Minha síndrome de Papai Noel (self-made presentes!)

Esse será um post bem atípico aqui no blog, mas acho que tem uma certa utilidade pública. É que tenho orgulho em anunciar que esse ano eu mesma fiz todos os presentes de Natal que dei. 🙂

Além de ter economizado um bocado, isso foi o resultado de um ano em que aprendi a fazer uma porção de coisas legais e retomei alguns velhos costumes. Quando eu era mais nova, tinha uma pasta com recortes de imagens legais de revistas e afins que eu usava quando precisasse fazer um cartão de aniversário ou alguma outra estripulia artesanal. A verdade é que eu sempre me amarrei em brincar dessas coisas e, mesmo depois da infância, nunca larguei o corte-e-colagem, as combinações de cores, as tintas e as canetinhas. Longe de ser artista (como é o caso de alguns amigos meus), eu estou mais pra uma criança velha que se diverte com essas coisas, porque o jeito como me sinto fazendo isso hoje é exatamente igual a como me sentia quando era pequena. Mas parece que o hábito infantil foi refinado por uma coisa muito importante: o diálogo. Esse ano eu aprendi com alguns amigos a fazer uma porção de coisas que nem imaginava:

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Gramsci, Portelli e Criolo: uma anedota sobre intelectuais e pobreza

Dois italianos entraram num bar. O mais velho tinha passado onze anos encarcerado a mando do governo fascista de Mussolini (e por isso mesmo era muito merecedor de uma cervejinha no bar hipotético das anedotas) e o mais jovem tentava convencer o pessoal em volta da mesa, a despeito das risadas, de que era possível, sim, trabalhar com história oral e ser marxista ao mesmo tempo. Enquanto o velhinho preocupava-se em tomar sua cerveja, o que falava aos demais resolveu contar sobre uma viagem que havia feito para os Estados Unidos, mais precisamente para Harlan County, no Kentucky. Em Harlan, ele havia se deparado com gente muito pobre que nunca tinha pensando em si como pobre, até que um dia os especialistas do governo vieram lhes dizer que eles faziam parte de um preocupante bolsão de pobreza que precisava ser erradicado. E ser pobre no país mais rico do mundo, na terra dos self made men, significa que você é pobre por apenas um motivo: incompetência sua. E mais: se toda a sua família é pobre, se os seus vizinhos são pobres, seus amigos são pobres… it must be something in the water, deveria ter alguma coisa nesse condado Harlan que fazia de quem nasceu ali um problema social. Diante dessa percepção, o pessoal de Harlan, muito injuriado com a mídia, com o governo e com os intelectuais de plantão que insistiam em denunciar sua pobreza, precisava mostrar que não tinha nada de errado com o lugar, afinal, tinha gente rica em Harlan, sim! “Aquele moço ali, naquela casa bonita, é proprietário dessa terra em que eu planto! Ele é de Harlan, como eu, e é rico”. E foi essa a bela contribuição dos especialistas que apontavam o dedo para a pobreza de Harlan: fazer com que os trabalhadores de lá encontrassem na própria elite que os explorava seu argumento-chave, seu motivo de orgulho. Não é preciso dizer que a elite local se amarrou. Mas não pensem, com isso, que os trabalhadores de Harlan eram todos passivos, tolos, manipuláveis; eles se organizaram coletivamente na luta pela sua sobrevivência e contra os abusos das empresas mineradoras locais que destruíram sua autossuficiência em termos de produção para consumo próprio. Porque, ao contrário do que os dedos dos especialistas apontavam, não tinha nada inato no povo de Harlan que os fazia naturalmente pobres. A culpa, como sempre, é do sistema.

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II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

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