Carlos.

A primeira vez que me apaixonei por Carlos foi na escola. Líamos, como é de praxe no currículo escolar brasileiro, o Poema das Sete Faces. Eu já amava a literatura nessa época e começava a me interessar pela poesia. Foi quando li: “Meu Deus, por que me abandonaste/ se sabias que eu não era Deus/ se sabias que eu era fraco”. E assim me apaixonei, subitamente, num lampejo. Uma mão se esticou de dentro pra fora do livro e enfiou o dedo abruptamente na carne do meu coração.

Parede de uma casa noturna no RJ.

E daí foi a delícia da descoberta do outro que se segue quando nos apaixonamos à primeira vista. Tudo que se assinava por Drummond eu ia lendo e me encantando; e me encantava com alguma coisa que se distinguia da genialidade poética de todos os grandes poetas que fazem a gente ler na escola. Manuel Bandeira e a doçura da simplicidade com que podia tratar as coisas profundas, João Cabral e sua fita métrica precisa pela qual eu nunca me afeiçoei, mas que sempre respeitei. Vinícius e o deslumbrante domínio da técnica, uma maestria pra falar de coisas de amor e de uma sede de vida que ele nunca supriu.

Mas Drummond, não. Os outros que me desculpem, Drummond era além. Ele não foi um grande poeta, ele não foi o maior poeta brasileiro. Pra começo de conversa, Drummond é. Ele fez isso que o espírito humano busca com um desespero quase ridículo, não fosse tão característico, que é transcender o tempo, a vida. Pra falar de Carlos Drummond eu jogo meu diploma de historiadora, que me obrigaria a ter que pensá-lo como produto e produtor de seu tempo, pela janela sem pensar meia vez. Meu querido Carlos – que cada um tem o seu – pertence ao campo do eterno.

E fomos caminhando juntos, e vamos, porque a obra de Drummond nunca mais tirou as mãos de dentro do meu tórax. E é tão bonito que a cada novo desenvolvimento de vida os versos retornem ressignificados ou até significando aquela mesma coisa antiga, que a vida às vezes é mesmo tão irritantemente cíclica. MemóriaAusênciaPapel. Ah, papel… tudo que falei, tudo que pensei, tudo que me contaram. Mesmo em tempos virtuais, se a tela é branca e a letra preta, papel (embora nada supra o gosto de poder desenhar letras e por isso sigo colecionando cadernos).

Hoje é dia do aniversário de Carlos e muitos o parabenizam por aí. Eu senti a obrigação de escrever qualquer coisa, algum sentimento, mas nada, parece, vai chegar perto de precisar o que eu sinto. Claro que não, pois se tenho um Drummond no coração, como explicar em palavras? “Penetra surdamente no reino das palavras”… Não sei, não posso, então apenas agradeço. Por saber que viver é uma coisa boa e que a experiência humana é, apesar dos pesaríssimos, uma coisa que vale, se existe o amor e também o sofrimento (“Não se mate/ Carlos, sossegue, o amor/ é isso que você está vendo”). Por saber que vale a pena lutar pela humanidade (“vamos de mãos dadas“). Obrigada, Carlos, meu Cárdio, aquele que senta no assento mais alto do panteão dos poetas bárbaros. Por mais que eu saiba que você não quereria palavras altivas como essas, com esse tom de bajulação e pompa… mas é que não consigo dizer de outro jeito.

FLIP 2012.

Por fim, pra quem teve a paciência de ler até aqui, um áudio do próprio Drummond declamando “Mundo Grande”, que atualmente tem sido muito presente em mim.

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

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2 respostas em “Carlos.

  1. Vc escreve bem demais! Me sinto culpada por conhecer pouco ou quase nada de Drummond… Essas frases emprestadas que colocam por aí, no facebook sei nem saber bem de quem são e se são realmente de alguém tentam tirar o encanto dos grandes artistas… Ler uma homenagem como esta me faz acreditar na poesia para curar o coração…

  2. Cara Bárbara, desculpe o comentário fora do tema do post. Gostaria de ler tua monografia a respeito de Conceição Evaristo. Tu pode enviar ela por email? Obrigado desde já.

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