Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

Tropa de Elite 2

Vou tentar arduamente fazer com que esse post não seja repetitivo, mas não posso deixar de sistematizar aqui algumas observações sobre o Tropa de Elite 2, que tá aí no circuito batendo um monte de records de audiência do cinema nacional.

Assisti o filme ontem, ávida por uma opinião pra emitir, ávida pra ler as opiniões dos blogueiros. Acho que nunca senti isso em relação a nenhum outro filme, pelo menos não com essa intensidade. Talvez porque, diferente dos outros, Tropa de Elite 2 tem uma relevância social que não é brincadeira. Isso significa que ele suscita debate em todos os lugares sociais, diferentemente dos nossos humildes veículos comunicativos, que ninguém-sabe-ninguém-vê, a não ser nós mesmos, “intelectuais maconheiros de esquerda”, nas palavras do Nascimento.

 

Olha a gente ali atrás, na palestra do Freixo, digo, Fraga.

 

Pois bem, eu e o Tito estávamos muito empolgados, doidos pra descobrir de que lado do debate blogueiro da História UFF ficaríamos: com os prós,  Mari Bedran e Melo, ou com os contras, Wesley e Erick (leiam esses posts! meus amigos overinteligentes tem o bom hábito de escrever textos que valem muito a leitura).

Nunca uma continuação foi tão necessária quanto Tropa 2. Isso porque a polêmica que Tropa 1 suscitou em todos os níveis da sociedade precisava de uma resposta. E não importa quantas entrevistas o Padilha desse, quantos Freixos o Wagner Moura apoiasse, era preciso um outro filme. Assim, não dá pra pensar no Tropa 2 sem considerar as conseqüências do primeiro filme, cujas dimensões surpreenderam até o próprio Padilha. Muita gente disse que Tropa de Elite é um filme facista. Um professor meu chegou a dizer, inclusive, que era um filme institucional do BOPE. Seja o que for, o fato é que as lojas disponibilizaram pro último dia das crianças um caveirão de brinquedo. Se isso não te assusta, pode ir clicando no xis vermelho no topo da tela.

E aí? Como é que a gente faz com os fãs do BOPE e seus filhinhos? Como é que a gente faz com o fato de que o Wagner Montes é o deputado estadual mais votado do Rio, proclamando aos quatro ventos que vagabundo tem mais é que morrer? Ué, chama o Capitão Nascimento, porque é só ele que as pessoas escutam.  É ele que tem que mandar a letra: o culpado de tudo não é o favelado fudido; “o inimigo agora é outro”. E eis o subtítulo que anuncia uma imensa complexificação do problema, incluindo uma rica reflexão sobre o famigerado sistema, esse “mecanismo impessoal que articula interesses escrotos”.

Quanto aos críticos do filme, eu sinceramente não sei o que vocês estavam querendo. Tropa 2 anda na corda bamba entre o que se pode dizer de crítica social e os limites exigidos pela possibilidade dessa divulgação em massa que o filme tem. Pra o filme ser mais revolucionário do que é, só faltava a cena final desviar do Planalto pra focar burguesia brasileira. O filme é divulgado pel’O Globo, gente! Descendo o pau nos políticos, nos milicianos E ATÉ NA IMPRENSA, gente! Dá pra sair um minuto do plano mágico das idéias revolucionárias e perceber o que esse filme conseguiu dizer pra uma quantidade absurda de pessoas?

E fez isso com um didatismo “jornalístico”, pra citar um amigo crítico do filme. O que alguns acharam de mal gosto roteirístico é na verdade a fórmula mágica do Tropa 2. Desculpa se essa não é uma sétima arte digna dos seus diretores cults preferidos da Nouvelle Vague, mas a linguagem mordaz é a eficácia do filme. Porque é direta, é crua. E não menos inteligente por isso. O filme consegue ser coerente com o personagem condutor, Nascimento, fazendo a gente acreditar que ainda é ele, aquele filho da puta adorado pelos imbecis, e operando uma transformação delicada no seu ponto de vista. E o novo personagem, Fraga/Freixo, interpretado pelo sempre professor de História Irhandir Santos, é fundamental nisso. Amarrar os personagens numa mesma família não é mera tosquidão, faz parte do didatismo jornalístico que amarra a gente na trama, que faz a gente rir, ter medo e fazer caretas de horror.

Existe um motivo pelo qual esse filme estreou depois das eleições. Ele cutuca nervos inflamados com unhas afiadas. E o mérito dele é que não cutuca só os nossos nervos, my fellow intelectuais, não só os da classe média alienada, que insistimos tanto em fazer nosso outro, nosso oposto. Esse filme fala com todo mundo, ele tem esse alcance. Coisa que a blogosfera não tem. Coisa que a gente não tem.

O pior machista é aquele que não quer ver?

Vou dizer pra vocês que tem uns três ou quatro rascunhos aqui de quase-voltas à ativa do blog. Vamos ver se esse vai tirar a sorte grande e receber o clique no botão “publicar”!

Eu teria falado de stress, da Cássia Eller e de outras coisas. Mas já que o destino chama, vou falar do pilar mais forte desse domínio internético (depois da poesia, quantitativamente): feminismo.

