Pelo fim da violência contra quem não é o que você é.

Poucas coisas me emocionam tanto como casos de violência contra a mulher. Eu não sou gay, mas vejo nos olhos de meus amigos o mesmo sentimento. Compartilhamos esse horror, um medo profundo de ser violentado física ou sexualmente simplesmente pelo fato de ser. É até meio difícil falar sobre isso, mas é extremamente necessário. Vamos lá.

Na semana passada fiz uma aula de Krav Magá, um tipo de defesa pessoal associada ao treinamento do exército israelense (o que, como árdua defensora da Palestina me faz ser muito pouco simpática ao “esporte”), porque estava acompanhando uma amiga que treina já há seis anos. Estava lá eu, aprendendo a sair de um enforcamento ao mesmo tempo em que dava uma joelhada nos testículos do agressor (supondo que ele fosse ser homem), quando o professor comentou: “pra mulher é mais importante ainda saber fazer isso”. Com toda a boa intenção do mundo, o professor esclareceu um fato: você é uma vítima em potencial de agressão, muito mais do que seus colegas de treino, porque você é mulher. Pouco depois, assisti minha amiga treinando sair de uma posição em que um potencial estuprador estaria em cima dela. Agora me deparei com um artigo da revista Vírus Planetário sobre uma manifestação pelo fim da violência contra a mulher e essas imagens me vieram à cabeça. Eu não sei Krav Magá, e mesmo que soubesse, como a minha amiga mesmo diz, quero ver ter um estuprador em cima de você e conseguir ter frieza pra fazer os movimentos precisos como ela faz no treino. Eu não quero ter que ser faixa preta em Krav Magá pra poder caminhar pelas ruas e me sentir livre. Talvez seja difícil pra você, homem branco heterossexual de classe média, imaginar, mas nós andamos na rua, mesmo nos dias mais alegres e ensolarados, com uma vozinha no fundo do cérebro dizendo “Cuidado, ele pode ser um potencial agressor!”. Não é paranóia minha não, é sério. E, de quebra, se alguma coisa acontece, somos frequentemente culpabilizados. Quem mandou andar com essa saia? Quem mandou fazer esses trejeitos de bichinha? E quem diz isso não é só a turma dos homens brancos héteros não, também são mulheres, é o senso comum, é esse pensamento acrítico que não consegue ver o que está bem diante dos olhos.

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