II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

Mesa 1: Mulheres Política e Ativismo

No sábado pela manhã aconteceu a primeira mesa, que teve como convidadas a Nina, do CFEMEA, e a Cecilia, das Pretas Candangas. Eu cheguei atrasada graças ao péssimo vôo da Gol (todo mundo odiando a Gol, comigo, vamolá!) e perdi a apresentação inicial da galera e a maior parte da fala da Cecilia. Já a fala da Nina deu pra ouvir inteira e, putz, foi de se apaixonar pela moça. Ela começou dizendo que as Blogueiras Feministas exercem uma militância nova, aberta e horizontal que engloba discordâncias internas, e que nós talvez não tivéssemos muita noção da ressonância que o blog está tendo no movimento feminista mais tradicional. Animador demais pra nós um depoimento como esse! Uma questão interessante (na qual eu peguei o bonde andando, mas vale comentar) foi que parece que muitas das integrantes do Blogueiras se apresentaram como não sendo “propriamente militantes”, afirmação da qual a Nina discordou e eu também discordo com veemência. No texto sobre o encontro do ano passado, eu falei da importância da nosso auto-reconhecimento enquanto coletivo e do alcance do ativismo virtual. É fundamental lembrar que ativismo virtual não é menos concreto, não existe menos, porque seu meio é a internet. Talvez uma noção fundamental seja essa de “meio”, “veículo” através do qual podemos nos organizar de forma nova, com um alcance diferente. E está muito claro que a nossa atuação não se limita a isso. Temos nos organizado através da internet e atuado muito pra além dela. Então, pelamordedeus, nunca mais repitam que vocês não são militantes. Combinado? hehe.

Outra questão que achei fundamental na mesa da manhã foi quando a Nina disse que o movimento feminista precisa “voltar a politizar o privado”. A separação entre público e privado é uma antiga questão pras feministas que, apesar de tudo que foi feito pelo feminismo de segunda onda nas décadas de 60 e 70, não está superada. Na verdade, creio que a afirmação de que o pessoal e o privado são políticos foi incorporada da maneira mais cruel pelo sistema. Como disse o tio Foucault, o capitalismo nos diz: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!”. As liberdades sexuais e a autonomia das mulheres (e das pessoas, em geral) sobre seus corpos foram tiradas novamente de suas mãos e travestidas pelo capitalismo como falsas liberdades que abrigam imposições e demandas das mais violentas. É nosso desafio enquanto feministas, portanto, voltar a politizar esse privado que é político, mas que agora está todo imbricado com tabus e falso liberalismo.

Foi interessante notar o quanto a questão religiosa dominou uma mesa sobre política. Não lembro quem deixou bem explícito que, se tínhamos alguma ilusão de laicismo do Estado, era melhor abandoná-la de vez e admitir que falar de política hoje no Brasil é ter que falar também de religião. Foi colocado que é preciso reconhecer o papel simbólico que as igrejas católica e  evangélicas exercem na vida de seus fiéis, ao invés de simplesmente desqualificar a religião, e pensar de que modo podemos nos aproximar dessa realidade. Quando nos perguntamos se os movimentos sociais podem de algum modo substituir o sentimento de comunidade e pertencimento proporcionados pela Igreja, houve a observação de que enquanto a religião traz conforto, nós problematizamos a realidade, trazemos o desconforto. Em sua fala de encerramento, a Nina apontou pra associação das igrejas com o capitalismo, ultrapassando o simples fornecimento de um conforto simbólico, mas também insere o fiel na lógica do self made man religioso, bem naquela vibe “foi Jesus que me deu esse carro” dos adesivos que vemos estacionados por aí. Por fim, alguém lembrou que não é a Igreja o grande problema, mas a própria sociedade que ela reflete – uma sociedade capitalista e por isso necessariamente desigual (essa observação é bônus meu, hehe).

