101 anos de Rachel de Queiroz

Ontem, dia 17 de novembro, Rachel de Queiroz faria 101 anos. Convidei minha querida amiga Natalia Guerellus, doutoranda em História Social pela UFF, pra fazer um guest post sobre ela aqui no Ou Barbárie. Natalia estuda Rachel há alguns anos e nos presenteou com esse texto maravilhoso. Deliciem-se!

*

Como membro da Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz foi velada a 04 de novembro de 2003 no Petit Trianon, situado no Centro do Rio de Janeiro. Teve morte calma e silenciosa aos 92 anos de idade, deitada na rede de seu apartamento no Leblon.

A data do velório coincidia com o 04 de novembro de 1977, data em que fora recebida na instituição carregando nas costas a importância de ser a primeira mulher a adentrar a tradicional Casa de Machado de Assis.

Ao longo do velório toma a palavra o acadêmico Alberto da Costa e Silva: “Cabe-me dizer o adeus em nome da Academia a Rachel de Queiroz. Como se fosse possível dizer adeus a Rachel de Queiroz”. E segue em tom de brincadeira: “Dela soube pela primeira vez nos distantes anos de 1937, ou 1938. Quando menino via minha mãe a ler O Quinze e a comentar com minha avó sobre aquela moça que rompia todas as convenções da pequenina e provinciana Fortaleza de minha infância e ia sozinha aos cafés e falava publicamente mal do governo”.

De fato, romper barreiras foi marca da trajetória biográfica de Rachel de Queiroz desde cedo: primeiro livro publicado aos dezenove anos; contemplada com o primeiro Prêmio Graça Aranha em 1931; dois casamentos em menos de dez anos e ainda na década de 1930 – lembrando que a lei que permitiu divórcio só foi aprovada décadas depois; membro do Partido Comunista e, posteriormente, de grupos trotskistas em São Paulo; tradutora de dezenas de romances; profissional das letras já nos anos 40; contratada por décadas pela José Olympio Editora; cronista exclusiva do O Cruzeiro; defensora polêmica da Revolução de 64; membro do Conselho Federal de Cultura desde sua fundação; representante do Brasil na ONU; mais de três mil crônicas publicadas ao longo da vida; intelectual ativa, amiga dos mais importantes nomes da cultura e da política brasileira do século XX. Ufa!

Mesmo com todo esse currículo, pouco se sabe ainda hoje sobre a trajetória da jovem jornalista e professora da Escola Normal de Fortaleza ainda nos idos dos anos 1920, antes mesmo da publicação de seu primeiro e mais conhecido romance, O Quinze (1930).

Somente com a comemoração do centenário de seu nascimento em 17 de novembro do ano passado, é que novas fontes foram descobertas e muitos documentos pessoais tem sido catalogados.

Comemoraríamos hoje os 101 anos de Rachel de Queiroz. Membro de uma tradicional família cearense, a escritora nunca escondeu a origem pertencente à linhagem dos Queiroz e dos Alencar, famílias de tradição revolucionária e intelectual.

A mãe, dona Clotilde, era uma exímia leitora de literatura nacional e internacional, assinava as Editions Plon e mantinha-se sempre informada sobre os novos escritores do Rio e de São Paulo. Machado era seu grande ídolo e passou para a filha o gosto refinado; deste escritor Rachel aprenderia muito bem, por exemplo, a utilizar o recurso da ironia.

O pai, Daniel de Queiroz, seguira a carreira jurídica, comum à elite de sua época. O trabalho possibilitou que, ainda pequena, Rachel conhecesse diferentes partes do país, como o próprio Ceará, Rio de Janeiro e Pará. Mas logo Daniel se viu insatisfeito com a prática jurídica, chegou a ensinar Geografia no Liceu até 1915 e, por fim, rendeu-se a sua grande paixão: o cuidado com a terra. Do pai, Rachel aprendeu as lições iniciais de história e geografia e as primeiras letras, além dessa mesma paixão pela terra que permaneceria uma das marcas registradas da escrita racheliana.

 Sendo assim, quando entrou para o Curso Normal do Colégio Imaculada Conceição aos dez anos de idade, os conhecimentos das áreas humanas já eram de seu completo domínio. Já Matemática e Ciências, nem pensar. O Curso Normal foi o modo de instrução formal que Rachel teve em vida.

Não por acaso, era uma das mais correntes formas de acesso à educação adotada pelas mulheres de sua época. Das poucas que sabiam ler e escrever nos anos 1930, não só em Fortaleza, mas também nas grandes capitais como Rio e São Paulo, a maior parte integrava a Escola Normal. Mesmo por isso, se profissionalizavam na área da educação, o que se adequava perfeitamente ao papel republicano da mulher cidadã.

Na escola, Rachel teve contato com as leituras típicas das mocinhas, como os livros da Bibliothèque Rose e alguns títulos que circulavam clandestinamente entre as alunas, sem que as freiras soubessem.

