Nota de esclarecimento dos moradores de favelas de Niterói

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.  A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas.  As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.

Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor. Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas.

Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.

Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói

Associação de Moradores do Morro do Estado

Associação de Moradores do Morro da Chácara

SINDSPREV/RJ

SEPE – Niterói

SINTUFF

DCE-UFF

Mandato do vereador Renatinho (PSOL)

Mandato do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL)

Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK)

Movimento Direito pra Quem

Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares

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OBS: Esse texto foi elaborado pelos coletivos que compõem o Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói e eu estou apenas divulgando-o.

A culpa é de quem?

Ontem o Rio de Janeiro sofreu sua pior tempestade dos últimos 44 anos. Na verdade parece ter sido pior que a de 1966, mas acho que os jornalistas não encontraram em seus arquivos milimetragens anteriores e a comparação ficou nisso mesmo. A mídia, como de costume, se banqueteou em tragédias e declarações infames de autoridades. Hoje a cidade acordou totalmente devastada, física e emocionalmente. Foram 100 mortos. Mas se há uma brecha azul no céu, não há tempo a perder: os trabalhadores já correm atrás da produtividade perdida.

O dia seguinte me assusta, talvez até mais do que a ininterrupta chuva torrencial e os ventos uivantes que mal nos deixaram dormir. O medo está calcado nas declarações de prefeitos, governador e presidente da república, que parecem aproveitar a calamidade pra pavimentar e fortalecer um grande projeto de remoções de moradores de favelas.

As remoções não são idéia nova. Falar dela lembra a muitos de décadas passadas, depoimentos de pessoas idosas, sofrimentos antigos. Acontece que a questão não é tão essa: as remoções não são coisa antiga. Elas estão mais presentes do que nunca e parecem ganhar cada dia mais força nos governos atuais.

Ontem ouviu-se repetidamente o seguinte diagnóstico: a culpa das mortes dos moradores de áreas de riscos, que foram maioria dentre os números gerais, é da insistência destes nas ocupações irregulares. Isso mesmo: a culpa dos mortos é deles mesmos. É fruto da ignorância desses pobres que não arredam o pé dos seus casebres caindo aos pedaços. Cabral só falava nisso. E jogava a responsabilidade para Paes, oferecendo toda a ajuda do governo do estado para resolver essa situação. O próprio Lula ontem comentou que já tinha tentado pessoalmente remover moradores de áreas de risco e, não adianta, eles não querem por nada sair de lá!

Não é um projeto de urbanização massivo nas favelas, não é infra-estrutura, não é planejamento urbano, não é nada disso: tem que “controlar as ocupações irregulares”, tem que “remover os moradores”. Enfim, tem mais é que acabar com as favelas. Principalmente quando elas fizerem os desfavor de se enfiarem em áreas de alta especulação imobiliária, como a Rocinha e o Santa Marta.

As autoridades estão cimentando seu discurso facista com as mortes de ontem. E esse discurso encontra cada vez mais eco na mídia e na cabeça dos eleitores. Como será o amanhã? Que recuperação da cidade será essa? O Rio de Janeiro pra Comitê Olímpico ver? Veremos o resultado após os comerciais. Plim-plim.