Eu nasci branca ou Me disseram negra: um ensaio sobre interseccionalidade

Eu nasci branca.

Branca do cabelo enroladinho, de classe média, moradora do Grajaú e logo logo da Zona Sul do Rio, filha única com tevê só pra ela no quarto.

Minha mãe, uma morena dos cabelos cacheados longos, pretos, a boca pintada de vermelho e um sorriso sedutor. Meu pai era branco. Os pais dele também. Mas os pais dele não eram de classe média, eram pobres. Eu sabia pelas diferenças que eram bem claras pros olhos observadores de criança. A viagem pra casa deles era longa. A rua deles era de terra, o muro deles era daquele cimento espetado que sempre me arranhou muito. O cachorro deles comia comida de gente (o resto da nossa), arroz, feijão, legumes e carne. Não entrava em casa e não conhecia ração. Na casa dos meus avós paternos todo mundo andava descalço, os homens sem camisa e a gente podia subir em cima da casa pra soltar pipa. Num céu repleto delas.

Um dia o meu pai foi embora e a minha mãe estava desempregada. Nós voltamos pra casa da minha avó materna e, desde esse dia, moramos em com ela e com meu tio em apartamentos alugados diferentes, dividindo dois quartos pra quatro pessoas. Mas ainda na Zona Sul do Rio.

Minha pele foi ficando morena com o sol, fui ficando da cor da minha mãe. Mas por algum motivo, desde uns 6 até uns 11 anos, meu cabelo alisou. Talvez porque eu o escovasse? Na verdade não me lembro.

Depois que o meu pai foi embora eu nunca mais soltei pipa no telhado de uma casa em São Gonçalo, mas também não era mais exatamente de classe média como era antes de ele se ir. Agora minha mãe recebia carta de cobrança da escola. Eu fazia curso de inglês como minhas outras amigas e amigos, mas quem pagava era minha avó, que dividia o valor com minha tia. Um tempo depois, minha mãe se deu conta que não poderia mais pagar escola. Fez mais um esforço guerreiro e me botou num cursinho pago pra passar pra uma escola pública federal. Para o alívio de todos, eu passei.

Eu era branca. Na minha escola pública federal quase todo mundo era branco, mas alguns poucos eram negros e eu não era como eles. Umas sofriam bullying. Outros moravam na favela. Dos que não acompanharam o ritmo de rendimento exigido na escola e foram jubilados por ter duas reprovações seguidas, a maior parte era negra. Na minha escola pública federal a diferença era manifesta. A escola era pública, o passe no ônibus era livre, mas poucos eram pobres. Poucos também eram ricos, muitos eram classe média. Como eu. Muitos eram de classe média, mas uma média que era confortável como café com leite, que viajava pra Disney nas férias e tinha festa de 15 anos. Da classe média como as crianças da escola particular. Eu não era como as crianças da escola particular e eu sabia. Mas eu ainda era branca. E morava na Zona Sul.

No último ano da escola, a greve me preocupou (já que não passar pra uma universidade pública, assim como não passar pra minha escola pública federal, não era uma opção viável) e eu acabei procurando um cursinho, onde eu e minha mãe pedimos bolsa e fomos atendidas. Um dia, no cursinho, eu deixei de ser branca. Um professor apontou pra minha fileira e disse “Responda, moreninha” e a colega que estava sentada na minha frente respondeu. O professor disse: “Você é branca, menina, tem que ir muito à praia pra ser chamada de moreninha. Estou falando com a moreninha ali atrás”.

Então eu virei moreninha. E muitos dos que me chamaram assim foram homens. Muitos desses quais desejosos de mim. “A cor da sua pele é tão bonita…”, me disseram homens brancos. A cor da minha pele não só não era branca como passou a ser digna de nota.

