O problema da desilusão

As coisas tangíveis

Tornam-se insensíveis

À palma da mão.

(Memória – Carlos Drummond de Andrade)

Tarde de sábado na praça de alimentação do shopping. Eu era uma das últimas meninas da segunda série que ainda acreditava em Papai Noel. Lembro de inventar mentiras para defender o velho das acusações da outras crianças. Tranquei janelas e a porta do quarto e mesmo assim ele entrou! Eu sempre tive essa necessidade de pôr tudo às claras. E por isso tomei toda a coragem que existia no meu bravo espírito infantil e perguntei: Papai Noel não existe, né, mãe? Não, filha. Choramos.

Ao mesmo tempo em que essa racionalidade que nos acomete brutalmente  aos oito anos me avisara da resposta – pelo que fiz a pergunta –, havia em mim uma certeza estúpida de que ela diria sim, claro, existia. Afinal, eu tranquei todas as janelas e os presentes estavam lá. Afinal, apesar de nunca ter visto a luz vermelha na janela, apesar de distinguir claramente os homens de barba postiça nos corredores dos shoppings, eu sentia a presença dele no meu quarto.

No Natal seguinte, um Papai Noel inexistente deixou presentes pra mim graças ao meu primo de dois anos a quem tínhamos que iludir, o que me garantiu um alento. Depois, nunca mais. Olha aquela luz vermelha lá no céu! Eu não vi. Quantos presentes! Nada pra mim.

Talvez se eu nunca tivesse perguntado. Se o impulso de colocar tudo às claras não tivesse se imposto ao desejo de continuar crendo. À necessidade de continuar sonhando.

Esse é o processo da desilusão, literalmente falando. Eu experimentei um mundo com óculos que me davam determinado panorama. Aí fui no oftalmologista e ele disse que na verdade nunca tive problema algum, foi um engano. Pode tirar os óculos. E aí era tudo diferente.

Foi assim com Papai Noel. Foi assim com o desamor.

Envelheci, mas o impulso de botar as cartas na mesa persistiu e talvez tenha crescido, até. A experiência não conseguiu me ensinar que colocar a verdade crua em evidência raramente acaba em coisa boa. É a velha história da verdade: que ela é isso aí, se não gostou, lamento.

É como se eu estivesse vivendo uma vida que, de repente, não era a vida, era um filme e a projeção acabou. A luz acendeu e eu me vi sozinha dentro do cinema, com cara de tacho. Difícil de entender, difícil de aceitar, difícil de ir na lanchonete comprar um combo de pipoca mais refrigerante e conversar com os passantes como se aquilo tudo fosse normal. É foda, mas é isso aí. É a verdade.

O pior da desilusão, ao contrário do que esse nome dramático que a palavra tem pode nos fazer crer, não é nem que cause luto ou melancolia. O problema é esse choque de realidade, é a perda de paradigmas. São os óculos jogados no lixo, se vira aí pra voltar a enxergar. Você tem que ficar tateando a nova realidade, não se sabe como proceder, não se tem nenhum pressuposto mais.

E aí? Aí que você tem que criar pressupostos novos. Todo mundo precisa de pressupostos pra viver. Todo mundo passa a vida desenvolvendo teoricamente pra si o que cada coisa na vida é, num revisionismo infinito que se reinicia a cada desdobramento das coisas. Ou então é assim só pra mim, mas acho que não. Eu preciso de metodologia pra viver. Mas qualquer conversa de botequim do tipo “eu sou uma pessoa que é assim, faz assim…” denota essa teorização necessária.

Passei a vida inteira teorizando sobre o amor. Acho que todo mundo passa, em maior ou menor grau. Agora tô assim, nesse não-sei-mais agonizante, mas é apenas questão de quebra de paradigma. O acúmulo de experiência vai me dar novos elementos e a teorização vai voltar toda mais complexa (não sei se mais completa) do que a anterior.

Mas isso não é consolo nenhum. Porque o fato – a verdade – é que eu tenho agora, nessemomentopresentejá, que lidar com o desamor. Meu irmão, vou te contar um negócio, espero que nunca isso aconteça com você. Porque é muito doido. A única coisa que pude formular em relação a isso até agora é que a pior coisa que se pode dizer para ou ouvir de outra pessoa, pior do que “eu te odeio” ou “você é patético”, é “eu não te amo mais”. É ruim, porque, assim, que que eu vou fazer? É que nem o Papai Noel inexistindo: falou, ta falado, não existe, não tem mais. Nem tem o que querer de volta, não tem mais objeto A psicanalítico, porque, pô, não existe mais. Perda de pressupostos, choque de realidade. Só sendo forte. Sou.

Fico pensando em como agir com um eventual filho sobre a questão Noel. Isso vai caber a mim. Sobre o amor, não sei o quanto cabe aos pais. Mas sobre força, sobre isso minha mãe me ensinou e sobre isso se pode ensinar a um filho. Veremos.