O amor no tempo da madureza

Ontem fui ao show do Chico Buarque aqui no Rio, um dos muitos que ele tá fazendo nessa turnê do novo álbum, “Chico”, de 2011. Durante o show, me peguei agradecendo a deus pela existência da Thais Gulin, sua nova namorada e musa inspiradora óbvia das últimas composições. Cheguei a comentar com minha mãe – chiquete apaixonada desde novinha – que esse álbum seria um dos melhores que ele já fez, do que ela discordou, lembrando de todas as coisas tão mais geniais que ele já compôs na vida. Talvez ela tenha razão, mas o fato é que esse álbum tem uma doçura que o distingue como conjunto do resto da obra do Chico. Não só porque é um disco de um homem apaixonado, mas porque é um disco de velhinho. Chico está com 67 anos, Thais tem 31. Esse texto não pretende fazer uma análise do álbum, coisa que o meu amigo Ivan Martins já fez muito bem aqui. Eu quero falar sobre outra coisa: sobre amor. E sobre velhinhos.

Hoje acordei cantando as músicas do novo álbum, claro, mas também pensando no Drummond. Drummond foi casado durante a maior parte da vida, mas paralelamente a isso manteve um namoro com Lygia Fernandes, companheira de trabalho, desde os 49 anos até sua morte. Lygia era vinte e cinco anos mais nova que Drummond, e foi ela a responsável por sua teorização poética em cima do “amor do tempo da madureza”, como ele chamou – ou, como eu chamo aqui, do amor de velhinho. É esse tipo de amor que veio surpreender o Chico: “não sei para que outra história de amor a essa hora”. É engraçado como as canções, além de falarem sobre encanto e a surpresa com o amor no tempo da madureza, enredam uma perspectiva marcadamente de velhinho em comparação com a juventude da amada. Não só em versos como “meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”, de Essa Pequena, mas em expressões jovens como o “tipo assim”, em Tipo um baião, ou o “dar mole” em Se eu soubesse. Toda vez que eu ouço “Não dava mole à tua pessoa” me brota um sorriso incontrolável. Dar mole a tua pessoa é bem o símbolo do entrelaçamento encantador entre a coisa jovem com a coisa rebuscada e “antiga”, a coisa Chico Buarque.

O “Chico” tocando no player e eu revirando os livros do Drummond. O amor no tempo da madureza pode virar uma coisa só linda e doce nos versos dos mestres, mas na vida real e dura é alvo de um olho grande danado. Se é amor de homem por uma mulher mais nova é nojento: ele, um velho tarado, ela, uma mercenária. De amor de mulher mais velha por homem mais novo então, nem se fala. Até do amor entre os velhinhos o povo desconfia. Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas! Drummond responde:

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

(Essas coisas – C.D.A.)

Chico Buarque está vivo. Se ele soubesse, não andava na rua, não tinha amigos, não bebia… não dava mole à sua pessoa. Mas fez tudo isso, graças aos céus, e nos deu de presente um álbum maravilhoso, uma turnê generosa, novos sorrisos e alguma lágrima.  Então parem de criticar o amor dos velhinhos e torçam pra que possam ter o seu. Um beijo e um obrigada à Thais e à Lygia, que entraram na vida dos meus poetas no tempo da madureza pra enfeitar suas vidas, embaralhar seus dias e dar a eles uma perspectiva tão nova e tão mais rica sobre o amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

(Campo de Flores – C.D.A.)

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8 respostas em “O amor no tempo da madureza

  1. lindíssimo texto, bárbara. parabéns! Ouvi o CD muitas vezes e não tinha pensado em nada disso. Obrigada por compartilhar. Que até velhinha nos apaixonemos sem medo =)
    Uma ótima semana. bjs

  2. sobrinha linda e poeta…adorei! e digo que o amor no tempo da madureza para os dois também é muito bom, mais intimidade, mais liberdade, novas descobertas…muito bom!!!! beijos da titia
    Uma semana de Luz!!!

  3. Eu ouvi o CD várias vezes sem saber também, Natj. Depois fui pesquisar quem era a Thais Gulim porque achei com a voz bonita e fui pega de surpresa! Ganha todo um sabor bacana quando você descobre o contexto 🙂
    Beijo!

  4. Lindo e doce. Hora calma, hora de sofrer, ninguém sabe quando vem, né?

    Bj
    Rita

  5. Mais do que bom foi conhecer a autora desse texto!
    Pois Chico e Drummond já me denuncia em poesia explicita.
    Desconheci sempre o tempo de amar…pois qualquer hora será eterna se ritmado o ar que entra e sai dos pulmões.

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