A Devassa e a mulher negra: “Só corpo, sem mente”

Terminei minha monografia, finalmente! E agora que não tenho que voltar toda a minha energia escritora pra uma coisa só, posso voltar pra cá. Mesmo assim, o primeiro post pós-monográfico do blog se relaciona com o tema da monografia. Não que eu tenha planejado, mas me senti impelida a escrever alguma coisa quando dei de cara com essa imagem que a Dayani mandou para o grupo de discussão das blogueiras feministas:

A cerveja Devassa já enfrentou uns problemas com a CONAR e saiu pagando de mártir da censura com esse vídeo, muito do muquirana. Bom, esse episódio não significou muita coisa pra ninguém, até porque não tocou no problema central do marketing da cerveja: ele se baseia em estereópos femininos racializados, sexualizados e objetificados. Mas, nãããão! Se eu colocar isso em questão em qualquer mesa de bar DO MUNDO vou ser a pessoa mais insuportável, implicante, inconveniente e o caramba que existe. Então eu só não frequento o restaurante Devassa, não bebo a cerveja e ignoro sua existência, porque propaganda de cerveja é essa coisa horrorosa, machista e nojenta mesmo. Ok.

Aí eu me deparo com isso. A Devassa ensinando aos consumidores que “é pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”, explicitando pros mais intelectualmente limitados com uma ilustração de uma mulher negra (mulata?) sensual, magra, tesuda, maravilhosa, com olhar 43 e tudo. Mas não existe racismo no Brasil. E feminismo é uma coisa ultrapassada. Realmente, as mulheres negras ocupam um lugar super bacana na sociedade, né? Elas estão em pé de igualdade com os homens! Elas estão melhores amigas das mulheres brancas! Né? Não é.

Eu li um texto fundamental pra minha monografia da intelectual negra bell hooks (que todo mundo conhece, né? não é), que tá disponível em PDF na internet, coisa linda. Nesse texto, ela fala sobre essa formulação discursiva que encerra a mulher negra em seu aspecto biológico, tanto como a criatura ultra sexual da propaganda quanto como a figura da “mãe preta”, aquela escrava/emprega que cuida de todos, que serve a todos. Esse discurso atua para tornar o domínio intelectual um lugar proibido para as negras, já que mais do que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, elas têm sido consideradas “só corpo, sem mente”.

Só corpo, sem mente. O machismo tem operado essa redução das mulheres a seus corpos historicamente. Até mesmo a história da formação da ginecologia como especialidade médica está relacionada com isso (posso falar disso num outro post, quem sabe). Da mesma forma, o racismo trata de animalizar os negros, que além de “só corpos”, muitas vezes nem chegam a ser considerados corpos humanos. Pensem na conjugação dos dois.

Essa propaganda da Devassa não merece só um “ai, que horror”, uma virada de página e um gole de Devassa pra esquecer. Isso é sério. Vamo denunciar na CONAR, quebrar uma garrafa de Devassa na cabeça do publicitário que inventou essa merda, sei lá. Quando eu tiver uma proposta mais concreta (preciso da ajuda das meninas da lista!), faço um adendo aqui.

De resto, fica o que a bell hooks falou. O discurso que reforça o estereótipo da mulher negra como “só corpo, sem mente” só pode ser destruído na medida em que as mulheres negras o subvertam ocupando o lugar proibido do trabalho intelectual. Eu faço coro com mestre hooks quando ela diz:

“o trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela libertação, fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas, que passariam de objeto a sujeito, que descolonizariam e libertariam suas mentes.”


P.S.: Minha monografia é sobre o romance Ponciá Vicêncio, da escritora negra mineira Conceição Evaristo. Mas sou de História, não de Letras! Só pra esclarecer. Hehehe.

Adendo: Denuncie a propaganda da Devassa na Conar! O link é esse:  http://www.conar.org.br/home.html#r O post da Ana tem os dados da revista que veiculou a propaganda e sugere um texto a ser enviado pro Conar, que redigimos no grupo de blogueiras. Mas sinta-se livre pra escrever o próprio texto, o importante é denunciar!

Adendo ao adendo: Também está rolando essa petição on line, assinem! http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N4599