Dia do Orgulho LGBT

 Tenho a impressão de que vivemos uma época de crise. Isso pode ser assustador, a princípio, mas são precisamente as épocas de crise que trazem no seu seio as possibilidades, a oportunidade. Faz tempo que eu não via agitação social como tenho visto nas ruas ultimamente. Isso é bom, é bonito, mas significa também que temos tido muita coisa contra o que lutar. Os ataques são muitos: aos nossos direitos, à nossa expressividade, à nossa liberdade.

Hoje é dia do orgulho LGBT e a escalada da homofobia no país e no mundo cresce como nunca. Mas, vejam, a resistência também cresce. Hoje é dia de orgulho porque estamos ocupando os espaços, estamos pautando discussões, já não queremos nem podemos nos esconder. Hoje é dia de orgulho porque a luta – luta mesmo, nessa terminologia guerreira – também está em escalada. E ouso ver no horizonte um arco-íris.

Eu digo isso tudo na primeira pessoa do plural não por fazer parte do extinto S da reformulada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), mas porque efetivamente me coloco como pertencente a esse grupo que – essa noção é fundamental aqui – não é pra ser um gueto.

Não quero negar a importância da constituição cultural e, principalmente, política de grupos humanos diversos, mas sou da opinião que a essa coisa de tolerar o outro pode ser uma operação perigosa. Não quero negar a diversidade, muito pelo contrário, mas acho que, do jeito que as coisas estão, ainda vale a pena insistir na noção de igualdade.

Eu tenho uma perspectiva bastante fluida em relação a sexualidade e gênero, como vocês podem perceber aqui e aqui e em mais tantas palavras minhas. O fundamental, entretanto, é entender que esse Outro homossexual, esse Outro mulher não residem do outro lado da moeda, no pólo oposto ao seu, cuja existência você tolera. Uma coisa que o movimento LGBT me ensinou, talvez mais até que o movimento feminista, foi a fluidez do ser humano, a sua complexidade, as possibilidades inesgotáveis e, principalmente, que não precisamos nos encerrar em nenhuma delas. Ser humano é ser possível, e assumir-se enquanto possibilidade demanda mais do que tudo coragem, e por isso mesmo gera muito orgulho.

Laerte, querido Laerte.

Esse texto é uma homenagem e um agradecimento emocionado a todos aqueles que tem que engendrar cotidianamente a coragem pra assumir suas próprias possibilidades, enfrentando um medo monstruoso não só de sair do enquandramento, mas da violência cruel da homofobia e do machismo que os espreitam.

Força.

E, quando o espetáculo da violência e da ignorância tomar seu campo de visão, lembre-se de tudo que já conquistamos, de como a luta tem crescido, pense no arco-íris no horizonte.

OBS: A primeira foto ficou sem legenda porque tá muito pequenininha, mas é da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, e os créditos são do Túlio Vianna. Sábado que vem, dia 2, tem marcha aqui no Rio. Informe-se!

Masculino versus Feminino: psicanálise, senso comum ou fluidez?

Arrasei no título do post, né, gente? É o academicismo tomando conta do meu ser… Também, já estraguei todo ele no comecinho do texto… Mas vamos lá. A Ludmila me recomendou essa palestra da psicanalista Maria Rita Kehl (aquela que foi demitida por ter uma opinião desviante do Estadão, lembram?) sobre os padrões de feminilidade e masculinidade, como ela mesmo chama, e sua relação com a violência doméstica, e mais um monte de coisas. A palestra tem em torno de duas horas, e embora seja super interessante, eu não consegui assistir tudo prestando toda a atenção necessária. De qualquer forma, a quase uma hora que assisti me suscitou algumas questões que sempre me perturbam o juízo, mas que  ainda não tinha sistematizado. Como fazer um texto discutindo a palestra em si seria uma parada muito longa e complicada que eu não tenho arcabouço teórico nem poder de síntese suficiente pra fazer aqui, vamos simplificar.

