Anticristo (Lars Von Trier): O elogio da misoginia.

Não quero nem saber do que as mais elaboradas críticas de cinema anticristo_poster-360x490advogam: Anticristo é um filme misógino. Se o filme é um produto artístico que resulta dos pesadelos mais profundos do maluco do Lars von Trier, se tem uma fotografia linda e uma trilha erudita, continuo sem querer saber. Na linha fundamental do filme está escrito: “mulher é um bicho do demônio!”.

Mas vamos por partes, como Jack (já que vi esse filme motivada por uma tradição de Halloween que cultivo com a Larissa desde a sexta série). Eu tenho uma implicância com o que podemos chamar hoje de cinema cult. E não tô falando dos filmes que passam no grupo Estação nem nada, mas de filmes que são catalogados Dogvillepor diretor, e não por ordem alfabética, por exemplo. Eu não entendo mais de cinema do que as pessoas normais; eu assisto filmes e penso sobre eles. Mas nunca vi um filme de Truffaut, Bergman, Godard e nem sei o que significa o von Trier ter dedicado Anticristo ao Tarkovski. E não é simples ignorância minha, é só que eu imagino que esses filmes devam ser chatinhos, hehe. Ok, me batam Taíses, Felipes e Carols da vida. Mas a questão é que, pelo que vi de von Trier – Dançandomanderlay no Escuro, Dogville e Manderlay -, não posso negar que o cara tem um olhar único pro cinematógrafo. A proposta de um cinema mais realista está presente até nesse novo filme cheio de guéri-guéri, num momento em que a câmera parada, no nível do chão, capta um choro copioso, de um jeito que qualquer ser humano cujo coração pulse consegue se identificar de cara.

Lars von Trdancerier também é conhecido por ser absolutamente pancada da cabeça, enlouquecendo todas as protagonistas dos seus filmes de tanto encher o saco delas (o que, aliás, nos privou de ver qualquer atuação no cinema da Björk depois de Dancer in the Dark). Tá bom, meu filho, seja artístico, seja doido, faça o que bem entender. Mas daí a fazer 1h44min de elogio à misoginia, aí complica.

Lars parece juntar na sua protagonista os principais estereótipos do ideário misógino da história ocidental (ou oriental também, sei lá). A mulher é absolutamente irracional, emocional, sexual, dissimulada e, acima de tudo, perigosa. Ah, e o melhor! O título anticristo não é à toa; a bicha (bicha, sim, de animal fêmea) tá assim-assim com o demônio! A construção do discurso radicalmente misógino fica bastanteanti didática no filme, por causa do personagem masculino, um psicólogo comportamental (maiores esclarecimentos quando a Larissa quiser comentar sobre o post) que vai explicando ao expectador como funciona aquele animal perigoso e lascivo que é a mulher, de etapa em etapa.

A velha dicotomia Natureza x Cultura também está presente, é claro. A mulher é tão louca, feiticeira e desvairada, que chega a praticamente copular com a Natureza, selvagem e avassaladora, como tem que ser. Em contraposição à ela, o homem, racional, cultural e, acima de tudo, at2domador da natureza, tenta, na maior benevolência da história do cinema, concertar aquela árvore torta. Aliás, em dado momento do filme, o homem se torna o clássico mocinho dos thriller, daquele estilo que a platéia grita “corre, corre, o monstro tá vindo!”, e torce muito pra ele escapar vivo.

Concluir meu comentário é complicado, já que não posso contar o fim do filme. O que eu sei é que é definitivamente pesado abordar o femicídio da forma como Lars o fez. E, amigos, por favos, não se enganem. Esse filme não é uma belíssima obra sobre a crueldade necessária da natureza humana. O mérito de Lars talvez é deixar bem claro o que ele pensa de nós, nas profundezas da cabeça maluca dele. O que o filme emoldura é a crueldade necessária da natureza feminina, que urge por ser controlada, domesticada, enquadrada, subjugada. Ah, faça-me o favor. That is soooo XVI century!

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13 respostas em “Anticristo (Lars Von Trier): O elogio da misoginia.

  1. Ah, nem vou te socar. O monte de filme cult é mesmo um pouco chato (te dizer que eu durmi bonito vendo “A Doce Vida”). Mas assisti “Os Incompreendidos” do Truffaut, po, não tem como chamar aquele filme de chato, serião.

    E confesso que não saco nada do Lars Von Trier e não gosto muito do “Dançando no Escuro”, pronto, agora quem vai apanhar sou eu.