Também permeou essa mesa e o debate do dia seguinte, sobre as questões internas do grupo, a questão do racismo. Muito foi falado sobre isso, mas eu não anotei direito no meu caderninho porque estava prestando atenção, haha. Desculpa, gente.

Mesa 2: Identidades de gênero

Nessa mesa tivemos como convidadxs a genial Tatiana Lionço, da Cia. Revolucionária Triângulo Rosa, Lam Lam, do Conturno de Vênus e a Jaqueline de Jesus, da UnB, todxs da área de psicologia (confere, produção?). A fala da Tatiane merece um texto à parte (se tudo der certo ele aparecerá dia 19 desse mês no Blogueiras). Mas, por alto, ela bate de frente com as identidades de uma forma bastante intensa, defendendo a diferença radical em sua positividade. O problema do essencialismo das identidades é talvez uma das grandes questões dos movimentos ditos específicos, como o de mulheres, o LGBT e o anti-racista. A Tati também polemizou ao se posicionar contra a noção de ‘orientação sexual’, entendendo que ela é, sim, uma escolha, e ao dizer que o movimento trans não tem sido sensível ao fato de que pessoas cis também se sintam inadequadas em relação aos estereótipos de gênero.

No debate, ficou evidente o conflito entre a possibilidade de superar as identidades e a luta por políticas públicas para os grupos específicos. A Tati entende que as identidades têm como única função viabilizar o diálogo desses movimentos com o Estado, é só através delas que temos conseguido nos colocar nos espaços político-institucionais. Outro ponto importante dessa mesma foi a percepção da amplitude do feminismo, que não se trata apenas de um movimento social em defesa das mulheres, mas de questionamento mais amplo da estrutura patriarcal da sociedade e de uma lógica homogeneizante colocada pelo machismo.

Esse debate se estendeu muito e eu já tava cansadinha, por isso anotei menos e ouvi mais. Quem puder complementar, por favor o faça! 🙂

No mais:

É muito relevante nesse relato(ria) falar da festa! Mas gente, muito sucesso a feirinha, a batalha de MP3, dançar like nobody is watching e perceber o quanto além de lindas, poderosas e sensacionais, as blogueiras feministas tem um puta bom gosto musical! Pra além do aspecto lúdico, a Jeanne (vencedora da batalha da noite graças a George Michael e Cindy Lauper) fez um comentário que talvez resuma o que esse encontro representou pra mim: “Revoluções em que podemos dançar = trabalhamos”. Nosso propósito no segundo dia, onde debatemos as questões internas do coletivo, era conversar sobre problemas, conflitos e soluções pra eles, que têm rolado no grupo. E fizemos isso dedicadamente no , reforçando alguns princípios fundamentais como a autogestão, a solidariedade política, a horizontalidade das relações e a liberdade. Liberdade. Conversando com a Lia Padilha no domingo a noite, ela disse que essa é a palavra que traduz a noção de feminismo dela. E é essa a palavra que tem que ser reforçada na nossa luta, é por ela que lutamos. Não apenas contra o machismo, contra o racismo, contra qualquer tipo de opressão, mas por alguma coisa: por liberdade. Por podermos ser o que quisermos, exercer a subjetividade que nos fizer feliz. Gostaram quando eu disse, no primeiro dia, que muito mais do que uma luta em defesa das múltiplas maneiras de ser mulher, nós lutamos pela pluralidade de ser, simplesmente. De ser, de existir com liberdade. Liberdade como a que senti ao dançar “Freedom“, do George Michael, soltando todos os membros do meu corpo, com os olhos fechados. É essa a revolução que eu quero, que queremos: uma revolução livre como a dança.

Foto da Cecilia Santos.

Foto da Cecilia Santos.

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8 respostas em “II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

  1. acabei de encontrar a ceci lin-da-maravilhosa pedalante e disse uma coisa certa: não pude ir ao encontro, mas estranhamente é como se uma parte de mim tivesse ido.
    dancei com vcs em algum momento. ❤

  2. Pingback: As mais belas das belas |

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