Sabe o que é? É que esse assunto nunca fica velho. Não fica, porque quando a gente perde o foco nos preconceitos de gênero, quando a gente fala de política, de futebol… lá estão os ditos cujos pra te chamar de volta à pentelha realidade. Felizmente, esses chamados serviram pra reavivar em mim (decisivamente?) a vontade de usar o blog. Nem bem vontade, aliás, mas necessidade, importância.

A blogosfera é uma coisa fascinante. Estar envolvido nela, aliás, consome mais tempo e energia do que os que estão de fora podem imaginar. Porque são milhares de pessoas com milhares de domínios fascinantes falando sobre as coisas mais interessantes do mundo (Lógico que também tem um monte de lixo, mas em geral só se “perde” tempo com o que interessa, né). E não se trata simplesmente de entretenimento. A internet é um instrumento político muito poderoso. Os críticos da tecnologia que me dêem licença (incluindo as vovós preocupadas como a minha e provavelmente a sua), mas se você não usa esse instrumento politicamente… na moral, tá ficando pra trás. Quem me fez atentar pra isso, com palavras mais eruditas e um discurso bem mais completo, foi um mexicano chamado Guillermo Orozco, numa conferência sobre Educação, Cultura e Mediações Tecnológicas. Fica o crédito e o agradecimento do nosso ressurgente blog insurgente (que ele nunca vai ver, mas tá tranquilo!).

Voltando ao assunto anunciado, vou contar uma historinha. Era uma vez um curso de História onde realiza-se um campeonato de futebol intitulado Copa Histórica Ciro Flamarion Cardoso*. Aí na edição desse ano, a comissão organizadora impediu que meninas se inscrevessem na Copinha. Aí as meninas e alguns meninos ficaram injuriados e divulgaram na internet uma reunião para debater o que poderia ser feito em relação ao assunto. Ora, pela internet o assunto se difundiu e outras meninas e al guns meninos também ficaram injuriados. E reclamaram.

Realmente, o Ciro não é muito fã das feministas.

Pois certos meninos ficaram injuriados foi com essas reclamações. Eles se sentiram acuados pelas manifestações em repúdio ao ocorrido e partiram pras justificativas: “Não sou machista…

… mas futebol é um esporte de contato, as meninas são frágeis, vão se machucar.

… concordo que as meninas devam jogar. Elas podem organizar uma Copa feminina!

… só estou alertando às meninas que a competição é séria, não é brincadeira. Elas não tem malícia suficiente para jogar futebol sério, que pode machucar.

… acho que a manifestação é válida, só acho que falar que tudo é machismo é muito anos 60!

E a melhor de todas, que merece menção honrosa:

… não estou dizendo que as mulheres são frágeis, só que é impensável nessa sociedade um homem machucar uma mulher, mesmo se for sem querer! Porque se isso acontecer, sempre há consequências!

Ahh, então é medo de ser enquadrado na Lei Maria da Penha!

Bom, contei essa historinha com fins meramente ilustrativos de algumas questões importantes. Primeiro eu pensei em dizer que o pior tipo de machista é aquele que não quer ver, tipo o ditado do cego. Mas não sei dizer se é pior isso ou bater no peito pra dizer que bate em mulher. A questão é similar àquela abordada no brilhante post da Mari, falando da galera que nega o marxismo a todo custo e consegue ser mais deplorável do que um cara que se assume orgulhosamente sua condição de direitista. O problema é que ninguém quer realmente responder àquela antiga pergunta publicitária: onde você guarda o seu preconceito?

Só que assim… preconceito não se guarda. Preconceito é necessariamente ativo, necessariamente fere. Você pode ser o cara mais legal do mundo, o mais gente boa, o mais politizado… mas foi só desviar o olhar, amigo, foi só fechar a cara que o alvo do teu preconceito sentiu. E antes fosse só isso.

Ninguém gosta de ouvir que é machista, que é racista, que é elitista… Então as pessoas tendem a ficar extremamente na defensiva. Ou então na ofensiva mesmo, achando que todo esse meu papo é muito chato, coisa de mulher mal amada, mal comida, etc. Feminista então, acho que é o treco mais chato do universo. Coisa ultrapassada! Ninguém gosta, só serve pra estragar a piada e implicar com a conversa.

Ainda assim, compensa. Eu tenho certeza que as pessoas que impediram as meninas de se inscreverem na Copinha, com as melhores das intenções do universo!, tiveram que minimamente refletir sobre o ocorrido. E isso serve. Serve inclusive pra eu voltar com esse bloguinho querido. A discussão tá rolando. Quero ver se as meninas não vão jogar essa Copinha! Ou o machismo enrustido cede, ou o machismo se proclama e aí vamos para a batalha campal! =)

Mas tem que ver essa parada aí da lei Maria da Penha…

Hahaha.

 

* Adendo: O prof. Ciro Flamarion nada tem a ver com esse episódio! Nem imaginei que meu texto poderia ter deixado essa interpretação em aberto, mas aparentemente deixou, então é importante esclarecer. A copinha é um evento informal organizado por alguns alunos da História, que deram o nome do Ciro à ela como homenagem, já que ele é o grande nome do departamento. Como marxista ferrenho, ele declarou algumas vezes que não é muito fã das teorias de gênero e do feminismo acadêmico, por isso a piadinha na legenda da foto dele.