Poema de amor sobre a vida inteira de cada pessoa (Éle Semog)

Nessa falta de tempo pra escrever e pra sentir que tem me acometido nos últimos tempos, foi esse poema do escritor e militante do movimento negro Éle Semog que conseguiu fazer meu coração bater aflito depois de tanto tempo. Compartilho porque é preciso:

O amor com seus vieses de alegria
não é um sentimento; não é!
É só uma sensação
que nos enche de poder,
ameniza as distâncias
e põe prazer na solidão.
Tirano, tira-nos o pudor,
toda a vergonha,
nos faz tolerantes
como não podemos,
nos faz transparentes
como não devíamos.

Cada pessoa, sua vida inteira,
pensa que o amor é nato.
Ai de nós que nos iludimos
com esse amor todo eterno,
que escutamos de boca em boca,
que se espalhou pelo tempo
sem temer espaço hostil
e se impôs mesmo nos territórios
de gente com pequenez humana.
O amor não é a mãe Terra,
nem dádiva que se recebe
numa fila de espera.

O amor somos nós
certos da vida,
com estórias que começam,
quando começamos no outro
a simbiose da acolhida.
E somos tato
e fogo ameno.
E somos faro
e instinto pleno.
E somos ícones
e a alma brilha.
E somos sons
e doce silêncio.
E somos mel
e delícia ímpar;
como se o futuro
fosse o primeiro início,
como se o passado
não fosse acidente.

O amor não nasce
com a gente,
É coisa que se cria falsa,
que cresce incógnito.
E voraz penetra e dói
no corpo e no espírito,
com suas raízes capilares
feito o ciúme que adoece,
feito a posse que amiúda,
feito a obsessão que cega,
feito a morte e sua pressa.

O amor, real em seus falsetes,
sempre, outra vez vai embora,
e onde não havia nada em nós,
talvez alguma ilusão sem doer,
ele deixa os estragos à nostalgia,
cheiros, vontades, fraquezas,
em tudo uma fonte de dor
Enche os sonhos de espinhos,
povoa a esperança de medos,
caleja o coração miudinho
e faz da saudade uma entrega.
Obsceno em sua fúria, ele, o amor,
quebra e aniquila cada um de nós,
e depois nos joga frágil, assim,
feito um fardo vazio de gente,
nos braços de outra pessoa
que queira aproveitar as sobras.

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4 respostas em “Poema de amor sobre a vida inteira de cada pessoa (Éle Semog)

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