Mulan: “Vou fazer de você um homem”

Como qualquer criança que cresceu na década de 90, eu sou apaixonada pelos filmes da Disney. Já vi cada um umas vinte vezes, sei todas as músicas e, principalmente, canto as letras errado com convicção. É  o caso clássico da música O que eu quero mais é ser rei, do Rei Leão, que eu sempre cantei “Quando eu for rei ninguém vai me/ Não serei nenhum bléu”. Depois de velha fui descobrir que o correto era “Quando eu for rei ninguém vai me vencer em nenhum duelo”, o que de fato faz muito mais sentido, mas que me é impossível de cantar, porque pra mim é bléu, pronto acabou.

Aliás, essas reflexões que surgem “depois de velha” sobre determinadas coisas da infância às vezes deixam aquela pulguinha atrás da orelha. No próprio caso do Rei Leão. Uma vez eu tava numa conversa sobre como esse era o melhor e mais legal filme que jamais existiu, e um amigo militante, concordando, fez a ressalva de que o filme era muito conservador. Eu: “OHHH, por quêêê?” e ele mandou uma de que, poxa, o Simba largou um modo de vida libertário, assim como fizeram Timão e Pumba, pra fazer uma restauração monarquista na Pedra do Reino. Hehehehe

O que eu fiz com essa informação foi ignorá-la completamente e continuar cantando que não serei nenhum bléu. Mas é aquela coisa… Por exemplo, depois que virei uma alegre e convicta adulta feminista, às vezes penso no efeito da boneca Barbie na minha vida. Nossa, a minha vida era brincar de Barbie quando eu era pequena. Sempre tem aquelas meninas que falam: “ah, eu não, eu gostava de subir em árvore e jogar futebol com os meninos”, mas eu era capaz de passar dias inteiros sentada na frente da minha casa da Barbie inventando um enredo pra vida delas. Hoje percebo coisas do tipo: a Barbie que eu achava mais bonita era sempre a principal e a que eu achava menos bonita era sempre a mãe. Porque, sendo menos bonita, fazia sentido de que ela fosse mais velha, por exemplo. No mais, acho que brincar de Barbie foi importantíssimo pra um desenvolvimento intelectual e psicológico, acreditem se quiserem. Afinal, criar enredos de vidas, relações sociais, familiares, amorosas, problematizá-las e mesmo vivê-las, em certa medida – era isso que eu tava fazendo.

Mas na verdade esse post é sobre um filme da Disney específico. Um que eu gosto muito em particular, que também sei as falas e que também canto errado: Mulan.

Todos sabemos que a Disney é conservadoríssima, que Walt Disney era uma máquina de fabricar ideologia (vide as clássicas aventuras da turma do Pato Donald na América Latina no bojo da política de boa vizinhança do governo norte-americano nas décadas de 30 e 40). Mas, assim… a “restauração monarquista” do Rei Leão não me fez menos libertária ou de esquerda, da mesma forma como as Barbies não me fizeram sonhar em ter uma cintura menor do que a cabeça (embora saibamos que elas fizeram isso com muita gente, num grau doentio). Só que aí vem Mulan. E Mulan, com sua mensagem a ser passada, realmente me atingiu. Me deu vontade de cortar o cabelo com a espada e ir pra guerra no lugar dos meus pais. Me deu a certeza de que eram coisas de menina inteligência e bravura, ao invés de sempre – e apenas – beleza e docilidade. É por isso que eu amo a Mulan.

Eu tava vendo uns vídeos no Youtube com as músicas em português e descobri uma coisa engraçada. Uma das letras que eu sempre cantei errado foi a da música Homem ser, cujo refrão eu sempre cantei “Vou vencer”. Em inglês, a música é entitulada “I’ll make a man out of you” (“Vou fazer de você um homem”), e ela é trilha pro treinamento dos soldados losers (Mulan inclusa) pra irem pra guerra. No final eles ficam super sinistrões e é a Mulan, aliás, que resolve o desafio lançado pelo filho gatinho do General de subir numa espécie de pau de sebo gigante (revistinha do Chico Bento mode on) pra pegar uma flecha. Achei sintomático que a música tenha esse nome, porque é o momento em que a Mulan conquista de fato o lugar reservado aos homens, o lugar da guerra, que é também o lugar da inteligência estrategista que ela parece dominar mais do que todos os outros homens, como vemos no desenrolar do filme. E assim… todo mundo acaba aplaudindo isso. É legal, parabéns, você tomou esse lugar pra si. Talvez os papéis sociais reservados para homens e mulheres não sejam tão rígidos. Isso, em termos de Disney, é ou não é revolucionário? =)

