8 de março não é pra comemorar.

8 de março é o grande dia de luta para o movimento feminista. E, ao mesmo tempo, é o dia em que se materializa da maneira mais simplista e incômoda esse maldito binarismo contra o qual temos lutado historicamente: mulheres são de Vênus, homens são de Marte. Meninas gostam de rosa, meninos de azul. Meninas são delicadas, meninos são corajosos. E por aí vai.

O dia internacional da mulher é, majoritariamente, um dia feito para agradecer. Agradecer às mulheres da sua vida por serem mulheres. E “ser mulher”, nesse caso, é enfeitar os seus dias, embelezar seus caminhos, perfumar seu redor, cuidar de você, dar aquele temperinho à sua comida. Isso quando elas não estão na TPM, não é? Haha. Mas faz parte do charme delas, que graça quando ficam bravinhas. E dá-lhe incontáveis tons de rosa espalhados pelos anúncios publicitários. E distribuição de flores nas portas de lojas e de supermercados. E “feliz dia da mulher!”. Feliz?

As militantes feministas, na contracorrente, se empenham ano após anos para trazer de volta a carga militante ao 8 de março. Que não é dia de agradecer nem de comemorar. Não vivemos uma era pós-feminista, na qual a igualdade de gênero está estabelecida (ou mesmo na qual a noção de gênero tenha superado a de “sexo biológico”). Vivemos na verdade em tempos muito adversos, em que o conservadorismo avança assustadoramente. Na luta pela autonomia do corpo da mulher e pelo direito ao aborto, estamos perdendo. Na luta contra a violência física e simbólica contra as mulheres, estamos perdendo. Na luta pela pluralidade de ser mulher, pelos direitos das mulheres trans*, pela liberdade de transitar pelos gêneros, pela multiplicidade de ser humano… estamos perdendo também.

Longe de querer escrever um texto triste e muito menos desmobilizador, me parece necessário ressaltar um fato: o dia 8 de março não é um dia para se comemorar. Ele é importante como marco simbólico de uma luta urgente. O capitalismo se apropriou e subverteu as conquistas do movimento feminista dos anos 1960 e 1970, que bradou que o privado era político. “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: ‘Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado’” (Michel Foucault em Micro-física do poder). Se hoje em dia os corpos estão mais expostos, não é com liberdade e autonomia, mas sob o domínio do capital e num ambiente de tabus e discriminação brutal.

Que fique claro que eu não estou numa cruzada contra as flores, os abraços e os carinhos. As flores podem ser revolucionárias e a minha religião é o amor. Mas o 8 de março não pode ser um dia estético, um único dia no calendário em que as mulheres pensam: “Bacana, pelo menos hoje o pessoal reconheceu o meu valor”. Não tem porque me darem parabéns por ser mulher. Até porque ser mulher é, ainda, ser “o segundo sexo”. É ainda ser inferiorizado pelo simples fato de possuir vagina e ovários. Ou ser inferiorizado por ser mulher e não possuí-los. Por ter gestos, comportamentos e sentimentos considerados femininos, “ser afeminado”, esse xingamento, essa lástima. Ser feminista, então, ainda é ser tudo de ruim e mais um pouco! E recusar as flores e os elogios do 8 de março? “Chata, mau-humorada, frígida!”

Não. Eu não aceito viver num mundo assim. Não aceitamos, insistimos, resistimos. Lutamos! 8 de março é dia de luta por igualdade. Ser feminista é só isso: insistir na ideia radical de que mulheres são gente.

las-mujeres-resistimos-y-luchamos

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3 respostas em “8 de março não é pra comemorar.

  1. Pingback: Eventos – 8 de Março

  2. Muito contundente seu texto.

    Essa frase me remete as velhas verdades inconvenientes. As quais, boa parte das próprias mulheres, se esquecem ou abrem mão de lembrar…
    “Mas o 8 de março não pode ser um dia estético, um único dia no calendário em que as mulheres pensam: “Bacana, pelo menos hoje o pessoal reconheceu o meu valor”.

    Parabéns por dar voz a isso.

    Abraço e mesmo assim, feliz dia da mulher. Paz e Força!

  3. Fenomenal! Nunca tinha pensando no “afeminado”! Você tem TODA razão!! “Afeminado” deveria ser um elogio!!
    Obrigada por abrir meus olhos!

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