Eu nasci branca ou Me disseram negra: um ensaio sobre interseccionalidade

Eu nasci branca.

Branca do cabelo enroladinho, de classe média, moradora do Grajaú e logo logo da Zona Sul do Rio, filha única com tevê só pra ela no quarto.

Minha mãe, uma morena dos cabelos cacheados longos, pretos, a boca pintada de vermelho e um sorriso sedutor. Meu pai era branco. Os pais dele também. Mas os pais dele não eram de classe média, eram pobres. Eu sabia pelas diferenças que eram bem claras pros olhos observadores de criança. A viagem pra casa deles era longa. A rua deles era de terra, o muro deles era daquele cimento espetado que sempre me arranhou muito. O cachorro deles comia comida de gente (o resto da nossa), arroz, feijão, legumes e carne. Não entrava em casa e não conhecia ração. Na casa dos meus avós paternos todo mundo andava descalço, os homens sem camisa e a gente podia subir em cima da casa pra soltar pipa. Num céu repleto delas.

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