Cantada de rua é violência.

Parece uma faixa arranhada do disco feminista: cantada de rua é violência. Tem milhões de textos nos blogs feministas sobre isso por aí, tantos que tenho até preguiça de procurar pra linkar (até porque agora tô escrevendo no calor da raiva). Mas por mais que a gente fale, por mais que a gente debata, por mais vezes que eu já tenha proferido essa frase na minha vida, a cantada de rua parece ser um fantasma que persegue, que assombra uma mulher – pelo simples fato de ela ser mulher – pela vida inteira. “Um fantasma que persegue” é uma metáfora precisa, aliás, porque as vozes mudam, os agentes mudam, mas o sentimento de medo e revolta que provoca é absolutamente o mesmo, essa sensação de ser perseguida, “stalkeada” pra usar o termo corrente nas redes sociais, por alguma coisa disforme e persistente.

Existe uma diferença muito clara entre você se interessar por um desconhecido na rua e querer abordá-lo de alguma forma pra iniciar um contato. Somos seres humanos e devemos interagir, por que não? Mas existe uma coisa que ultrapassa a educação: o reconhecimento da humanidade do outro, da individualidade do outro. Se trata de pedir  permissão pra estabelecer o tal contato através clássicos ensinados por mamãe e papai e vovó como “com licença”, “por favor”, “posso falar com você?”. Uma coisa é uma conversa consentida, desejada pela outra parte. Outra coisa é sair falando no ouvido de quem passa pela rua qualquer asneira que lhe venha à cabeça, sem considerar minimamente o desejo do outro de ouvir, o estado do outro, o outro como sujeito, como humano.

Muitas pessoas advogam que cantadas de rua que sejam lisonjeiras não podem ser consideradas como violência de maneira alguma. São legais, as mulheres gostam, são um reconhecimento de todo o seu trabalho em se arrumar antes de sair. Naturalmente, se tendo se arrumado ou não, agrada ouvir alguém dizer que você está bonito, radiante, bem vestido. A chave é, mais uma vez, o consentimento. Se somos conhecidos e se estabelecemos contato, é natural que se possa elogiar um ao outro. Se somos desconhecidos, existem muitas coisas a se considerar, como eu já falei a cima.

Como qualquer mulher, eu coleciono cantadas abusivas e nojentas na memória, algumas das quais me marcaram profundamente nos piores sentidos. Uma vez eu e uma amiga entramos num ônibus de madrugada lotado de homens e, dentre todas as gracinhas, ouvimos um deles recitar o número do artigo criminal do estupro, esclarecendo gentilmente pra nós do que se tratava. Eles desceram do ônibus no próximo ponto, mas a “brincadeira” estava feita: não era estuprar, mas lembrar a nós que essa possibilidade existe. Dessa vez a ameaça foi explícita, mas cada cantada de rua é uma declaração masculina de poder sobre o objeto mulher, que não tem voz nem vontade, que é apenas receptáculo dos seus dizeres e de suas ações. Uma mulher que é cantada na rua não é vista como igual, no sentido mais básico de ser também humana, como aquele que passa a cantada; ela é uma coisa que serve pra que o homem possa se afirmar socialmente pros outros e pra si.

Hoje eu estava caminhando e comecei a ouvir uma voz grave  me acompanhando, vinda de trás. “Sua beleza isso e aquilo, eu sou poeta isso e aquilo, você é um belo espécime de mulher isso e aquilo”. Eu não vi de onde veio essa voz, ela surgiu e insistia. Eu continuei caminhando, mais rápido, e a voz persistia falando uma porção de coisas. Até eu entrar finalmente em uma loja e ela finalmente sumir. Eu não vi o rosto de quem falou, essa pessoa também não queria ver o meu rosto. O acelerar dos meus passos, o meu semblante fechado e incomodado não faziam com que a voz cessasse. Como defender que o objetivo dessa voz era me fazer um bem, me elogiar, “fazer o meu dia”? A raiva que eu sinto agora é semelhante à que eu senti do homem que recitou o artigo do estupro. Não importam forma nem conteúdo, cantada de rua é violência (violência simbólica é violência), o resultado é o mesmo. Hoje eu provei empiricamente isso.

