Gramsci, Portelli e Criolo: uma anedota sobre intelectuais e pobreza

Dois italianos entraram num bar. O mais velho tinha passado onze anos encarcerado a mando do governo fascista de Mussolini (e por isso mesmo era muito merecedor de uma cervejinha no bar hipotético das anedotas) e o mais jovem tentava convencer o pessoal em volta da mesa, a despeito das risadas, de que era possível, sim, trabalhar com história oral e ser marxista ao mesmo tempo. Enquanto o velhinho preocupava-se em tomar sua cerveja, o que falava aos demais resolveu contar sobre uma viagem que havia feito para os Estados Unidos, mais precisamente para Harlan County, no Kentucky. Em Harlan, ele havia se deparado com gente muito pobre que nunca tinha pensando em si como pobre, até que um dia os especialistas do governo vieram lhes dizer que eles faziam parte de um preocupante bolsão de pobreza que precisava ser erradicado. E ser pobre no país mais rico do mundo, na terra dos self made men, significa que você é pobre por apenas um motivo: incompetência sua. E mais: se toda a sua família é pobre, se os seus vizinhos são pobres, seus amigos são pobres… it must be something in the water, deveria ter alguma coisa nesse condado Harlan que fazia de quem nasceu ali um problema social. Diante dessa percepção, o pessoal de Harlan, muito injuriado com a mídia, com o governo e com os intelectuais de plantão que insistiam em denunciar sua pobreza, precisava mostrar que não tinha nada de errado com o lugar, afinal, tinha gente rica em Harlan, sim! “Aquele moço ali, naquela casa bonita, é proprietário dessa terra em que eu planto! Ele é de Harlan, como eu, e é rico”. E foi essa a bela contribuição dos especialistas que apontavam o dedo para a pobreza de Harlan: fazer com que os trabalhadores de lá encontrassem na própria elite que os explorava seu argumento-chave, seu motivo de orgulho. Não é preciso dizer que a elite local se amarrou. Mas não pensem, com isso, que os trabalhadores de Harlan eram todos passivos, tolos, manipuláveis; eles se organizaram coletivamente na luta pela sua sobrevivência e contra os abusos das empresas mineradoras locais que destruíram sua autossuficiência em termos de produção para consumo próprio. Porque, ao contrário do que os dedos dos especialistas apontavam, não tinha nada inato no povo de Harlan que os fazia naturalmente pobres. A culpa, como sempre, é do sistema.

Culpar o sistema depois de falar de uma porção de depoimentos orais foi suficiente pra convencer o pessoal do bar de que Portelli era historiador oral e marxista ao mesmo tempo, até porque a essa altura a cerveja já tinha dado conta de abrandar a contra-argumentação. Nesse ponto, Portelli se lembrou de um poema feito por um sindicalista de Harlan que conhecera na viagem, mais ou menos assim:

Vocês que vieram nos estudar
para ver “o que há de errado conosco” junto com os “bem-feitores”
missionários de persuasões numerosas (…)
A sua era uma revolta em padrões
contra cultura contra revolucionária
contra o povo pobre! [1]

Eis que entra no bar um brasileiro, bem mais jovem que a italianada que bebia e conversava no bar, mas tão ousado quanto. Atraído pela declamação do poema, o garoto, sem ajuda de beatbox, emendou um rap:

Calçada pra favela, avenida pra carro,
céu pra avião, e pro morro descaso.
Cientista social, Casas Bahia e tragédia,
gosta de favelado mais que Nutella! [2]

O grupo de italianos emudeceu. De onde tinha saído esse jovem preto brasileiro abusado? O único que sorriu foi o velhinho, consentindo. Parecia que se pronunciaria pela primeira vez. Os italianos, absortos, voltaram a atenção a isso. E mesmo o crioulo, que chegara atrasado, sabia que qualquer frase vinda das bocas daquele italiano de aparência tão cansada era coisa importante. O velho Gramsci perguntou a Portelli qual havia sido o grande erro dos estudiosos que, antes dele, haviam pesquisado em Harlan County. Ele prontamente respondeu que “todos eles foram pregar, e nenhum deles foi escutar”. O crioulo brasileiro sorriu, porque pra ele intelectual pode colar, mas só se for pra somar, porque se for pra arrastar, a favela cobra. Harlan County ou favela, ninguém é feito pra pobreza, e o crioulo já tinha ouvido alguém falar que, na verdade, quem gosta de miséria é intelectual, e falou disso pro velho Gramsci.[3] O que espantou Criolo foi que o velho afirmou, com um sorriso doce estampado, que todo mundo ali naquele bar era intelectual. Todo mundo naquele bar fazia formulações teóricas, e que alguns exerciam a função de intelectuais orgânicos, ou seja, trabalhavam para a organização de uma determinada classe. É isso mesmo o que eles tinham ouvido: ser intelectual orgânico pressupõe estar ligado aos que dominam ou aos que são dominados na sociedade, pressupõe estar de um ou de outro lado. “Não há neutros aqui”, emendou Portelli. Aqueles intelectuais que apontavam para a pobreza em Harlan, acusando seus moradores de serem um problema em si mesmos, estavam a serviço da manutenção de uma certa hegemonia, da classe dominante. E os cientistas sociais com a boca toda suja de Nutella dos quais o Criolo tinha falado no rap estavam no mesmo time deles. Portelli não, Portelli estava no time dos dominados, queria correr com a bola, queria suar a camisa pra que eles um dia viessem a virar o placar. Criolo também. E o velho Gramsci… o velho Gramsci havia passado onze anos no cárcere escrevendo em qualquer pedaço de papel que aparecesse na sua frente um longo recado pra classe trabalhadora: que formassem seus próprios intelectuais, que se organizassem para uma luta que era econômica, ma também política, também cultural, uma luta por hegemonia.

A breve e bela explicação do velho italiano rendeu um brinde, goles e sorrisos reflexivos. O jovem Criolo deixou, em seguinda, deixou o bar cantarolando: “não baixe a guarda/ a luta não acabou…”[4]

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Esse texto é uma brincadeira que brotou na minha cabeça após a conjunção de duas aulas da pós-graduação em História na Universidade Federal Fluminense, uma da professora Sônia de Mendonça, com textos de Gramsci, e uma do professor Marcos Alvito, com textos de Alessandro Portelli, somadas a audições repetidas do disco Nó na Orelha, do Criolo, nas indas e vindas pela Baía de Guanabara.

Notas:

[1] WEST apud PORTELLI, 2010.

[2] Faixa “Sucrilhos”, do álbum Nó na orelha.

[3] Famosa frase do carnavalesco Joãozinho Trinta, diante da polêmica sobre a nova face luxuosa dos desfiles das escolas de samba no carnaval.

[4] Faixa “Samba, Sambei”, do álbum Nó na orelha.

Bibliografia:

CRIOLO. Nó na orelha. 2011.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volumes 2 e 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

PORTELLI, Alessandro. Éramos pobres, mas… Narrar a pobreza na cultura apalachiana. In: PORTELLI, A. Ensaios de História Oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010.

_________. No neutrals there: the cultural class struggle in the Harlan Miners’ Strike. In: PORTELLI, A. The death of Luigi Trastulli and other stories: form and meaning in oral history. Albany: StateUniversity of New York Press, 1991.

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