Esse é o "Tickle me Freud"! HAHAHA

Quando eu começo a ouvir um psicanalista falando de masculino e feminino, já começo a me coçar toda. Não se enganem, eu me amarro em psicanálise, minha melhor amiga é super freudiana e lacaniana e adoramos conversar sobre o assunto (leia-se eu pergunto e ela me ensina). Ela até me ensinou a não ser muito fã das outras linhas da psicologia e validar mesmo o trabalho da clínica psicanalítica, hehe. Então eu tenho pensado sobre Freud e psicanálise desde as aulas de filosofia do colégio até hoje, mas sempre como uma leiga intrometida e perguntadeira.

Mas então, por que minhas expressões faciais automaticamente viram caretas com as noções de homem e mulher da psicanálise? Por causa das estruturas – que a Maria Rita chama de lei de Freud, atentem. Como não quero nem sei explicar psicanálise pra ninguém, vamos dizer que, grosso modo, segundo essa perspectiva, homens teriam uma determinada estrutura psíquica e mulheres outra, admitindo-se ocasionalmente uma tendência de alguns homens pra estrutura da mulher e vice-versa. Mas, no fim das contas, dentro da neurose, mulheres são histéricas e homens, obsessivos. Acertei, Larissa?

Eu nunca consegui com isso. Sempre faço mil argumentações e a Larissa, mil relativizações, mas no fim das contas, homem é de um jeito PORQUE é homem e mulher é de outro PORQUE é mulher. Um tem pênis, outra tem vagina, e isso determina seu ser social e psíquico. Ora, eu não posso concordar, por questão de princípio, que qualquer característica psíquica, comportamental ou social seja determinada por uma condição biológica. Sou muito ciências sociais pra isso, muito feminista, muito anti-racista pra isso. Nenhuma explicação biologizante pra fenômenos sociais me convence. Quando se trata disso, sou só pós-modernidade, se vocês quiserem chamar assim.

Agora é a hora que todos os psicanalistas falam: “Aaai, que buuuurra, dá zero pra ela!”, mas, na boa, quem tiver uma explicação que me convença ou simplesmente esclareça minhas burrices, tô aceitando de bom grado.

A careta que eu faço quando isso acontece é muito similar à que me acomete quando eu ouço as frases “Hunf… Homens!”, “Mas mulher é assim mesmo…” e todas as variáveis dessas. Tipo, TODOS os meus amigos mais lindos, inteligentes, esclarecidos, marxistas, capitalistas, alienados… adoram mandar isso nas conversas. E toda vez eu tenho que fazer a pausa dramática e chata do “peraí, homens não são obrigatoriamente de um jeito e mulheres de outro”, o que é uma coisa mais ou menos óbvia pra mim. E não é que eu sempre encontro resistência? Acho que ainda não consegui convercer realmente ninguém de que as pessoas são pessoas, tem vivências singulares e não é a genitália delas que determina o comportamento diante das situações. Devo ser uma péssima feminista, tenho que rever meus métodos. Parece que essa é uma distinção básica muito importante pras pessoas, categorias sem as quais elas não conseguem entender o mundo. E isso é um problema muito sério, porque é dessa diferenciação radical entre o que pertence ao masculino e o que pertence ao feminino, esses dois grandes conjuntos que dividem a humanidade, que decorrem um mooonte de problemas e violências, tanto pra mulheres e homens (biologicamente falando). Até mesmo as discussões sobre homossexualidade, feitas da perspectiva anti-homofóbica, muitas vezes ficam presas a esse dualismo – ou você é hétero ou é gay, ou gosta de homem ou de mulher, tem que escolher pra poder assumir. E se as coisas forem mais fluidas?

Não pensem que essa minha perspectiva é consensual dentro do feminismo ou dos estudos de gênero. Esses daí tão sempre pipocando de opiniões e abordagens analíticas diferentes. Mas, cara, pra mim é isso aí: as pessoas fazem sua história, a existência delas é o que determina sua consciência, e não o corpo. Eu só quero o poder de me conceber como plural, como possibilidade. Por que insistirmos nós mesmos em amarras?