Então eu comecei a me perguntar mais sobre a minha cor. Como não tinha acesso à minha família paterna, procurei respostas sobre origens ancestrais na família materna. Como minha avó, que é branca, e meu avô vieram do Norte, presumi que houvesse algum traço indígena que pigmentasse a minha pele “moreninha”. Meu avô era “pardo” – dizia assim na certidão de nascimento dele. Eu sempre me declarei como parda quando tinha alguma estatística porque não gostava de ser chamada de “branco”. Os brancos eram os invasores e os opressores e, se eu podia não ser nomeada como eles, tanto melhor. No mais, eu não tive experiência de branca quando fui diferenciada pelos homens (muitos brancos e estrangeiros) e até pelas minhas amigas brancas que comparavam seu bronzeado de sol com a minha cor, quando diziam que eu me parecia com atrizes e cantoras negras. Mas eu nunca fui negra. Nunca ninguém riu do meu cabelo, deixou de me atender numa loja de shopping (talvez no Shopping Leblon alguma vez, estando “mal vestida”), nunca ninguém me chamou de nomes horríveis que me desqualificassem pela cor da minha pele. Só me chamaram “moreninha” e olharam com admiração pra minha cor. Cor de doce de leite. Cor de pão de queijo queimado. Cor de brasileira. Sim, cor de brasileira. A morena brasileira com curvas, olhos castanhos e cachos escuros. E eu até sei sambar.

Descobri que minha bisavó, mãe do meu avô “pardo”, era uma retirante nordestina que foi pro Norte. Não pude ainda aprender porquê. Bisavó nordestina – então não era pigmento de índio? Abandonei a busca.

Na universidade, minhas preocupações políticas de luta pela igualdade me levaram ao feminismo, à luta de classes, à cultura das favelas cariocas… E, no fim da graduação, à escrita de mulheres negras. Conceição Evaristo me conquistou pelo estômago. Ela foi lá nas minhas tripas jovens sedentas por poesia e transformação social. E hoje dedico minha pesquisa e minha dissertação de mestrado a sua obra e trajetória.

Quando se é intelectual e ativista, pelo que vivi, não há uma separação clara entre trabalho, militância e vida pessoal. Tudo se permeia e perpassa, e questões de ordem acadêmica pode tornar-se questões de si próprio. E foi quando eu me percebia como mulher não-branca, não-negra e não-indígena que me dijeron negra, para estabelecer uma intertextualidade com Victoria Santa Cruz. Uma mulher branca me chamou de negra. “Você, que é negra…”, porque eu pesquisava mulheres negras. Fiquei pensando que pra muita gente, só deve mesmo fazer sentido pensar movimento de mulheres negras sendo uma mulher negra. Depois, um homem negro me disse que eu poderia ser negra. Parece que eu tenho “passabilidade” negra, pra usar o termo que algumas pessoas trans têm usado (e com o perdão da apropriação indevida).

Mas eu sabia que não era negra. Eu nunca sofri racismo. Eu já sofri, eu sofro dos os dias, sem sombra de dúvida, o machismo. E vivo a opressão de classe, claro, na dinâmica do capitalismo, guardadas as devidas proporções. Mas racismo não. Racismo não… Racismo não? Não sei. Não quero tomar pra mim uma posição que não é minha. Se eu tenho “passabilidade negra”, também tenho passabilidade branca – então não sou negra. Mas fui racializada como “morena brasileira”, um exemplar da miscigenação nacional, sexualizada por isso enquanto mulher fenotipicamente mestiça.

Pra falar a verdade, eu nunca achei que essa questão pessoal era realmente importante. Era quase como uma curiosidade. Mas com o aumento da frequência dessas racializações que fizeram sobre mim (ou talvez também com o aumento da minha percepção delas, pela minha aproximação do movimento negro), ela se tornou algo a mais. No mínimo, um aspecto etnográfico da minha pesquisa. Mas esse é só o mínimo.

Hoje eu assisti uma mesa redonda riquíssima sobre antirracismo e interseccionalidade com três mulheres negras lindas e empoderadas: Kimberlé Crenshaw (autora do conceito “interseccionalidade”), a caribenha Ochy Curiel e a brasileira Jurema Werneck, médica e fundadora do Criola. Na fala de Jurema, ela se remeteu a uma jovem pesquisadora negra que, no simpósio temático sobre pensamento de mulheres negras que ela coordenou no Fazendo Gênero, não parava de perguntar: “mas e a questão de classe?” a cada trabalho com abordagem interseccional. Essa jovem pesquisadora era eu. Jurema Werneck, feminista negra histórica (embora evite o título “feminista”), me dijó negra.

E por isso eu precisei chegar em casa e escrever esse texto.

