Trans.

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

Esse texto, com esse início desviante, pretende ser um texto sobre transgêneros e, mais particularmente, sobre uma pessoa que cruzou o meu caminho hoje. Eu tive que lidar diretamente, pela primeira vez, com o preconceito contra transgêneros, e senti isso profundamente – o nó no peito ainda está aqui. Há anos eu me apresento como feminista e militante do movimento LGBT, mas nunca tinha experimentado tão de perto a completa falta de aceitação e mesmo de entendimento das pessoas em relação a transgêneros. Homofobia e machismo é algo muito cotidiano pra mim, e mesmo sobre a questão trans eu já pensei bastante. Mas hoje eu percebi que a nossa sociedade confere aos transgêneros um poder especial: faz deles escandalosamente evidentes e, ao mesmo tempo, os invisibiliza. Ser um “homem vestido de mulher”, apresentar-se como mulher e mostrar um documento com nome masculino com a marca indelével do “sexo: M”, atrai olhares curiosos, questionadores, censores. Você passa e as pessoas riem, cochicham, apontam. As pessoas te humilham. Algumas pessoas até te assassinam. Só que, ao mesmo tempo, ninguém parece querer ver os transgêneros, encará-los de frente, reconhecer a sua existência no mundo e principalmente, a existência de seus direitos enquanto pessoas que fazem parte da sociedade.

Isso porque ser um transexual, pra maioria esmagadora das pessoas, é simplesmente anormal. E eu não tô falando só dos machistas xiitas militante, mas de gente “comum”, da moça da limpeza, do trocador de ônibus, do seu colega de trabalho. Eles simplesmente não conseguem olhar para um trans e ver uma pessoa, porque têm uma necessidade desesperada de classificá-lo sob o rótulo “homem” ou “mulher” (geralmente colocam sob “traveco” ou “viado”, que aparentemente não é nem uma coisa nem outra).

Hoje eu tive um grande problema porque uma trans se apresentou pra mim como mulher e, pra mim, isso basta. Me aconselharam a dizer que eu me enganei, que não percebi que “na verdade era homem”, que eu não vi o “sexo: M” no documento. Mas eu vi sim, e deixei que a pessoa fizesse tudo o que é permitido a uma mulher fazer. Porque pra mim, assim como pra ela, ela é, sim, mulher. Eu comprei uma briga perdida, porque não só pra aquelas pessoas “comuns”, mas também para o Sistema, o que importa no fim das contas é o “sexo: M”, a classificação biológica brutal. Recentemente a Argentina aprovou uma lei que permite a mudança da identidade de gênero nos documentos oficiais conforme a auto-identificação do indivíduo. No Brasil, ainda está em tramitação um projeto  de 2007, relativo à mudança de nome, mas não há nenhuma discussão substancial sobre identidade de gênero.

Enfim, o que parece é que ninguém tá realmente a fim de fazer uma discussão séria sobre transgêneros no Brasil, sobre possibilidades plurais de identidade de gênero, sobre nada disso. Mesmo na militância, o assunto é marginal. Na academia, o gênero tá lá confinado no seu guetinho, imagine se acrescido do prefixo trans-. Ninguém quer encarar, no sentindo de ficar cara a cara, olho no olho, com uma pessoa trans (uma pessoa, poxa, esqueçam o prefixo!). Encarar frente a frente ninguém quer, mas fazer piadas pelas costas é um prato cheio. Tô de saco cheio dessa história de medo do “diferente”, de transformar esse medo em risinhos, escárnio, humilhação. Vocês não percebem a falácia? O “diferente” é gente, é humano, o diferente é igual!

Para saber mais:

– Dia 29 de janeiro foi Dia da Visibilidade Trans. As Blogueiras Feministas organizaram uma blogagem coletiva sobre o tema, vale a conferida.

– Meu crossdresser e cartunista preferido, Laerte Coutinho (ou Sônia Cateruni), fala sobre o episódio em que foi impedido de usar o banheiro feminino num restaurante no Rio.

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3 respostas em “Trans.

  1. Ninguém quer ter que lidar ou refletir nem mesmo por um breve momento. Parabéns pelo texto, pela atitude, pela resistencia, pela ação. Muito orgulho de conhcer, mesmo que apenas virtualmente, pessoas como voce!

  2. Nem tem graça toda vez vir aqui e dizer que eu tenho muito orgulho de ser amiga da pessoa questionadora, pensante e transformadora que você é. Falar sobre, agir com a naturalidade tão cara e rara a esses assuntos já faz uma diferença enorme. Vamos continuar fazendo!

    um beijo de urso

  3. É. a revolta é o ponto de partida. As relações de alteridade, a dialogia provoca muitas vezes o choque. Mas o “diferente” não pode se intimidar. Afinal, quem é o “diferente”?

    O Estigma( como diria o Goffman) torna as pessoas desacreditáveis em primeiro nível e desacreditadas em nível mais profundo, sobretudo, quando o estigma é algo visível como é o caso dos trans.

    No final das contas, a escrita da identidade social deste indivíduo é feita pelos ‘outros’ que criam estigmas, que olham com censura ao julgar algo como desviante e que tornam a vida de pessoas tão humanas, brasileiras ou cariocas como elas em um verdadeiro inferno.

    Enfim, é a máxima sartriana do olhar do outro. o inferno feito pelo olhar do outro. O que podemos refletir que o importante em uma sociedade com tanta discriminação como essa não é o que os outros acham de você. Mas o que você faz com aquilo que os outros fazem de você.

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