Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

Essa semana está rolando no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFRJ um mini-curso sobre mitologia iorubana, ministrado pelo professor Renato Noguera, da UFRRJ. Graças à dica da Cris no facebook eu fiquei sabendo e tô tendo a experiência super legal de participar, não só porque é um assunto de interesse pessoal e relacionado à minha pesquisa (sobre a qual já comentei rapidamente aqui), mas porque o mini-curso é ligado à área de filosofia, e é sempre bom mudar um pouquinho a perspectiva epistemológica.

Oxum.

Aprendi um milhão de histórias e nomes, mas uma em especial me chamou atenção. A aula de hoje foi dedicada aos conflitos e tensões entre as noções de masculino e feminino na mitologia iorubana (se não bastasse o tanto de legal que o curso já tava sendo, o professor Renato ainda me propõe uma discussão dessas! eeee!).  Ele contou uma história super longa e complicada que eu não vou conseguir reproduzir, especialmente sendo leiga como sou. Mesmo assim, vou tentar contar pra vocês a última parte;  me perdoem eventuais equívocos. Importante lembrar também que essas histórias são interpretações do professor de uma série de itãs (versos que compõem as narrativas orais que passam a tradição adiante) que dão margem à diferentes versões dos mitos.

Pois muito bem:  Olorum (senhor supremo do destino, o princípio criador) deu a Obatalá, seu filho, a missão de criar no Aiyê (o mundo limitado, esse em que vivemos) o culto aos orixás, para que eles fossem sempre lembrados. Obatalá deu a Oxum (deusa da fertilidade, da beleza) a tarefa de criar sacerdotes e sacerdotisas – babalorixás e ialorixás -, ensinando às pessoas as histórias dos deuses e da criação do mundo. Mas Orumilá (senhor dos mistérios) era o único que tinha o poder de consultar ifá, ou seja, de comunicar-se com o mundo “espiritual” para saber como melhor proceder diante das situações. Sendo um deus masculino, Orumilá decidiu ensinar apenas aos homens o segredo de ifá, tornando-o interdito às mulheres (parece que até hoje às ialorixás não mexem com o ifá). Pelo que o professor falou, existem algumas interpretações pra essa interdição, mas em geral acredita-se que os deuses masculinos temiam que as mulheres soubessem o segredo de ifá porque assim se tornariam ainda mais poderosas do que já eram, considerando que elas tinham um poder fortíssimo que era o da fertilidade, o da gestação. Além disso ainda terem o conhecimento, aí era ameaça!

Iansã.

É claro que Oxum ficou muito danada da vida com essa história, e resolveu fazer de tudo pra conhecer o segredo de ifá e passá-lo também para as mulheres. Daí se desenrolou todo um plano comprido de Oxum que eu não vou contar aqui e ela conseguiu arrancar de Orumilá e de Exu que, sendo amigo de Orumilá e sendo homem, também sabia o segredo de ifá, algum conhecimento, mas não todo. Com a obtenção desse conhecimento por Oxum, o bagulho começou a ficar doido. Os orixás masculinos começaram a ficar muito tensos com a possibilidade das mulheres tomarem o poder no Aiyê, coisa em torno da qual elas já começavam a se articular. Oxum, Obá (deusa guerreira, andrógina, a única solteira da galera) e Iansã (deusa guerreira dos ventos e das tempestades) se uniram em uma sociedade para trocar seus poderes e saberes entre si, realmente tendo o objetivo de colocar as mulheres no poder, como os deuses temiam.

Mulheres articuladas, disputa pelo poder, revolta contra à hegemonia masculina… que beleza! Aí é que vem o caô. Vejam vocês o que Orumilá e Exu aprontaram pra acabar com a sociedade das deusas: chamaram Xangô, deus do trovão, também conhecido como o bonitão do orum (mundo ilimitado, mundo dos deuses). “Vamo lançar o gostosão no meio das mulheres e plantar a sementinha da discórdia!”, e mandaram Xangô desposar Obá, que até então era solteira e, por isso, muito perigosa. Os itãs dizem que o casamento era uma forma de dominar as mulheres, que preocupariam-se em ser belas e agradar o marido, ficando assim enfraquecidas e distantes de pretensões políticas. Obá era solteira e guerreira. Vem Xangô, “negão, ombros largos” (nas palavras do professor) e conquista Obá, que se apaixona por ele.  Próximo passo da liga dos orixás masculinos pra derrubar a mulherada: Xangô deve engravidar Iansã, que era mulher de Ogum e que não tinha ainda conseguido engravidar dele. Isso dá uma confusão danada – dizem que até hoje os filhos de Xangô e Ogum tem desavenças – mas o fato é que Iansã engravida e fica feliz da vida gestando, não querendo mais saber de guerra nenhuma, de homem nenhum.