Estou confusa. Porque sei que raça não existe biologicamente, mas que ela é criada socialmente num contexto que envolve outras formas de diferenciação e produção de desigualdades. Uma coisa que o conceito de interseccionalidade está me ajudando a pensar é que: sim, é confuso. A desigualdade, a opressão, são monstros complicados – como disse hoje Jurema Werneck, “é grande, é complexo e dói”. Mas para destruí-los é preciso entender de que forma se produzem, como se entrecruzam, como são experimentados pelos grupos subalternizados. Estou confusa, mas uma coisa é certa: minha luta é por um mundo sem opressão de raça e de gênero e sem exploração capitalista. E está sendo importante pra minha construção subjetiva enquanto ativista perceber e refletir amplamente tanto sobre as formas com que a sociedade me submete a essas opressões quanto sobre meus privilégios em relação a elas.

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12 respostas em “Eu nasci branca ou Me disseram negra: um ensaio sobre interseccionalidade

  1. Adorei suas reflexões….
    Me identifico, sei que sou negra por ancestralidade, raízes, e qndo me declaro negra, me declaro por isso, mas as vezes tenho receio de estar usurpando algo que não é meu de fato.

  2. Lindo texto. Seu texto problematiza a dificuldade e/ou impossibilidade de classificar uma grande parcela da população brasileira. Entretanto, o racismo no Brasil existe – e o seu texto, claro, não nega isso. Você não é negra, branca, índia ou parda; você é uma autêntica mulher brasileira, forte, sensível e inteligente. Parabéns.

  3. eu sempre fui a morena, a moreninha… branca no supermercado, na fila de banco… branca na nigeria (pais de maior populacao negra do planeta) onde os homens tem varias mulheres e uma cor minha cor de pele é um tesouro, fui muito pedida em casamento leia-se “negociada” entre os machos por lá… mas, sai livre do casorio e consegui voltar ao Brasil. Negra a primeira vez que andei de aviao e me deixaram de fora do voo – por ser a mais escura da fila, ano passado minha cara foi estampada em cartazes gigantes na rua do meu trabalho e onde mora minha familia com o corpo de uma macaca e os dizeres perseguida… achei bastante racista minha cara ali no cartaz… ja fui cobrada por nao me assumir negra, mas por passar confortavelmente no banco, supermercado, etc… sempre fui muito cautelosa… meu avo era negro, bisavo tb, bisavo india “pega no laço”, minha mae empregada domestica… meu pai foi pedreiro durante muitos anos… minha familia paterna e materna de faroestes caboclos … compartilho muito das suas reflexoes… trabalho desde os 11 anos, nunca fiz ingles em cursinho porque minha mae nunca pode pagar (tenho bloqueio com o idioma ate hj, acho opressor, talvez porque anos da minha vida tive de conviver com amigas que faziam questao de dizer que eu nao podia pagar…) estudei em colegio militar, concursada unica filha de civil, sofri muitas humilhacoes machistas e racistas por la.. porque nao tinha como pagar colegio la em casa…. obrigada pelo texto Barbara, axe !

  4. Seu texto é muito sutil, inteligente, nuançado e, sobretudo, carregado da sua experiência humana entrelaçada com seu conhecimento acadêmico da forma mais rica. Quando eu penso acerca disso lembro com saudade a época em que meu filho dizia que eu era cinza e a mãe dele cor de rosa.

