Tropa de Elite 2

Vou tentar arduamente fazer com que esse post não seja repetitivo, mas não posso deixar de sistematizar aqui algumas observações sobre o Tropa de Elite 2, que tá aí no circuito batendo um monte de records de audiência do cinema nacional.

Assisti o filme ontem, ávida por uma opinião pra emitir, ávida pra ler as opiniões dos blogueiros. Acho que nunca senti isso em relação a nenhum outro filme, pelo menos não com essa intensidade. Talvez porque, diferente dos outros, Tropa de Elite 2 tem uma relevância social que não é brincadeira. Isso significa que ele suscita debate em todos os lugares sociais, diferentemente dos nossos humildes veículos comunicativos, que ninguém-sabe-ninguém-vê, a não ser nós mesmos, “intelectuais maconheiros de esquerda”, nas palavras do Nascimento.

 

Olha a gente ali atrás, na palestra do Freixo, digo, Fraga.

 

Pois bem, eu e o Tito estávamos muito empolgados, doidos pra descobrir de que lado do debate blogueiro da História UFF ficaríamos: com os prós,  Mari Bedran e Melo, ou com os contras, Wesley e Erick (leiam esses posts! meus amigos overinteligentes tem o bom hábito de escrever textos que valem muito a leitura).

Nunca uma continuação foi tão necessária quanto Tropa 2. Isso porque a polêmica que Tropa 1 suscitou em todos os níveis da sociedade precisava de uma resposta. E não importa quantas entrevistas o Padilha desse, quantos Freixos o Wagner Moura apoiasse, era preciso um outro filme. Assim, não dá pra pensar no Tropa 2 sem considerar as conseqüências do primeiro filme, cujas dimensões surpreenderam até o próprio Padilha. Muita gente disse que Tropa de Elite é um filme facista. Um professor meu chegou a dizer, inclusive, que era um filme institucional do BOPE. Seja o que for, o fato é que as lojas disponibilizaram pro último dia das crianças um caveirão de brinquedo. Se isso não te assusta, pode ir clicando no xis vermelho no topo da tela.

E aí? Como é que a gente faz com os fãs do BOPE e seus filhinhos? Como é que a gente faz com o fato de que o Wagner Montes é o deputado estadual mais votado do Rio, proclamando aos quatro ventos que vagabundo tem mais é que morrer? Ué, chama o Capitão Nascimento, porque é só ele que as pessoas escutam.  É ele que tem que mandar a letra: o culpado de tudo não é o favelado fudido; “o inimigo agora é outro”. E eis o subtítulo que anuncia uma imensa complexificação do problema, incluindo uma rica reflexão sobre o famigerado sistema, esse “mecanismo impessoal que articula interesses escrotos”.

Quanto aos críticos do filme, eu sinceramente não sei o que vocês estavam querendo. Tropa 2 anda na corda bamba entre o que se pode dizer de crítica social e os limites exigidos pela possibilidade dessa divulgação em massa que o filme tem. Pra o filme ser mais revolucionário do que é, só faltava a cena final desviar do Planalto pra focar burguesia brasileira. O filme é divulgado pel’O Globo, gente! Descendo o pau nos políticos, nos milicianos E ATÉ NA IMPRENSA, gente! Dá pra sair um minuto do plano mágico das idéias revolucionárias e perceber o que esse filme conseguiu dizer pra uma quantidade absurda de pessoas?

E fez isso com um didatismo “jornalístico”, pra citar um amigo crítico do filme. O que alguns acharam de mal gosto roteirístico é na verdade a fórmula mágica do Tropa 2. Desculpa se essa não é uma sétima arte digna dos seus diretores cults preferidos da Nouvelle Vague, mas a linguagem mordaz é a eficácia do filme. Porque é direta, é crua. E não menos inteligente por isso. O filme consegue ser coerente com o personagem condutor, Nascimento, fazendo a gente acreditar que ainda é ele, aquele filho da puta adorado pelos imbecis, e operando uma transformação delicada no seu ponto de vista. E o novo personagem, Fraga/Freixo, interpretado pelo sempre professor de História Irhandir Santos, é fundamental nisso. Amarrar os personagens numa mesma família não é mera tosquidão, faz parte do didatismo jornalístico que amarra a gente na trama, que faz a gente rir, ter medo e fazer caretas de horror.

Existe um motivo pelo qual esse filme estreou depois das eleições. Ele cutuca nervos inflamados com unhas afiadas. E o mérito dele é que não cutuca só os nossos nervos, my fellow intelectuais, não só os da classe média alienada, que insistimos tanto em fazer nosso outro, nosso oposto. Esse filme fala com todo mundo, ele tem esse alcance. Coisa que a blogosfera não tem. Coisa que a gente não tem.

