Thank you, disillusionment.

Hoje alguns amigos perguntaram: “E aí, como foi o show da Alanis?” e a minha resposta, pra dar a dimensão do que eu senti pras pessoas, foi: “você pode imaginar como é assistir a um show do seu ídolo”. Alanis Morissette é a única artista que eu tenho essa relação meio adolescente de fã com ídolo. Não num jeito meninas que gostam de Justin Bieber ou como eu colocando posters das Spice Girls na parede quando era mais novinha, mas uma relação de intimidade, de se sentir totalmente lido e revelado pela letra de uma música. No estilo Killing me softly, “telling my hole life with his words”, sabem? É isso.

E ontem no show literalmente passeei pela minha vida, pelo menos desde o iniciozinho da minha adolescência até o momento presente (aliás, uma aflição meio neurótica que tenho trazido no peito nos últimos tempos aproveitou a onda morissette pra pegar um jacaré e me aliviar um bocado). Essa turnê é do último CD que ela lançou, Havoc and Bright Lights, que é bem melhor do que eu esperava – é verdade que eu esperava pouquíssimo, depois do fracassado Flavors of Entanglement – e naturalmente ela tocou uma porção de músicas novas, que foram bacanas até. Mas, como disse uma de minhas companheiras de show, parece que nem a Alanis dá muito valor à sua produção recente, porque ela tocou majoritariamente músicas dos primeiros discos e, putz, ainda bem! As primeiras notas, as vocalizações e cada verso altamente poético (e neurótico-histérico como só ela saber ser <3) me remetia a um rosto, uma história, uma carta não enviada, uma desilusão ou outra ilusão amorosa, uma dor. Queens of pain (versão do Sting que ela canta no acústico mas não tocou no show) é o que somos. E falamos, e cantamos sobre isso, gritamos e sacudimos o cabelo numa dança frenética no instrumental de Uninvited.

As letras que já cantei milhares de vezes nos últimos 10, 11 anos me surpreenderam novamente pela força absurda, pela beleza, complexidade, ironias tristemente cômicas (Alanis curte dar uma zoada na sua desgraça como também me é caro fazer) e cara, na moral… o que é a capacidade vocal daquele ser humano? Cantar parece a coisa mais natural do mundo pra ela. E é talvez como escrever é pra mim (e um pouco cantar também, com mais modéstia), uma necessidade vital, uma válvula de escape. Foi só vendo Alanis ao vivo na minha frente que me dei conta que o que ela faz é cantar as entranhas, aquela potência vocal inteira é isso: são as entranhas de um espírito demasiadamente humano, cheio de dor, de paixão, de vontade de amar e de cicatrizes de tanto se fuder. E essa esperança burra que a gente insiste em ter, que nos faz sempre acreditar em ilusão de novo, sempre se apaixonar de novo, sabendo o quanto é ruim cair, mas gostando tanto do gosto que tem voar.

Foi quando ela agradeceu a nós, a Índia, ao terror e a desilusão, eu entendi isso tudo. A desilusão merece mesmo um “obrigada” ocasional, assim como o sonho e essa insistência burra. São o motor da vida.

Obrigada, Alanis, por me confortar, por ser minha simpathetic caracter, por me tocar tão profundamente sempre.

(É, viajei na maionese do amor de fã. Mas é tudo verdade mesmo 🙂 )

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4 respostas em “Thank you, disillusionment.

  1. Não fui, mas programei para ver a transmissão. Minha incorrigível soneca me fez dormir até You Learn e tirar um cochilo em Right Through You.

    Mas também faço parte da geração “sou do tempo dos dois primeiros discos”. Todas aquelas músicas tem um significado enorme para mim. Como não gostar das oposições em Hand in My Pocket? Aliás, só comprei o meu Jagged Little Pill no ano passado…na mesma loja que adquiri meu segundo volume de O Capital.

  2. aaaaiii preciso dizer mais alguma coisa??? puro amooorrr

  3. Lendo isso às sete horas da manhã rsrs, eu só poderia me emocionar, pois é um texto que fala de vida, o único tema que vale a pena. Parabéns pelo texto e pela coragem de mostrar-se, mas sem exibicionismo, um anti-Facebook. Agora vais aturar novamente o trocadilho infame: “És Bárbara!”. Beijo.

  4. Pingback: Gal « …ou barbárie.

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