Cinco coisas que aprendi com Eric Hobsbawm:

A notícia corre o mundo: Eric Hobsbawm faleceu com 95 anos, vítima de uma pneumonia e após longa luta contra uma leucemia. Os marxistas estão enlutados e seguirão lutando. Mas também todos os historiadores, todos os humanistas lamentam a partida do grande historiador do grande século XX. Hobsbawm representava uma coisa que é ruim de ver partir: uma intelectualidade engajada, crítica e compromissada com a transformação social.

Desenho meu no livro “Sobre História”.

Hoje é dia de incontáveis homenagens. Fica aqui a minha, modestíssima: uma pequena lista de lições que o professor Hobsbawm me ensinou.

1) Que a História está viva e ainda em disputa.

2) Que aquilo que os historiadores investigam é real, a despeito do que tendências sociológicas desmobilizadoras queiram fazer acreditar. Nosso horizonte é, sim, distinguir fato de ficção, o que aconteceu e o que não.  E que são os advogados dos culpados que recorrem à defesa pós-moderna.

3) Que o historiador tem uma responsabilidade social enorme, na medida em que produz matéria prima política que pode ser usada com intencionalidades diferentes do que imaginamos. E que, por isso, é necessário ter muito cuidado com o que se diz (o que se torna extremamente difícil dentro da lógica acadêmica produtivista em que vivemos no Brasil atualmente).

4) Que os historiadores devem ser defensores do universalismo em última instância, e que, portanto, não bastam histórias específicas, ainda que de grupos oprimidos. Assim, estudar grupos subalternos específicos implica em entendê-los em relação ao todo social, dentro de uma concepção mais ampla de exploração humana. Não sou eu que vou perpetuar a guetização desses grupos; o horizonte de luta será sempre o da universalidade de ser humano.

5) Que a vida é como o jazz: jamais é mecânica, está em movimento, em fluxo, em construção.

Rest in peace, professor.

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2 respostas em “Cinco coisas que aprendi com Eric Hobsbawm:

  1. legal e merecida a homenagem, mas a despeito de pequenas discordâncias, gostaria de comentar a segunda “lição”.
    você escreve que “nosso horizonte é, sim, distinguir fato de ficção” pra se opor ao que vc vê como crítica pós-moderna. mas é exatamente isso que a crítica pós-moderna diz em seus melhores momentos (tudo tem seus maus momentos, afinal): que a verdade sobre os fatos é um *horizonte*. vc certamente sabe que a metáfora do horizonte vem da hermenêutica gadameriana, que usa o termo pra designar algo que se afasta conforme vc anda na direção dele. pois então, sinceramente, por mais “mobilizada” que vc se proponha ser, duvido muito que vc vá ter coragem de ser positivista ao ponto de afirmar que uma suposta “verdade” sobre os fatos se encontra facilmente em qualquer esquina, que vc pode chegar e afirmar o que é verdade sobre algo simplesmente através da leitura de documentos sobre o fato e da sua capacidade de decidir.
    e aí o problema: se vc concorda que as coisas não são tão simples assim, que em qualquer documento há relações de poder embutidas e que essas relações de poder ajudam a formar a visão que é veiculada naquele documento, vc tem que admitir que sua tarefa de enunciar a verdade sobre os fatos se complica exponencialmente. mas aí voltamos ao horizonte: isso não significa que se deva deixar de lado o objetivo de chegar a uma compreensão sobre, vá lá, “o que realmente aconteceu”. a questão é que se sabe que nunca se vai chegar a essa compreensão completa. mas só porque sabemos que não podemos criar um ambiente absolutamente esterilizado não significa que vamos fazer uma cirurgia na beira da calçada! muito poucos “pós-modernos” chegaram a afirmar seriamente que a história era igual à ficção no sentido de que era uma pura invenção. pra pegar um exemplo de autor que tb não gosto muito, ler o próprio hayden white assim é não entender o cerne do argumento dele, que está mais preocupado com a forma de narrar os fatos do que com os fatos narrados.
    se for pra focar só no assunto que nos interessa aqui, o que a crítica pós-moderna coloca é isso que falei acima. o resto é em certa medida decorrência lógica – o que leva, por exemplo, a pensar que as histórias particulares não são tão simples de se subsumirem ao tal do universalismo (que francamente me cheira muito a fazer valer uma visão sobre as outras, e de onde eu venho o nome disso também é dominação).

    acho que é isso.

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