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6 respostas em “Tropa de Elite 2

  1. Pô, eu até tô no plano mágico das idéias revolucionárias, mas acho que, não por isso, podia dar uma problematizada na violência indiscriminada contra os favelados e um debate sobre direitos humanos. Com isso não acho que esteja cobrando demais de um filme, supondo que este deveria trazer todas as 1 milhão de questões sobre segurança pública que existem, mas é que isso é muito central pra parada. Foi o ponto de partida do Freixo, aliás, que merecia um personagem à altura da sua lucidez.

    Sigo lendo tudo o que você escreve!

  2. Fico feliz com o seu comentário, porque eu acho que não consegui dizer exatamente o que queria no post, então aqui posso tentar esclarecer.

    Esse texto não era um ataque à sua opinião, se pareceu isso, mas uma reação a coisas diversas que ouvi (se peguei uma ou outra expressão q você usou como referência, foi talvez por ter sido um dos últimos textos que li antes de escrever).

    Eu sacudi a cabeça positivamente pra várias observações que você fez, porque é claro que esse não é o filme esclarecedor que vai mudar corações e mentes. O que eu acho é que, pô, isso é Tropa de Elite. É a continuação de um filme que foi considerado facista por muita gente. Ele deu um passo gigante e surpreendente numa direção muito legal. E por não deixar de ser Tropa de Elite, pelo fio condutor do filme ainda ser o violento (mas mais interessante) policial do BOPE, é que as pessoas EM GERAL vão continuar se amarrando nele, vendo e recomendando. Eu acho que eles conseguiram a medida da crítica sem deixar de ser o Tropa, que é o que fez o sucesso, que é o que atingiu.

  3. Não existiria problema nenhum em ser um ataque à minha opinião.
    Se Tropa de Elite2 segue sendo Tropa 1, não sei por que positivá-lo tanto, como andam fazendo aí.
    Esse passo gigante a que você se refere só diz respeito a uma agregação de informações (milícia articulada com Estado). Isso tudo é valoroso, mas as velhas mentalidades seguem sem levar porrada.
    O filme investe empatia em personagens que praticam tortura, de forma alguma conforntando o legado de Tropa 1. Se a gente discorda do Melo, para quem personagens são personagens e deixem eles pra lá, e se a gente entende cinema como formação de consenso – mesmo um que reafirme o que já é hegemônico – a gente vai ver que as concepções corriqueiras conservadoras seguem ilesas.
    Um filme de respeito poria em cheque, por exemplo, o absurdo que é toda operação bélica – e isso é opinião de um monte de gente que pensa segurança, e tá longe de ser síndrome de esquerda.
    Eu não posso esperar isso de um Padilha, que acha boa a política do Sérgio Cabral, além dessa coisa retrógrada de culpabilizar usuário que ele tem.
    Padilha foi tão tosco que fez chacota de um possível debate sobre direitos humanos.

  4. Se que o Padilha quis fazer chacota da questão dos direitos humanos, acho que não conseguiu. A questão aparece, ela tem uma voz no filme. Não achei que o personagem-Freixo ficou tosco, não. Não é um filme que fala da perspectiva dos direitos humanos, fala do olho de um ex-BOPE, mas essa perspectiva está lá.

    Eu acho que não tem nem que afirmar que esse filme é A PARADA REVOLUCIONÁRIA, nem que ficar cego pro valor que ele tem para o debate. Como eu falei, ele anda na corda bamba. Tanto que Marcelo Freixo e Rodrigo Pimentel aparecem em pessoa no filme. Como diria Shrek, esse filme é que nem um ogro, que é que nem uma cebola: tem camadas.

  5. Eu realmente esqueço do quanto você escreve bem.
    Tava querendo fazer mais um eco sobre o filme, mas acabei deixando passar os dias e lendo agora reviveu.
    Achei o filme puta corajoso por isso mesmo, porque fala com todo mundo – n só com as pessoas que entenderam tudo errado no primeiro, não só os intelectuais, não só os maconheiros, não só os bandidos, não só as pequenas engrenagens do grande e engolidor sistema.
    E acho melhor ainda que todo mundo esteja vendo, embora eu perceba q mta gente n está fazendo os links fraga-freixo e fulano-wagner montes/álvaro lins.

    Deu vontade de reproduzir seu post no cultbacaninha, pode?

    saudade sempre

    adorei q vc voltou à vida blogística
    bj

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