A memória da minha avó e os grossos lençóis da ditadura militar.

Hoje é aniversário de um golpe. Um acontecimento que freou um processo de ampliação da democracia no nosso país (a despeito do que alguns dizem). É difícil não pensar “Como seria se…?”.

Hoje tomei café da manhã com minha avó. Comentei algo sobre a exposição sobre os 50 anos do golpe que está rolando no CCBB-RJ e ela disse, como quem busca a resposta para uma pergunta, que gostaria de ir. Respondi que, pra ela, seria difícil; é muito tempo em pé (ela tem 84 anos e alguns problemas de saúde característicos da velhice que a impedem de fazer certas coisas). Ela lamentou, e se pôs a contar uma história.

Minha avó conta muitas histórias sobre seu passado, frequentemente as mesmas. Memórias da infância, da juventude, desgostos da vida adulta… Todos pontuados por ditados populares e frases de efeito que já conhecemos de cor. Mas o que ela contou hoje, embora factualmente já tenha sido contado e recontado, ganhou contornos novos. Isso porque ela mesma ganhou uma nova perspectiva sobre a história. Vou tentar reproduzi-la brevemente aqui com o perigo de falar besteira, já que costurar os retalhos de memória de uma senhora de 84 anos está longe de ser ciência exata.

Meus avós maternos vieram do Norte, moravam em Macapá. Tinham uma vida relativamente estável, apesar de não terem ensino superior; minha avó era professora e meu avô trabalhava no administrativo da Companhia de Energia do Amapá. Eles se mudaram para o Rio de Janeiro no início dos anos 60. O motivo, nas narrativas anteriores da minha avó, parecia um arroubo de espontaneidade do meu avô, que quis vir e pronto.

Foto de Orlando Brito, parte da exposição Resistir é Preciso, no CCBB RJ.

Foto de Orlando Brito, parte da exposição Resistir é Preciso, no CCBB RJ.

Essas últimas semanas foram marcadas pela presença de um debate na sociedade sobre o Golpe e a Ditadura Militar como eu não me lembro de ter testemunhado nas minhas poucas décadas de vida. Minha avó não saiu de casa pra conhecê-los, mas a TV e o rádio são os melhores amigos de uma senhorinha.

Sobre a ditadura, a única coisa que ela sempre contou foi que um tio-avô meu, irmão do meu avô, foi preso, barbaramente torturado e exilou-se na Alemanha. Eu lembro de ter conhecido pessoalmente esse tio uma vez, antes de completar 6 anos. Na adolescência, com os primeiros contatos mais diretos com História e com militância na escola, aguçou-se minha curiosidade, mas ele já havia morrido, e também meu avô. Tudo que eu saberia da história dele seria a famigerada técnica de tortura da gaveta, fechada com força esmagando seus genitais.

Hoje minha vó me disse: “Esse negócio de Comissão da Verdade… Acho que eu teria algo pra contar”. No início dos anos 60, meu avô era presidente da Juventude Operária Católica (JOC) de Macapá, e minha avó presidenta da JOC feminina. Ela conta que se lembrou de uma convocação do prefeito de Macapá para que os dois se apresentassem diante dele. O que houve na reunião ela não lembra, apenas que meu avô peitou o prefeito, debochando do que ele dizia.

As lacunas de conteúdo nas lembranças da minha vó, pelo que ela mesma diz, devem muito à estrutura machista em que ela cresceu e viveu toda a vida. Sua mãe a proibia de ler autonomamente (“coisa para homens”), ela nunca foi incluída nos assuntos “de homens” e nunca teve interesse mesmo em questões políticas. Queria era criar os filhos, resolver as coisas.

O fato é que, pouco depois do desentendimento com o prefeito, meus avós vieram de férias para o Rio. E não voltaram mais. As férias se transformaram em uma mudança às pressas; tudo que eles tinham em Macapá foi vendido, não veio nada. Eu perguntei: “Em que ano exatamente vocês vieram?” e ela: “De 63 pra 64”.

Não sei e provavelmente nunca vou saber se a mudança com cara de fuga dos meus avós de Macapá pro Rio teve alguma coisa a ver com o advento da ditadura. Mas imaginá-los como lideranças da JOC em mudança brusca de cidade na virada de 63 pra 64 me faz suspeitar que talvez a hipótese não seja um delírio da imaginação da minha avó. O que estava em jogo de fato, como assuntos “de homem” que eram, eu não tenho condições de saber.

Desaparecidos da Ditadura Militar.

Desaparecidos da Ditadura Militar.

Mas a moral dessa história toda me parece ser a dimensão do véu do silenciamento da ditadura militar no Brasil. Foram 21 anos de regime militar. Eu, de vida, tenho 24. E, em todo esse tempo de histórias contadas, minha vó nunca antes havia se colocado a possibilidade de ter tido alguma relação entre o curso de sua própria vida e a ditadura militar. Era só seu cunhado guerrilheiro, “todo deformado”, de quem meu avô proibiu seus filhos de falar fora de casa. Os 50 anos do golpe fizeram emergir os pés torturados da nossa sociedade, que jaziam sob o lençol pesado do esquecimento. Estamos finalmente falando – todos nós, amplamente – sobre o que aconteceu. Repensando nossas próprias trajetórias de vida, entendendo a profundidade da ferida.

Não podemos voltar a esquecer.

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2 respostas em “A memória da minha avó e os grossos lençóis da ditadura militar.

  1. Bárbara, gostaria de entrar em contato com você por email. Sou produtora de uma peça e teremos uma apresentação dia 17/10/14, para pessoas que pensem a respeito da diferença entre gêneros. A peça é somente para convidados e gostaríamos de te convidar. Se ler meu post a tempo e te interessar, por favor, entre em contato com : pati.naegele@yahoo.com.br

    Obrigada!

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