Guest Post: Consciência Negra

O guest post sobre o dia da consciência negra aqui no Ou Barbárie sai com um pequeno atraso porque eu deixei o pedido muito pra cima da hora. Mesmo assim, meu amigo Rael Fizson conseguiu rapidamente escrever esse texto forte, emocionante e, sobretudo, importante . O Rael é professor de História do estado do Rio, mestrando em História pela UFF, flamenguista e namorado da Lalá, psicanalista e minha BFF. Vamos ao texto!

*

Ao contrário do que diz nosso senso comum, nem todos em nosso país são descendentes de africanos. Com o fim do comércio atlântico e o fim legal da escravidão, vieram medidas que proibiam a entrada de africanos (mesmo que livres!) e estimulavam a entrada de imigrantes europeus em solo brasileiro.  Durante o século XX, o desenvolvimento industrial, urbano, imigrações e migrações, tornaram o Brasil em muitíssimos aspectos completamente diferente dos séculos anteriores. Hoje encontramos muitas famílias que diferem do tipo ideal brasileiro inventado em meados do século XIX, mas consagrado por Gilberto Freire (a famosa mistura entre o negro, o índio e o europeu).

Ministro Joaquim Barbosa

Muita coisa mudou. Entretanto, uma das permanências históricas que podemos traçar com segurança é a relação entre classe social e cor de pele. Óbvio que, na prática, há sempre grupos e indivíduos que garantem a exceção. Podemos citar hoje um Pelé, um Joaquim Barbosa (ministro do STF). Lá no século, XIX, o maior comerciante luso-brasileiro de escravos era o rico e poderoso Francisco Felix de Souza, pardo e escravo até os 17 anos. Seja como for, o que interessa é que, para além das exceções que confirmam a regra, o que valia para o passado vale para os dias de hoje: a relação, o estereótipo, preto-pobre e rico-branco permanece. O “racismo científico” já não existe, mas o racismo, puro e simples, ainda está aí.

Falemos do racismo que até o início do século XX tinha o status de “científico”. Pois era a ciência que acreditava e difundia certas visões dos seres humanos divididos em raça, cada qual com suas características e devidamente hierarquizados: o branco no topo e o negro na base. Portanto, mesmo que nem todos os negros fossem escravos lá no passado (e nem todos eram) e nem todos sejam pobres nos dias de hoje, todos ficaram e ficam estigmatizados. Percebam a coloração das pessoas que trabalham num canteiro de obras qualquer e compare com a das pessoas que freqüentam um restaurante no Leblon. Logo se estabelece a tal relação entre cor e classe social. Condoleezza Rice (Secretaria de Estado americana no Governo Bush Jr., negra e conservadora, como só pode ser um alto funcionário daquele fatídico governo) teve a seguinte percepção da sociedade brasileira – um pouco esquematizada e superficial demais, eu sei, mas vale a pena:

 “Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas.”

Consciência é “conhecimento”, é a “capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações”. Portanto, creio que seria correto afirmar que ter “consciência negra” é ter conhecimento da história do negro no Brasil, da história das relações raciais em nosso país, das condições que essa parte da população brasileira esta submetida em nossos dias e aplicar tais conhecimentos para atingir o objetivo que qualquer pessoa com pensamento humanista tem: a libertação moral e material de homens e mulheres, a justiça social, econômica e política.

Os grandes jornais cariocas parecem ter ignorado solenemente o “Dia da Consciência Negra”. Olhando alguns sites, as referências são pouquíssimas e, de modo geral, são a festas, a shows, a “representantes da cultura negra”. Vemos na cobertura de nossa grande mídia duas tendências que representam bem certa visão difundida sobre o tema:

1) O racismo não é um problema no Brasil, politicamente não há o que se comentar. Por isso parece haver um grande silêncio sobre o “Dia da Consciência Negra” em geral e sobre a temática do negro no passado e no presente. Para que falar disso, né? Seria dividir o Brasil entre negros e brancos. Seria estimular uma divisão que não existe no Brasil, apenas nos EUA e na África do Sul, correto?

2) Falar de negro no Brasil é falar apenas de cultura (em seu sentido mais estrito, claro). Portanto, o Dia da Consciência Negra, para o status quo brasileiro, não é dia de reflexão, de conhecimento sobre o negro. Não é dia de Consciência. É dia de música e de acarajé. Isso me lembra aquela velha história: negro só pode ser artistas ou esportistas. Por que projetos sociais não buscam nas favelas engenheiros, médicos, arquitetos, historiadores, físicos? Absolutamente nada contra artistas e esportistas… mas o foco quase que absoluto nessas duas áreas expõe um pressuposto implícito de que pobre/negro só é capaz de se desenvolver se for para música ou para o esporte. Afinal, o “sangue africano” é propício ao swing, a improvisação, ao ritmo, ao gingado… não à disciplina, à racionalidade, não é mesmo?

Ter “consciência negra” é ter consciência da contribuição dos indivíduos de cor negra, na maior parte da história do Brasil sob os grilhões da escravidão, deram a este país. É ter consciência de que vivemos numa sociedade de classes e branca onde o dominado é, na maioria das vezes, pobre e preto. Onde essa dominação se dá também ao nível ideológico através de certa “ideologia do branqueamento” que ensinou ao negro, como já disse Malcolm X, a odiar seu cabelo, odiar sua pele, odiar seu nariz… a se odiar como pessoa, como negro! É ter consciência de que em nossa sociedade de classes a cor da pele exerce papel fundamental na hierarquização. A cor da pele impede ou garante a aquisição de determinado emprego, a cor da pele aumenta ou diminui as chances de ser parado numa blitz, de ser suspeito de um crime. “Só quem é cego não vê”.

Imagem de divulgação do Dia da Consciência Negra em Olinda – PE. Arte: Anizio Silva/Pref.Olinda

Aproveitemos o Dia da Consciência Negra para lembrar que o Brasil não é uma “Democracia Racial”, o racismo existe e há uma intrínseca relação entre classe social e cor de pele. Para se atingir objetivos como a distribuição de qualidade de vida e de poder é inaceitável deixarmos essa perspectiva de lado.

Vale citar duas pequenas frases/refrões que são grandes contribuições a temática, de Marcelo Yuka – músico, letrista e um dos grandes cronistas da sociedade carioca da década de 1990:

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” & “A carne mais barata do mercado é a carne negra“.

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3 respostas em “Guest Post: Consciência Negra

  1. Rael,

    Seu texto está muito bem escrito e muito válido – o bom do atraso é que nos sugere pensar a consciência mais do que num único dia por ano.

    abraço,

  2. Oi, Bárbara!
    Vi teu blog depois que o Leonardo escreveu o comentário no FB. (estudamos “juntas” na UFF)
    Gostei bastante de vários posts, mas comento nesse porque é um tema um tanto controverso, atual, emocionante – e meu objeto de estudo. hehe
    Parabéns ao autor.

  3. Pingback: Guest Post: Racismo e legislação no Brasil | ...ou barbárie.

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