Guest Post: Dia da visibilidade lésbica.

Hoje, 29 de outubro, é dia da visibilidade lésbica (você não sabia, né? sinal de que “visibilidade” é uma palavra adequada) e nós, blogueiras feministas, decidimos organizar uma blogagem coletiva sobre o tema. Eu sempre quis pedir à minha amiga Eliza Vianna um guest post sobre qualquer assunto, porque sou fã dos seus poemas e contos há tempos. Com vontade de participar da blogagem coletiva, mas sem saber precisamente o que dizer (muito do que eu quero dizer já está escrito aqui), achei que a hora era essa. Vamos ao texto!

Eu queria escrever uma história gay porque-eu-acho-que-as-pessoas-acham-que-eu-não-tenho-cara-de-gay. Não sei que cara os gays têm e também nunca perguntei a ninguém se eu tenho cara ou não. Eu queria escrever uma história com personagens gays porque eu tenho o sonho colorido de provar-para-o-mundo-preconceituoso-que-os-gays-são-iguais-a-todo-mundo e não pessoas promíscuas. Acontece que. Um, eu só sei escrever sobre sexo e ia acabar corroborando o preconceito – e fazendo as pessoas acreditarem que reside aí a minha homossexualidade (e não no meu tesão por pessoas do mesmo sexo, é claro). Dois, eu mesma não consigo desincrustar da mente a ideia de que gay é um tipo diferente de pessoa e quero construir uma história artificial, arbitrária e – o mais importante – ruim.
Por que continuo querendo escrever a minha história gay? Porque eu adoro ler, ver, ouvir ou sentir histórias gays. Porque por mais que hoje em dia todo mundo saiba que tem gay espalhado por todo o canto do mundo (apesar de nos cantos por onde eu costumo passar só ter mesmo eu), as pessoas continuam alimentando estereótipos e construindo cultura material a partir de ações afirmativas. Sabe aquele gay perfeito da novela das sete? Acaba invertendo as coisas e as pessoas passam a achar que, ao invés de aberrações, os gays são seres iluminados que enfrentam preconceito, são mais sensíveis ou mais batalhadores. Eu, particularmente, nunca enfrentei preconceito nenhum, só sofri e quase sempre fiquei na minha com medo de ser mais uma vítima do tão habitual assassinato por homofobia. Quando vejo as pessoas com esse discurso tenho vontade de dizer que existe gay vagabundo e lésbica canalha, mas sei que isso não ajuda em nada.
Entretanto, minhas páginas em branco e eu continuamos sonhando com o mundo em que as pessoas vão entender que a opção sexual não cria uma categoria diferente de seres humanos – embora tenha se desenvolvido, principalmente ao longo do século XX, um grupo com costumes parecidos que se uniu para ter voz. O chato é que muitos gays tomam para si os estereótipos achando que esse é o melhor jeito de construir uma identidade – caracterizada pela futilidade, culto à beleza e, é claro, promiscuidade.
O chato é que quando a gente é gay, a gente reconhece o próximo, o homofóbico e o enrustido, mas não pode sair por aí contando porque é quebrar a regra principal de não se meter com o armário alheio. Mas eu queria um dia que todo mundo saísse do armário só para as pessoas heteronormativas perceberem o quanto estão equivocadas.
Sonho com o mundo em que as pessoas vão achar que eu sou lésbica por me verem andar de mãos dadas por aí com a minha namorada e não por eu estar usando uma bermuda ou um vestido.
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2 respostas em “Guest Post: Dia da visibilidade lésbica.

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