que se retiraram do restaurante após descobrirem que a chef era mulher. Esse tipo de situação a fez adotar uma estratégia: “Quando as pessoas me vêem, elas não me identificam como a chef. Elas pensam que eu não caibo no papel de chef. A suposição automática é de que eu não sei o que estou fazendo. É por isso que, nesse restaurante, a melhor forma de desfrutar a comida é não ver quem a produz”. É uma versão daquele tipo de situação em que escritoras mulheres escrevem sob pseudônimos masculinos, ou têm suas obras publicadas por homens para que possam ser recebidas pelo grande público sem maiores problemas.

Estou falando essas coisas todas como mera observadora externa e mal informada de um fenômeno que me parece profundo. Por que as cozinheiras são mulheres e os chefs são homens? A cozinha que é o lugar de mulher, conforme o dito popular, é a da casa, domínio privado para manutenção da família. Já a cozinha do restaurante é domínio masculino, do estereótipo de chef tatuado, “butch”, ranzinza, cuja agressividade é perdoada por causa do seu talento natural.

É claro que essas coisas não são absolutas e que há alguma diversidade no mundo da cozinha. Há chefs mulheres como Niki Nakayama e há homens anônimos que cozinham em casa para suas famílias. Mas a regra ainda não é essa. Chefs mulheres sofrem com um backlash e as propagandas de comida caseira ainda são todas voltadas para elas. Do outro lado, quem está no topo da cadeia alimentar (com trocadilho) da gastronomia são os homens — e são homens brancos, porque a cozinha do restaurante também está cheio de homens negros e nordestinos em funções de apoio dos quais você provavelmente nunca vai ouvir falar.

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