Mas, sob influência da mãe, muitas outras foram as leituras de Rachel de Queiroz por esta época, entre os treze e quinze anos. Em carta de 1924 à amiga de toda a vida, Alba Frota, escreveu a autora: “Ultimamente tenho lido muito. Estou me iniciando em romances; mamãe consentiu que eu lesse A Moreninha e Rosa, ambos de Macedo, conhece? Já estou muito adiantada em literatura, não achas? Quem d’antes só lia Histórias de Troncoso!”

Veja-se logo que o gosto refinado estava muito acima da média das moças de seu tempo. Talvez daí o salto dado para o jornalismo tenha sido uma opção não tão imprevisível. À mesma época, muitas outras mulheres já escreviam em periódicos e eram conhecidas em vários lugares do Brasil, como Maria Eugênia Celso, Maria Lacerda de Moura, Gilka Machado, Cecília Meireles e outras.

Conta a memória de Rachel que sua inserção oficial nos círculos literários da capital cearense deu-se por meio de uma carta sob o pseudônimo de Rita de Queluz, enviada à redação do jornal O Ceará. A carta escrita em vinte e sete de janeiro de 1927 referia-se ironicamente ao concurso Rainha dos Estudantes Cearenses, e dirigia-se à vencedora, Suzana de Alencar Guimarães, escritora local do jornal:

“Minha graciosa Majestade:

(…) Nada mais justo que o ato das classes estudiosas do Ceará, elegendo-a. Mas, agora que vais ter sobre a fronte o diadema real, pergunto-me se são de fato os parabéns que lhe devo dar. Não os acha mal cabidos, dada a atual desvalorização do sangue azul? (…) É por isso que avento a ideia de lhe mudarem o título: e em vez de ser chamada Sua Majestade Suzana I, Rainha dos Estudantes Cearenses, proclamem-na Chefe do Soviet Estudantal do Ceará

O engraçado é que a própria Rachel ganharia esse concurso no ano de 1930. Mas, ainda em 1927, não é à toa que a carta tenha feito tanto sucesso na redação de O Ceará. Além do tom jocoso e inteligente, articulando a idéia de majestade em plena década de 1920 e na vigência do regime republicano, Rita de Queluz atingiu o coração da redação.

Isto porque O Ceará fora fundado pouco tempo antes por Júlio de Matos Ibiapina, como expressão do chamado à época jornalismo independente, afastando-se dos periódicos mais partidários e opondo-se ferozmente aos periódicos católicos, como o O Nordeste.

Entre seus membros encontravam-se jornalistas empenhados em leituras socialistas, como Djacyr Menezes e Hyder Corrêa Lima, que viriam a ser amigos de Rachel. Foi nessa época que a autora afirma já ter entrado em contato com estas leituras, tendo sido já “comunizada”, antes do contato que teve em 1931 com o Partido Comunista propriamente dito.

A partir desta carta, Rachel foi chamada a participar do periódico, escrevendo crônicas e poemas para a coluna Jazz-Band e firmando contato com outros jornalistas importantes, além de começar a ganhar um ordenado razoável, de cem-mil réis por mês. Para o jornal também escreveu seu primeiro folhetim, História de um nome, que contava os caminhos percorridos pelo nome Rachel desde os antigos hebreus.

Em geral tratando de temas da época e referentes às questões regionais, os textos rachelianos deste período são os primeiros passos de uma escrita em formação. A jovem encontrou seu espaço ao ser admitida por um grupo de jornalistas e literatos que se preocupava em renovar a imprensa, incentivando a produção literária de homens e mulheres.

Rachel foi também uma das fundadoras em 1928 do jornal O Povo, de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate. Na coluna Modernos e Passadistas divulgada aos sábados, publicou poemas, crônicas e mesmo críticas acerca das correntes modernistas em disputa nos anos 20, tendo lançado em 1929 um manifesto regionalista para a Revista Maracajá, suplemento literário do jornal. Também aí Rachel envolveu-se nas questões sociais, e travou diálogos com Lacerda de Moura em relação ao voto feminino.

Em 1930, O Povo foi o principal jornal a divulgar a venda do primeiro romance da jovem escritora: O Quinze, na Livraria Moraes por 6$000. A partir deste livro, a história do romance brasileiro sofreria benéficas inflexões.

Isto porque não só a literatura moderna estava em pauta, mas também a figura da mulher moderna, grande enigma para a sociedade brasileira de começos do século. Como uma mulher a romper as tradicionais barreiras sociais, Rachel de Queiroz juntou-se a muitas outras, mas caminhando cada vez mais na direção de sua autenticidade.

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2 respostas em “101 anos de Rachel de Queiroz

  1. Natália, tbm estou entrando nessa empreitada de estudar Rachel de Queiroz sob a ótica histórica, vi seu artigo sobre o antes de “O Quinze” e gostaria mt da sua ajuda, por favor vc poderia me informar onde posso encontrar o acervo do jornal “O Ceará”, preciso mt dele, e se vc pudesse me ajudar seria mt grata. aguardo anciosa.

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