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5 respostas em “Cantada de rua é violência.

  1. Olá Bárbara.
    Estava procurando um local na internet para desabafar…pois acabo de passar pelo mesmo, mais uma vez. E isso acaba comigo, É tanto ódio que não consigo mais ficar quieta.
    Eu não me escondo mais, sempre que me ocorrem estes constrangimentos eu enfrento e hoje foi mais um dia de verdadeiro escândalo na rua. Gritei, gesticulei, “rodei a baiana”!
    Eis meu relato:
    No meu caminho para o trabalho, a pé, precisei desviar de um caminhão estacionado meio na calçada, meio na rua, já atrapalhando a passagem de pedestres, me espremi para achar um trecho na calçada e passei colada ao caminhão. Onde o passageiro sentando no caminhão disse “oi, minha querida”. Eu já estou no limite com esses assédios. Foi aí que eu exclamei em alto e bom tom: “O que foi? além de atrapalhar o caminho, tem a coragem de incomodar quem passa aqui falando gracinhas? Eu não posso passar nem na frente de uma Igreja que tem engraçadinho mexendo comigo?” ele tentava responder…o motorista do caminhão voltou para ver o que houve, um senhor que estava na Igreja recebendo este caminhão saiu para ver o que diabos estava ocorrendo…e o senhor (sim, porque era um senhor) que ‘brincou’ comigo, desceu do caminhão e foi andando em direção ao motorista como quem diz mentalmente ‘me salva’ e eu continuava a gesticular, gritar, como uma mulher mentalmente perturbada (mas a verdade é: moralmente perturbada)… O mais impressionante é que nem o tal senhor da Igreja foi capaz de intervir, talvez já por medo de mim, sei lá. Mas acredito que para eles é tão normal um homem importunar uma mulher e tão anormal uma mulher reclamar de forma escandalosa que ambos (motorista do caminhão e senhor da Igreja) ficaram sem ação…só me observando e vendo a vergonha (ou não) que assombrava o senhor de frases graciosas, que no meio da minha gritaria ainda falou “mas eu só disse minha querida…”
    É meninas, mas é assim que começa: “minha querida”, depois “minha gostosa”, evolui para uma tentativa de passar a mão até o momento em que tentarão te violentar. Eu estou exagerando? Pode até ser…para algumas. Mas luto mesmo é pela minha liberdade de poder, em paz, andar 100 metros sem ser avacalhada, moralmente humilhada, por um sujeito que, parafraseando a Bárbara, te importuna “pelo simples fato de você ser uma mulher”.
    Sei que corro o risco de um dia receber uma resposta agressiva tanto verbal quanto física. Mas, isso realmente não vai me calar. Vejo mulheres lutando pelo direito de estudar, mulheres lutando pelo direito de rezar, então eu vou lutar sempre para ser respeitada!
    Se preciso for, vou guerrear, para encontrar PAZ.
    Um grande abraço para você. Lucélia

  2. Não há exagero algum, Lucélia. Eles nunca esperam que a mulher vá reagir. Eu reajo todas as vezes, apesar do medo de ser fisicamente agredida. Mas em 90% das vezes eles ficam tão chocados, tão surpresos que só fazem arregalar os olhos.

  3. Oi Pessoal, tudo bem? Olha, vim aqui divulgar um site que te uma enorme quantidade de relatos reais de mulheres, é claro, o site tem desde conteúdo leve, até coisas realmente chocantes e que são inimagináveis até, mas que aconteceram. Se puder, divulgue ok? cantadaderua.com.br
    Grande abraço

  4. Pingback: A culpa não é das mulheres. A culpa é sua. | …ou barbárie.

  5. Pingback: Cantada de rua é violência. E cantada entre conhecidos? | …ou barbárie.

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