Não sei se ainda existe spoiler de Mulan (porque eu tenho pra mim que todo mundo já viu esse filme, tipo O Sexto Sentido), mas aviso que esse parágrafo comentará o final do filme. Qualquer coisa, pula pro próximo. No fim, Mulan e seus amigos salvam a China da invasão huna sob o comando dela, todos vestidos de mulher usando seus paninhos dos vestidos para subir as pilastras do castelo do Imperador, armando toda uma arapuca muito maneira. Ela, que no começo do filme tá numa depressão só porque “honrar sua família” significa coisas que ela não quer – casamento arranjado, docilidade, fim da liberdade –, acaba tendo o reconhecimento e o afeto do seu super fofo pai através da inteligência e da coragem. E ainda fica com o filho gatinho do general no final, porque, pô, é um filme da Disney, né?

Enfim, digam o que quiserem, mas acho Mulan um filme feminista. Acho que faz bem pras menininhas, acho lindo, amo as músicas. Poderia comentar mais em detalhe os pontos feministas do filme, mas a divagação me tomou muito tempo e o trabalho clama por mim, hehe. Deixo pra vocês os comentários então.

“Nome? Eu tenho um nome… E é nome de homem, viu?”

“As feministas são esquerdistas genuínas”

Li esse trecho de uma entrevista que Simone de Beauvoir concedeu a John Gerassi e fui acometida pela necessidade de publicá-lo aqui. Ele fala por si, então nem vou comentar.

Créditos à Srta. Bia pela indicação na lista das Blogueiras Feministas!

Gerassi — Mas essa consciência está limitada às mulheres que são de esquerda, isto é, mulheres comprometidas com a reestruturação de toda a sociedade.

Beauvoir — Bom, é claro, já que as outras são conservadoras, o que significa que elas querem conservar o que foi ou o que é. Mulheres de direita não querem revolução. Elas são mães, esposas, devotadas aos seus homens. Ou, quando são agitadoras, o que elas querem é um pedaço maior do bolo. Elas querem salários melhores, eleger mulheres para os parlamentos, ver uma mulher se tornar presidente. Fundamentalmente, acreditam na desigualdade, só que elas querem estar no topo e não por baixo. Mas elas se acomodam bem ao sistema como ele é ou com as pequenas mudanças para acomodar suas reivindicações. O capitalismo certamente pode se dar ao luxo de permitir às mulheres a servir o exército ou entrar para a força policial. O capitalismo é certamente inteligente o suficiente para deixar mais mulheres participarem do governo. O pseudo-socialismo pode certamente permitir que uma mulher se torne secretária-geral de seu partido. Isso são apenas reformas sociais, como o seguro social ou as férias pagas. A institucionalização das férias pagas mudou a desigualdade do capitalismo? O direito das mulheres trabalharem em fábricas com salários iguais aos dos homens mudou os valores masculinos da sociedade Tcheca? Mas mudar todo o sistema de valor de qualquer sociedade, destruir o conceito de maternidade: isso é revolucionário. Uma feminista, quer ela se autodenomine esquerdista ou não, é uma esquerdista por definição. Ela está lutando por uma igualdade plena, pelo direito de ser tão importante, tão relevante, quanto qualquer homem. Por isso, incorporada em sua revolta pela igualdade de gêneros está a reivindicação pela igualdade de classes. Numa sociedade em que o homem pode ser a mãe, em que, vamos dizer, para colocar o argumento em termos de valores para que fique claro, a assim chamada “intuição feminina” é tão importante quanto o “conhecimento masculino” — para usar a linguagem corrente, apesar de absurda — em que ser gentil ou delicado é melhor do que ser durão; em outras palavras, em uma sociedade na qual a experiência de cada pessoa é equivalente a qualquer outra, você já estabeleceu automaticamente a igualdade, o que significa igualdade econômica e política e muito mais. Dessa forma, a luta de sexos inclui a luta de classes, mas a luta de classes não inclui a luta de sexos. As feministas são, portanto, esquerdistas genuínas. De fato, elas estão à esquerda do que nós chamamos tradicionalmente de esquerda política.