A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

Me causa uma dor incômoda perceber que a chave da discussão ainda gira em torno da questão de merecimento. “Merecer” não era verbo pra estar junto da palavra “estupro”. Estupro é a pior violência do mundo, pra mim. Eu tenho muito mais medo de ser estuprada do que de morrer, de ser assassinada. Estupro é uma morte. Uma morte de quase tudo o que importa num sujeito (e como são bravas as mulheres que seguem a vida depois de sofrer algo assim).

“Eu não mereço”… Eu não mereço é viver em uma sociedade que acha que estupro é questão de merecimento. Isso sim ninguém merece.

Me passa pela cabeça, diante de um quadro claro como esse que a pesquisa mostrou, que talvez tenhamos que ser mais ofensivas. Eu sempre fui da turma do diálogo, minha atuação na sociedade é principalmente no campo da educação. Mas isso não significa que meu objetivo é a conciliação, a harmonia. Sob uma perspectiva crítica de educação, diálogo não é pra conciliar, diálogo é debate, argumentação, problematização, desnaturalização das coisas.

“Eu não mereço ser estuprada” não é desnaturalização suficiente. É claro, usamos essa resposta com um toque de ironia, sabemos que ninguém merece. Mas eu não quero ter que falar, eu não vou falar. Alguém que diz que algum ser humano, que alguma mulher tem qualquer tipo de culpa pelas violências que sofre não merece ironia, não merece sutileza. Merece um dedo no meio da cara: a culpa não é minha, A CULPA É SUA.

O culpado pelo estupro não é a mulher.
O culpado pelo estupro não é a roupa da mulher.
O culpado pelo estupro não é a rua escura por onde a mulher passou.
O culpado pelo estupro não é o álcool que a mulher ingeriu.
O culpado pelo estupro é o estuprador. O culpado pelo estupro é o estuprador. O culpado pelo estupro é o estuprador.

Mas o único culpado pelo estupro não é o estuprador.
O culpado pelo estupro também é você.

“Quem mandou beber tanto?”
“Com uma roupa curta daquele jeito…”
“Quem mandou andar na rua aquela hora da noite?”
“Com aquela maquiagem de piranha…”
“Quem mandou se comportar daquele jeito?”

“Ela estava pedindo”.

A culpa do estupro também é sua, jornalista que constrói texto tendencioso contra a vítima, que “diz ter sido” violentada, enquanto o estuprador é “suposto”, o crime é “suposto” e as circunstâncias são apresentadas como justificativas (“Ela o havia traído” = Ela mereceu.).

A culpa é sua, que trabalha com publicidade ou qualquer tipo de produção cultural e que reforça estereótipos de gênero pra vender produto, “dialogando com a opinião pública”.

A culpa também é sua, que repreende a menina que não “se comporta como uma mocinha”, que “dá liberdade para os garotos”, que “parece uma prostituta com essa roupa”, que “está fazendo coisa de homens, ponha-se no seu lugar”.

Culpa sua, que incentiva o menino ser pegador, predador, macho alfa, como a única possibilidade de existir como um “homem de verdade”, criando monstros que desenvolvem a necessidade de afirmar sua masculinidade bruta nos nossos ouvidos cotidianamente em alto e bom som [Cantada de rua é violência, cantada de rua é uma afirmação simbólica de poder do homem sobre a mulher, que é obrigada a ouvir, que é objetificada, que é apassivada].

A culpa é sua, que trata mulheres transgêneras e mulheres não-héteros como não-mulheres. Que reduz mulheres negras a corpos sexualizados. Que separa mulheres “de verdade” daquelas que merecem algo que não respeito, mas violência “corretiva”.

“Eu não mereço” uma ova. É óbvio que eu não mereço, é óbvio que ninguém merece. É óbvio!

Mas não tão óbvio pra 65% dos entrevistados. Nem tão óbvio pra mim, que ando pela rua sempre, sempre com medo. Não é óbvio nessa maldita cultura do estupro.

Ninguém merece viver sob uma cultura do estupro. Eu não mereço. Não merecemos. Eu quero destruir a cultura do estupro, destruir o machismo, desnaturalizar esses símbolos, parar a violência. Mulheres não são só corpo, mas eu também sou corpo e meu corpo e minha mente são inteiramente meus – e não estão a seu dispor, machista. Meu corpo – só o que você enxerga – vai se postar na sua frente e vai te impedir de passar. Não passarão.

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2 respostas em “A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

  1. Adorei seu post, concordo, concordo, concordo. Gostaria de escrever muito bem assim, mas nao escrevo e tenho muita vontade de falar sobre as mulheres que no fundo são sim machistas, sexistas e se colocam sobre uma capa de intelectuais e sem preconceitos. Eu vi uma coisa no face que me irritou muito, mas nao escrevo bem o suficiente para dar uma resposta a tamanha cretinisse. Aí vai a pérola :

    “Essa é uma das campanhas mais burras que já vi. Como sempre, as redes sociais foram tomadas por um daqueles protestos espontâneos que conseguem piorar o que já está péssimo. Meninas começaram a postar no Facebook fotos em que aparecem discretamente nuas, com a legenda “Eu não mereço ser estuprada”. Vixi. Quem merece, Jesus? Quem???

    Lamento informar, mas combater a cultura do estupro mostrando corpos nus é tão eficiente quanto combater o alcoolismo enchendo cada cômodo da casa de cachaça. Fala sério… Vcs estão me lembrando a campanha manifestada contra o deputado Marco Feliciano: gays e lésbicas se beijando em frente às igrejas evangélicas… qual o resultado? Já te falo: ao final, Feliciano ganhou muito mais força em seu eleitorado. Simplesmente, não funciona, querida. Você está somente reforçando preconceitos. E vai ser estuprada se continuar abusando. Não é assim que vamos diminuir essa atrocidade.

    A questão é um pouco mais complexa do que vcs gostariam. Lutar pela sexualidade hoje em dia não é tão simples e divertido assim. Podem botar a roupa. Sinto muito. Não, querida. Correr em volta da Lagoa pelada e abraçar a Candelária de topless vai ser literalmente pica das galáxias, mas o mundo vai continuar a mesma porcaria. E pode até piorar, sim? Saiba que “eu não mereço ser estuprada” já criou uma onda de sites de estupradores mostrando “as que merecem”. Muitos desses sites já foram denunciados, mas outros tantos estão sendo criados.

    E sua foto, lindona, pode estar lá.

    Vale lembrar.”

  2. Por trás da afirmação de que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”, está a noção de que os homens não conseguem controlar seu apetite sexual; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. Logo, a mulher não é sujeito social! Elas não têm autonomia! O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir “adequadamente”. O que é “se vestir adequadamente”? Limitamos a capacidade de autodeterminação da mulher para pensar, querer, agir e sentir…Para que fique muito evidente: as mulheres estão prejudicadas em seu reconhecimento de sujeitos porque elas são definidas como “seres para os outros” e não como “seres com os outros”. Elas são “para o uso do instinto sexual masculino” e até “para o uso do sonho de consumo masculino”, como se vê nas músicas e cenas que vulgarizam o papel feminino, nas propagandas de carros, perfumes, bebidas alcoólicas…

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