A culpa é de quem?

Ontem o Rio de Janeiro sofreu sua pior tempestade dos últimos 44 anos. Na verdade parece ter sido pior que a de 1966, mas acho que os jornalistas não encontraram em seus arquivos milimetragens anteriores e a comparação ficou nisso mesmo. A mídia, como de costume, se banqueteou em tragédias e declarações infames de autoridades. Hoje a cidade acordou totalmente devastada, física e emocionalmente. Foram 100 mortos. Mas se há uma brecha azul no céu, não há tempo a perder: os trabalhadores já correm atrás da produtividade perdida.

O dia seguinte me assusta, talvez até mais do que a ininterrupta chuva torrencial e os ventos uivantes que mal nos deixaram dormir. O medo está calcado nas declarações de prefeitos, governador e presidente da república, que parecem aproveitar a calamidade pra pavimentar e fortalecer um grande projeto de remoções de moradores de favelas.

As remoções não são idéia nova. Falar dela lembra a muitos de décadas passadas, depoimentos de pessoas idosas, sofrimentos antigos. Acontece que a questão não é tão essa: as remoções não são coisa antiga. Elas estão mais presentes do que nunca e parecem ganhar cada dia mais força nos governos atuais.

Ontem ouviu-se repetidamente o seguinte diagnóstico: a culpa das mortes dos moradores de áreas de riscos, que foram maioria dentre os números gerais, é da insistência destes nas ocupações irregulares. Isso mesmo: a culpa dos mortos é deles mesmos. É fruto da ignorância desses pobres que não arredam o pé dos seus casebres caindo aos pedaços. Cabral só falava nisso. E jogava a responsabilidade para Paes, oferecendo toda a ajuda do governo do estado para resolver essa situação. O próprio Lula ontem comentou que já tinha tentado pessoalmente remover moradores de áreas de risco e, não adianta, eles não querem por nada sair de lá!

Não é um projeto de urbanização massivo nas favelas, não é infra-estrutura, não é planejamento urbano, não é nada disso: tem que “controlar as ocupações irregulares”, tem que “remover os moradores”. Enfim, tem mais é que acabar com as favelas. Principalmente quando elas fizerem os desfavor de se enfiarem em áreas de alta especulação imobiliária, como a Rocinha e o Santa Marta.

As autoridades estão cimentando seu discurso facista com as mortes de ontem. E esse discurso encontra cada vez mais eco na mídia e na cabeça dos eleitores. Como será o amanhã? Que recuperação da cidade será essa? O Rio de Janeiro pra Comitê Olímpico ver? Veremos o resultado após os comerciais. Plim-plim.

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