Obá.

Por fim, Xangô desposa Oxum, também conhecida como a gatinha do orum, aquela que seduz geral. Só que aí o bicho termina de pegar: Xangô quer passar todas as noites com Oxum, enquanto Obá se sente rejeitada. E daí desenrola-se mais um longo episódio envolvendo uma armação de Oxum pra cima de Obá, que, inocente, acaba sendo expulsa de casa por Xangô. Obá é associada aos ciúmes, às loucuras de amor, à baixa auto-estima, etc.

Fiquei muito impressionada ao ouvir esse mito. Não só porque ele é ultra legal (e olha que eu pulei os babados fortes), mas porque numa tradição oral milenar, de uma matriz étnica não-ocidental como as que estamos mais familiarizados, encontramos as concepções até hoje vigentes de que:

1) A maternidade é o sonho de vida das mulheres, o seu grande objetivo e função, sem o qual elas se sentem incompletas e imperfeitas e no qual elas se sentem plenas, não precisando de mais nada.

2) Os homens superam as divergências entre si em nome da coletividade e, nesse caso, do poder político (eu não contei, mas Oxum era esposa de Orumilá, mas dormiu com Exu e depois foi desposada por Xangô, além do problema entre Ogum e Xangô que, apesar do mau estar, foi superado por Ogum tendo em vista a causa nobre em questão).

3) As mulheres não, elas são competitivas entre si, disputam a atenção e o amor dos homens, querem derrubar uma à outra em nome de seus interesses pessoais (que raramente são políticos, mas passionais, sentimentais).

Assim, Exu e Orumilá perceberam que a vaidade e o casamento eram as grandes formas de controle sobre as mulheres. A única maneira de enfraquecê-las era fazerem com que tivessem a necessidade constante de serem jovens, bonitas, de manterem-se interessantes para os seus maridos. As sem marido, coitadas, deveriam se sentir fracassadas. Lembram como Obá era perigosa antes de casar? Lembram o que aconteceu com ela depois do casamento? É por aí.

Com isso todo, estou longe de querer sugerir que a mitologia iorubana seja machista. O professor Renato foi enfático no ponto de que as tensões de poder entre feminino e masculino são constantes e não se encerram nesse episódio, o poder está sempre em jogo.

Pra mim, é muito interessante que essas noções “machistas” estejam presentes na mitologia, porque é justamente o medo histórico das mulheres – seus mistérios, suas possibilidades, sua capacidade de gestar, sua sexualidade – que fez com que tanta coisa de ruim acontecesse e aconteça com a gente ainda hoje. Acho que já comentei por aqui, mas falo de novo: a própria Ginecologia, enquanto especialidade médica, foi criada diante da necessidade dos homens de controlarem aquela criatura que eles não conseguiam decidir se era uma santa mãe ou uma puta sensual.

Como já escrevi pra caramba, deixo o resto pra vocês. Putz, como dá o que pensar! =)

Anúncios

6 respostas em “Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

  1. UOU que maximo isso!!

    Mas eu queria a versão completa, com babados e brigas….
    tem como conseguir??

  2. Bárbara, mas você pulou logo o melhor babado, a história da orelha??

    Rolei de rir na parte do “negão, ombros largos…”.

  3. Amei o post. (o babado da orelha é sensacional). O post tá grande mas tá numa linguagem deliciosa, hahaha

  4. obrigado Bárbara, além de me fazer rir ainda me ajudou no meu trabalho sobre o feminino no sexo masculino, Quanto de feminino não temos nós homens? As tarefas atribuidas às mulheres no lar (limpar, lavar, arrumar, cozinhar etc) fazem do homem um inútil utilizador da casa onde habita. Homens à que lutar contra isso, não podemos aceitar que as mulheres sejam superiores. Toca a lavar, limpar, cozinhar etc. vamos mostrar às senhoras que também somos capazes 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s