  5. Ai, Bárbara, que bom que você falou sobre isso.
    Eu sou branca-azeda, de cabelo liso. Não tenho ancestrais negros conhecidos, nem estrangeiros próximos. São todos brasileiros de muitas gerações, descendentes de portugueses. Sobrenomes portugueses desde sempre. Nem índio tem na minha árvore genealógica. Portanto, fácil dizer que sou branca.
    Só que, como mulher de esquerda — feminista, claro! — não sou racista, nem homofóbica, nem transfóbica e tenho o maior respeito pelas autodenominações dos grupos discriminados. Por exemplo, quando soube que os gays consideram pejorativo e ofensivo serem chamados de bicha, veado, veadinho, eu acato. Mudo meu vocabulário, revejo meu conceito e paro de usar estas palavras.
    Tenho o maior respeito pelos negros e pelo movimento negro, porque ser branca não me faz insensível à opressão que todos os não-brancos sofrem. Mas, e aí, como a gente descreve, por exemplo, a Camila Pitanga? Veja bem, descrever, não classificar. E a Juliana Paes? E o Cauã Reymond? Os termos mulata/mulato, pelo que tenho percebido, são combatidos, porque considerados pejorativos. Chamar de morena/moreno também é ruim, porque pode tanto descrever uma mulher como você ou as atrizes e o ator acima, como servir como um eufemismo horroroso — o Serjão Lorosa diz que fica muito irritado quando o chamam de moreno forte. “Eu sou preto e gordo, pô!”, diz ele.
    Embora eu adote o termo afrodescendente no trabalho — sou jornalista — resisto um pouco a ele. Ora, todo brasileiro e brasileira é um pouco afrodescendente, ameríndiodescendente, eurodescendente, talvez até um pouco asiático. Mas, como descrever? Fácil dizer “aquela mulher alta/baixa, loira/morena/ruiva, de cabelos lisos/encaracolados/crespos e curtos/longos/médios, olhos castanhos/pretos/azuis/verdes. Mas, e quanto à cor da pele? Se eu descrever a Juliana Paes como negra a alguém que não a conhece, a pessoa vai imaginar uma mulher bem diferente da aparência que ela tem. Para um norte-americano, por exemplo, Juliana Paes seria o que eles chamam de Latino — como eu li em algum lugar outro dia, latino é uma raça que os norte-americanos inventaram, não existia antes de eles sentirem a necessidade de diferenciar os negros de lá dos “pardos” mexicanos, cubanos e dos demais países da América Latina. Mas, mesmo que adotássemos essa denominação besta, isso ainda não seria eficiente como descrição.
    Ah, e tem o seguinte: eu acho “pardo/parda” horrível. Pardo, pra mim, significa sujo. Seria o mesmo que chamar de encardido. Tá, é uma coisa minha. Mas eu detesto e evito usar.
    Então, do mesmo jeito que você nunca teve um lugar muito bem definido nessa escala de cores, um monte de gente também não tem. E não estamos falando só da cor da pele, mas das várias gradações de preconceito que as pessoas sofrem por reunirem estas ou aquelas características. A Regina Casé diz que, no Brasil, o preconceito não é com a cor, mas com o cabelo. Só que cabelo se alisa, mas não dá pra desbotar a pele, né? E, mesmo que desse, não acho que acabasse com o preconceito, do mesmo jeito que não há progressiva que elimine o racismo.
    A propósito: uma amiga, negra, contou uma historinha engraçada do filho. Ele perguntou: “Mãe, por que dizem que eu sou negro, que você é negra, que o meu pai é negro? A gente é marrom!”
    Sem querer cagar-regra numa praia que não é minha: por mim, a gente adotava uma nomenclatura gastronômica — marrom-café, chocolate, caramelo, doce de leite, creme, baunilha…
    E, pronto, já calei minha matraca branca.

  6. Oi, Renata, muito legal seu comentário, me fez pensar em várias coisas. Vamos lá?
    Outro dia li uma coisa que achei que resolve muito do problema, se não me engano foi o Joel Rufino dos Santos que falou: não existe raça, mas existem relações raciais. Pois é, é um paradoxo, mas é a realidade, no sentido de que a raça é uma coisa estritamente social e que ela acontece no momento em que um grupo racializa o outro (como esse processo da criação do latino pelos norte-americanos que você descreveu). Então por isso a chave da identidade racial é a auto-identificação, que tem a ver não com fenótipo, mas com a experiência que a pessoa tem com o racismo. Alguém com a pele “marrom” pode não identificar-se como negro, mas com o contato com um pensamento crítico sobre as relações raciais (como o movimento negro propõe) começar a perceber vários momentos de racismo que viveu… E aí ter uma espécie de “conscientização racial”.
    Nesse texto eu tentei me perguntar um pouco sobre isso, sobre a minha experiência das relações raciais brasileiras, que foi muito confusa por causa desse fenômeno do “mito da democracia racial”, essa noção difundida de que todos somos um pouco brancos, um pouco negros, um pouco indígenas, e que então não há ninguém totalmente branco nem totalmente negro e por isso não existe racismo no Brasil. Assim, a gente tem que ter cuidado com essa afirmação “todo mundo é um pouco negro” porque ser negro é ser socialmente considerado como negro, e nem todo mundo sofre a experiência do racismo não é. Por mais miscigenadas que possamos ser, eu penso que nunca sofri racismo, assim, abertamente. No máximo essa questão que comentei da sexualização, que está muito ligada com o fato de eu ser mulher.

  7. Ótimo texto! Obrigada por compartilhar.

  8. Você é moreninha pra quem te conhece e negra de sangue,pra quem conhece suas origens. Porque seu pai biológico é neto de negro (com muito orgulho).
    Daí talvez a questão de pés no chão, cachorro comendo comida de gente, (mas comendo).
    Apesar de tudo, parabenizo por seu talento.

