Gal

Nos últimos tempos eu consegui ver ao vivo alguns ídolos hors-concours, aqueles muito mais que ídolos, que estão numa categoria à parte: Paul McCartney, Chico Buarque, Caetano Veloso, Alanis Morissette. Mas ontem… ontem eu vi a maior. Aquela cuja voz encarna a essência do que me emociona na música cantada.

Foi Gal Costa que me ensinou a cantar. A brincar com o poder que tem o timbre agudo, que é leve e afiado ao mesmo tempo. No começo da adolescência, tratei de ouvir com mais atenção os discos da Gal que minha mãe tinha em casa. E foi amor sem volta, não apenas à Gal, mas ao canto, o instrumento portátil que se carrega no corpo e que se pode usar o tempo inteiro, na hora do banho, caminhando na rua, junto com amigos, num palco. A Gal era a diva que eu sonhava intimamente ser, como uma criança que sonha ser astronauta. Ontem eu vi e ouvi, com meus próprios olhos, ouvidos e coração aberto e machucado, a diva astronauta.

Foto de Domenico Lancellotti, divulgada no FB da Gal.

Foto de Domenico Lancellotti, o batera, divulgada no FB da Gal.

O show começou como uma força estranha. As primeiras músicas do novo álbum Recanto eram meio esquisitas. Eu ainda não tinha ouvido quase nada do disco e ficou claro como ele tem de cabo a rabo a assinatura do Caetano, em sua faceta mais pós-modernosa tropicalista. Sons eletrônicos e letras estranhas pra uma voz tão clássica e límpida como a da Gal. Não que seja ruim, é bem interessante e parece ter conquistado esse público jovem que Gal vem pra arrebatar de vez. Realmente era um novo público, os filhos dos fãs, e o local e o preço do show foram um convite a eles. Aliás, havia muitos pais e filhos na platéia perto de mim – eu fiquei sentadinha na parte superior do Circo, onde havia pessoas mais velhas. A pista, pelo que vi, estava tomada pelo público jovem de sempre do Circo Voador. Mas não era pra ver Tulipa Ruiz nem Móveis Coloniais de coisa nenhuma. Eles cantavam as músicas do Recanto com o mesmo fervor de um fã los-hermânico. Pra ela, uma cantora consagrada em todas as instâncias onde parece ser possível consagrar-se, me parece ser uma conquista diferente, nova, essa turnê. O Recanto talvez seja mesmo um disco feito pra isso, pra falar com outra geração. Pessoalmente, tô no time do senhor que estava ao meu lado, que nas primeiras músicas comentou: “esse repertório é meio chato, hein?”. A única que gostei muito mesmo foi o Autotune Auto-erótico, mas só porque ela sambou na cara do universo mostrando como é que se canta, sem caô de auxílio de computador pra alterar voz. Foi irado.

Setlist do show, divulgada no FB da Gal.

Setlist do show, divulgada no FB da Gal.

Pela setlist dá pra ver o alto nível da coisa. Ressalto alguns momentos: Divino Maravilhoso e a repetição dos versos “É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer à morte”, que causou uma espécie de transe coletivo; Folhetim, meu primeiro momento de “Não acredito que ela está cantando essa música, ai, meu coração”; Minha voz, minha vida, porque se alguém pode enunciar essa letra, é Gal Costa; Barato Total, porque foi engraçado ouvir ao vivo uma música que toca em todas as festinhas xóvens de música brasileira do Rio; Baby, que eu só sei a letra toda na versão em inglês da Bebel Gilberto, shame on me, e que ficou na cabeça após o show; Vapor Barato, que está no meu top 5 canções preferidas produzidas pela humanidade, e ter visto a Gal fazer o solo de guitarra/gaita com a voz ao vivo, coisa que já me arrepiava ouvindo o disco; Um Dia de Domingo, em que ela brincou saindo do seu tom agudíssimo pro tom grave da parte do Tim Maia, divertida e esnobe, mostrando tudo que aquela garganta é capaz de fazer sem esforço; Força Estranha, porque “a coisa mais certa de todas as coisas/ não vale um caminho sob o sol”; e a adição surpresa de Modinha para Gabriela, que não estava prevista (nem consta na setlist aí em cima), pra fechar o show.

O show de Gal foi a noite de um dia difícil. Mas ela conseguiu me embalar e me encantar. Só ela, só ela. A diva astronauta, a divina maravilhosa.

375316_240338109432465_1168409790_n

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s