O pior machista é aquele que não quer ver?

Vou dizer pra vocês que tem uns três ou quatro rascunhos aqui de quase-voltas à ativa do blog. Vamos ver se esse vai tirar a sorte grande e receber o clique no botão “publicar”!

Eu teria falado de stress, da Cássia Eller e de outras coisas. Mas já que o destino chama, vou falar do pilar mais forte desse domínio internético (depois da poesia, quantitativamente): feminismo.

Sabe o que é? É que esse assunto nunca fica velho. Não fica, porque quando a gente perde o foco nos preconceitos de gênero, quando a gente fala de política, de futebol… lá estão os ditos cujos pra te chamar de volta à pentelha realidade. Felizmente, esses chamados serviram pra reavivar em mim (decisivamente?) a vontade de usar o blog. Nem bem vontade, aliás, mas necessidade, importância.

A blogosfera é uma coisa fascinante. Estar envolvido nela, aliás, consome mais tempo e energia do que os que estão de fora podem imaginar. Porque são milhares de pessoas com milhares de domínios fascinantes falando sobre as coisas mais interessantes do mundo (Lógico que também tem um monte de lixo, mas em geral só se “perde” tempo com o que interessa, né). E não se trata simplesmente de entretenimento. A internet é um instrumento político muito poderoso. Os críticos da tecnologia que me dêem licença (incluindo as vovós preocupadas como a minha e provavelmente a sua), mas se você não usa esse instrumento politicamente… na moral, tá ficando pra trás. Quem me fez atentar pra isso, com palavras mais eruditas e um discurso bem mais completo, foi um mexicano chamado Guillermo Orozco, numa conferência sobre Educação, Cultura e Mediações Tecnológicas. Fica o crédito e o agradecimento do nosso ressurgente blog insurgente (que ele nunca vai ver, mas tá tranquilo!).

Voltando ao assunto anunciado, vou contar uma historinha. Era uma vez um curso de História onde realiza-se um campeonato de futebol intitulado Copa Histórica Ciro Flamarion Cardoso*. Aí na edição desse ano, a comissão organizadora impediu que meninas se inscrevessem na Copinha. Aí as meninas e alguns meninos ficaram injuriados e divulgaram na internet uma reunião para debater o que poderia ser feito em relação ao assunto. Ora, pela internet o assunto se difundiu e outras meninas e al guns meninos também ficaram injuriados. E reclamaram.

Realmente, o Ciro não é muito fã das feministas.

Pois certos meninos ficaram injuriados foi com essas reclamações. Eles se sentiram acuados pelas manifestações em repúdio ao ocorrido e partiram pras justificativas: “Não sou machista…

… mas futebol é um esporte de contato, as meninas são frágeis, vão se machucar.

… concordo que as meninas devam jogar. Elas podem organizar uma Copa feminina!

… só estou alertando às meninas que a competição é séria, não é brincadeira. Elas não tem malícia suficiente para jogar futebol sério, que pode machucar.

… acho que a manifestação é válida, só acho que falar que tudo é machismo é muito anos 60!

E a melhor de todas, que merece menção honrosa:

… não estou dizendo que as mulheres são frágeis, só que é impensável nessa sociedade um homem machucar uma mulher, mesmo se for sem querer! Porque se isso acontecer, sempre há consequências!

Ahh, então é medo de ser enquadrado na Lei Maria da Penha!

Bom, contei essa historinha com fins meramente ilustrativos de algumas questões importantes. Primeiro eu pensei em dizer que o pior tipo de machista é aquele que não quer ver, tipo o ditado do cego. Mas não sei dizer se é pior isso ou bater no peito pra dizer que bate em mulher. A questão é similar àquela abordada no brilhante post da Mari, falando da galera que nega o marxismo a todo custo e consegue ser mais deplorável do que um cara que se assume orgulhosamente sua condição de direitista. O problema é que ninguém quer realmente responder àquela antiga pergunta publicitária: onde você guarda o seu preconceito?

Só que assim… preconceito não se guarda. Preconceito é necessariamente ativo, necessariamente fere. Você pode ser o cara mais legal do mundo, o mais gente boa, o mais politizado… mas foi só desviar o olhar, amigo, foi só fechar a cara que o alvo do teu preconceito sentiu. E antes fosse só isso.

Ninguém gosta de ouvir que é machista, que é racista, que é elitista… Então as pessoas tendem a ficar extremamente na defensiva. Ou então na ofensiva mesmo, achando que todo esse meu papo é muito chato, coisa de mulher mal amada, mal comida, etc. Feminista então, acho que é o treco mais chato do universo. Coisa ultrapassada! Ninguém gosta, só serve pra estragar a piada e implicar com a conversa.

Ainda assim, compensa. Eu tenho certeza que as pessoas que impediram as meninas de se inscreverem na Copinha, com as melhores das intenções do universo!, tiveram que minimamente refletir sobre o ocorrido. E isso serve. Serve inclusive pra eu voltar com esse bloguinho querido. A discussão tá rolando. Quero ver se as meninas não vão jogar essa Copinha! Ou o machismo enrustido cede, ou o machismo se proclama e aí vamos para a batalha campal! =)

Mas tem que ver essa parada aí da lei Maria da Penha…

Hahaha.

 

* Adendo: O prof. Ciro Flamarion nada tem a ver com esse episódio! Nem imaginei que meu texto poderia ter deixado essa interpretação em aberto, mas aparentemente deixou, então é importante esclarecer. A copinha é um evento informal organizado por alguns alunos da História, que deram o nome do Ciro à ela como homenagem, já que ele é o grande nome do departamento. Como marxista ferrenho, ele declarou algumas vezes que não é muito fã das teorias de gênero e do feminismo acadêmico, por isso a piadinha na legenda da foto dele.

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4 respostas em “O pior machista é aquele que não quer ver?

  1. Bem vinda de volta!
    É ruim quando a gente percebe que não há muita esperança. A minha ingenuidade acreditava que o meio universitário, onde se produz conhecimento, onde se debate ideias, não teria esse tipo de coisa. Mas é justo isso de ser o preconceito mais travestido, mas cheio de justificativas e contornos para tentar ser politicamente correto que fere.

  2. Sério isso mesmo? Que bizarro! E pensar que quando treinávamos Rugby com os All becks as meninas jogavam touch junto com os rapazes e cá entre nós, o rugby ( mesmo sendo só touch) tem MUITO MAIS contato!

    Acho que a galera foi (muito) babaca. Se o lance era organizar uma modalidade feminina da copa beleza, afinal, a pratica esportiva demanda isso, mas é a copa golzinho. Nego está se achando profissional, lá? Te garanto que eles estão é com medo de levar drible das meninas, pode apostar!

  3. O Rael argumentou comigo que os meninos ficam “meio assim” de tomar a bola de uma menina. Tipo, porque pode encostar meio mal, pegar meio pesado…

    Sinceramente, eu acho que as pessoas envolvidas na copinha tem que estar preparadas pra ter contato físico com outros seres humanos! Sem ser chegando com ódio, pra machucar, e sem ser cheio de medinhos de conotações sexuais, que podem acontecer com pessoas do mesmo sexo, inclusive.

    A capoeira também é um “esporte de contato” e homens e mulheres entram na roda. E se nego ficar de bobeira na frente de uma mulher, vai ser derrubado seriamente!

  4. Eu acho que nem tinha essa ingenuidade exatamente, mas você nunca espera que vá encontrar as coisas no nível (baixíssimo) que estão.

    Também tenho uma teoria que a faculdade de História escrotiza as pessoas, mas isso é assunto pra um outro post, quem sabe!

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