  9. Eu também fui ficando morena ao longo dos anos e olha que meus pais são brancos. Mas eu não me considero negra, Índia, branca… nada! Eu sou mulher e apenas isso. Nunca sofri racismo mas sei o quanto isso é ridículo e nojento, nos dias de hoje as pessoas tem que começar a amar umas as outras.

  10. Bárbara, me identifiquei demais com a sua história, ainda mais vendo a sua foto!! Carrego dúvidas muito próximas das suas. Sou filha de pessoas que não podem de maneira alguma serem identificadas como brancas, mãe com a pele um pouco mais clara, mas cabelo crespo, nariz um tanto achatado; meu avó materno é filho de negro e uma branca, e minha avó materna mistura de india e branca; meu pai tem uma cor marrom, mas o cabelo liso, e apesar de minha avó paterna ser branca, meu avô também trazia traços negros. Enfim, eu nasci com a pele um tanto “morena”, cabelo cacheado, lábios grossos, curvas e mais curvas. Sempre, sempre fui identificada pela minha cor: morena, neguinha, cor do pecado, cor de jambo, etc. Situação econômica, pobre, escola pública estadual de Curitiba (ainda que com certa qualidade), mas vivi com conforto relativo, tive que trabalhar desde nova, mas consegui bons empregos. Consegui entrar na universidade pública através de cotas para oriundos de escola pública. Cursei Letras e aí me deparei com a produção literária afro-brasileira e afro-latino-americana, cheguei às temáticas de miscigenação, hibridez cultural, etc. Literatura afro-brasileira virou o tema da grande maioria de meus trabalhos da graduação, do meu TCC. É o que pesquiso na minha dissertação de Mestrado. Há dois anos, logo após apresentar um trabalho sobre a Conceição e Lima Barreto, uma mulher negra veio me perguntar sobre a minha autoidentificação e eu disse que não sabia bem, mas a princípio não conseguia me identificar como negra. Ela falou que me considerava negra, colocou nossos braços lado a lado e falou “veja bem, o tom não é tão distante. E eu tenho certeza que a história da tua família não é tão diferente da minha”. Aí começaram as minhas dúvidas. Na minha família nunca se falou em “ser negro”. No dia seguinte, comentei essa situação com um professor negro, na escola onde eu trabalhava, e ele me disse “você é muito parecida com a minha filha, eu sempre achei você negra, não sabia que você tinha essa dúvida”. Fiquei em choque. Alguns amigos do meu namorado, que desde que me conheceram sempre falaram da minha cor e do meu cabelo (deste último sempre fizeram muitas brincadeiras de mau-gosto), no entanto, se assustaram quando comentei essa situação e disseram que não me viam como negra nunca. Parecia, na realidade, que viam o termo negra como algo negativo. Enfim, até hoje não consigo me dizer negra. Continuo pesquisando a temática afro-brasileira, mas tenho muito medo de estar reivindicando algo que não me pertence. Ontem mesmo, passei por uma situação estranha: conversava com alguns alunos japoneses sobre os nomes que damos aos tipos de cabelo, expliquei os termos cacheados, enrolados, crespo, etc. Em determinado momento usei como referencia o cabelo (crespo) de uma professora colega negra e na hora eles fizeram alguns comentários chatos sobre o cabelo dela e de certa forma diferenciaram do meu (que é cacheado). óbvio que naquele momento expliquei o contexto cultural brasileiro e mostrar o racismo de tais comentários que fizeram. Fiquei chateada e pensativa. Percebi que ainda que já tenha sofrido com a sexualização excessiva por conta da minha pele e dos meus traços, ainda que dificilmente tenha me sentido representada nos brinquedos, nos desenhos e na televisão, por exemplo, ainda ocupo um lugar relativamente confortável. Não sei bem o que pensar.
    Hoje me deparei com um texto no facebook sobre negras, escrito por uma negra, e em determinado usaram a Juliana Paes como exemplo de mulher negra. Acabei digitando no google “juliana paes negra” e vim parar nesse blog. Foi uma “serendipidade”, lembrando do prefácio do “Um defeito de cor”.
    Sei lá, ainda carrego muitas e muitas dúvidas sobre o tema, mas é bom ver que não estou só nessas incucações. heheheheh
    abraços!

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