Réquiem para o meu Haiti.

No começo de 2008, quando eu estava no terceiro período da faculdade, cursei uma disciplina chamada História da América II, que cobre mais ou menos o século XIX. Apesar de não ter simpatizado nada com o professor, ele propôs uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer: um trabalho de final de curso com tema em aberto (dentro de algumas condições, naturalmente). Não sei porque cargas d’água eu quis estudar o Haiti. Foi uma coisa quase burra, considerando que temas em aberto sempre nos puxam pra assuntos mais fáceis de se trabalhar, pra garantir aquela nota boa sem tanto esforço. Mas eu insisti em estudar o Haiti e acabei convencendo meus amigos do grupo de ficar com esse tema. Me lembro de justificar a minha escolha com um motivo bem direto: eu não sabia NADA sobre o Haiti e queria começar a saber.

Considerei mudar de tema algumas vezes quando me deparava com a dificuldade enorme de achar bibliografia. Não tinha nada. Muitas referências sobre a primeira independência da América Latina, sobre a revolução negra, essa coisa toda linda, mas nada depois disso. Eu até brincava com os meus amigos, assim era a história do Haiti: os franceses chegaram, exploraram, teve a independência e daí teve um buraco negro histórico até a chegada tropas brasileiras lá. No fim das contas, achamos uma coisa aqui outra ali e conseguimos nos virar pra apresentar o trabalho.

Sem mais delongas chatas sobre as aventuras de um trabalho universitário, chegamos no meu Haiti. Começar a conhecer o Haiti me deixou um pouco de orgulho pela vontade que veio não sei de onde, mas também um gosto amargo. Isso porque a história do Haiti é absolutamente triste. Não é uma história deprimente feito ado Brasil… é a história de uma nação que nunca chegou a ser. Eu folheava os livros e cada página era uma derrota do povo. Foram séculos de uma exploração brutal do trabalho dos negros pelos franceses. A história linda da revolução negra que culminou na independência do país, eu descobri ser só o início da formação de uma nova elite mulata que continuaria a explorar brutalmente a maioria de camponeses negros entre indas e vindas políticas. Liberdade, no Haiti, era o privilégio de trabalhar pra si mesmo, de ser seu próprio senhor. Só que a falta total de condições de plantio criou de fato uma agricultura de miséria, menos produtiva do que a de subsistência. Ocupação americana, ditadores… derrotas, derrotas, derrotas. Foi esse o Haiti que os livros mostraram pra mim. Por sorte, pro meu alívio, também conheci um pouco um Haiti fortemente religioso, fortemente cultural. Como são pobres os imbecis que culpam o Vodu pelo terremoto…

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É mais ou menos comum assistirmos desastres naturais ou “artificiais” nos meios de comunicação de massa. Acabamos ficando anestesiados, treinados pra sentir senão nenhuma comoção, ao menos uma bem rápida que não impeça que possamos dar audiência pra novela que se segue à notícia. “Que horror…” e toma-lhe Big Brother. Só que dessa vez o encanto falhou. Toda vez que eu ouço falar sobre o que aconteceu no Haiti, o meu coração aperta muito. Isso nunca tinha acontecido antes. Nem no Tsunami, nem no Katrina, nem nunca. O aquecimento global então é uma grande piada.

O terremoto no Haiti destruiu um país em migalhas. Parece que Deus olhou pra baixou e ficou tão deprimido com a sucessão de derrotas, tristezas e desumanidades que resolveu acabar com tudo de uma vez. Da forma mais cruel possível, aparentemente. Eu penso no Haiti e me dá vontade de fechar as cortinas. Chega, acabou, já deu. As pessoas PRECISAM parar de sofrer. É muito, é muito pesado demais, é anti-humano, é absurdo.  Aquelas pessoas merecem menos do que qualquer um (sob hipótese de que alguém merecesse) ficar presas sob escombros, vivas, durante uma semana.  Elas não merecem sofrer MAIS. Não dá, cara, eu não consigo.

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Esse é o meu Haiti. Foi o que eu li nos livros há poucos anos atrás, terminando meu trabalho com a deprimente conclusão do autor do livro sobre o Haiti da série princípios: “nem africano, nem americano, profundamente caribenho, o Haiti ainda é somente um país, não é uma nação” (M.N. Grondin, em Haiti: Cultura, poder e desenvolvimento, 1985). Eu não faço idéia de como é o Haiti de fato, o verdadeiro Haiti, o Haiti que está lá, sob destroços. Mas de alguma forma, os dois foram esmagados feito formiguinhas pelos dedos de um deus cruel.

O que será de lá agora? É impossível imaginar. Só posso pensar no Haiti, rezar pelo Haiti.