  2. É, eu gosto muito do Dançando no escuro por causa dessa capacidade do Lars de meio que manipular as emoções de quem assiste. Ele engaja a gente emocionalmente, mesmo que às vezes contra a nossa vontade. Eu chorei loucamente de cabo a rabo no Dançando no Escuro, sem entender muito bem porque. E nesse Anticristo eu também me envolvi emocionalmente, de outro jeito, mesmo reprovando totalmente o conteúdo do filme, e tive alguma dificuldade de dormir depois, hahaha.

  3. O homem seria o normal, e a mulher o exótico, também, né? O incompreensível, o incalculável, aquilo que foge às explicações naturais.

    Sei lá, difícil falar sem ter visto o filme. Mas pelas imagens e pelas entrelinhas, talvez tenha um pouco disto também.

    Bueno texto. (só faltou a cara do tal do Lars ai)

  4. “Lars von Trdancerier também é conhecido por ser absolutamente pancada da cabeça, enlouquecendo todas as protagonistas dos seus filmes de tanto encher o saco delas (o que, aliás, nos privou de ver qualquer atuação no cinema da Björk depois de Dancer in the Dark). Tá bom, meu filho, seja artístico, seja doido, faça o que bem entender. Mas daí a fazer 1h44min de elogio à misoginia, aí complica.”

    Sabe que até hoje eu fico tenso ao lembrar deste filme? Eu fiquei muito triste naquela noite. E olha que tinha alugado outros fiolmes bem legais. Só de pensar nesta maldita película musical ( sim UM MUSICAL me deixou assim!) eu fico arrepiado.

    Ainda me pergunto por que diabos as pessoas gostam de filmes assim. Critério artístico? Não sei mesmo. Eu fiquei muito triste. Tenso e transtornado como quando assisti ensaio sobre a cegueira. Não sei é por não conseguir me sentir seguro ao ver filmes em que não existe a possibilidade de eu me agarrar a análise social e histórica, mas este fator aliado das malditas formas de que um roteirista pode fazer para te deixar triste me consome!

    ¬¬

    Medéia! (de Pasolini) Sacrifica-me!

  5. Bárbara, encontrei esse seu post pelo Google procurando informações sobre o filme e agora, depois de assistir, eu meio que tinha que voltar e comentar.

    Já vou adiantar que discordo dessa acusação de misoginia. Eu já sabia que o filme tinha sido rotulado desse jeito e me perguntei várias vezes o motivo. Eu entendo seu ponto de vista e acho sua argumentação bem coerente, mas acho a personagem “Ela” bem mais complexa do que uma louca feiticeira desvairada que está “assim-assim” com o diabo.

    Só a questão da culpa e do prazer (Ela se culpa pela morte do filho, por ter, a seu ver, negligenciado o filho durante o fatídico coito no começo do filme), a ligação entre a mãe e o filho, a relação entre paranóia, medo e realidade, é uma verdadeira salada de emoções e pesares que, a meu ver, tornam a personagem tão rica, acaba dando até um contraste com Ele, todo racional, fala, mesmo com todo seu conhecimento científico não consegue evitar a decadência da mulher. Vai falar que ele não é retratado como um bobão em vários momentos?

    Adorei a arte do filme, apesar de achar o ritmo meio maçante, mas não consigo concordar com a acusação de misoginia. Aliás, acho bem mais fácil ver a mulher como uma heroína trágica que é levada à ruína. Pode ser que eu esteja querendo acreditar demais, forçando a barra, mas conhecendo o pouco que eu conheço do von Trier e do seu trabalho (e vale notar que as personagens femininas nos filmes dele oscilam entre mártires, heroínas e incompreendidas), a idéia de um filme misógino me parece meio rasa e precipitada.

    Ok, acho que vou apanhar agora, mas só queria compartilhar minha opinião. Acho que a discussão é sempre válida, principalmente se for pra que me provem o contrário! (:

    PS: Dançando no Escuro é meu filme favorito, e minha melhor amiga é uma feminista ardorosa, por favor, leve isso em consideração! hehehe

  6. Adorei o comentário, André, e, portanto, você não vai apanhar! =)

    Talvez eu tenha sido um pouco reducionista no post; o filme era realmente denso e complexo de analisar. Mas reafirmo que a minha impressão do filme (e não o que ele é ou deixa de ser “realmente”) é essa. No post eu posso ter sido muito estressadinha, mas voltando a ele com mais calma, acho que o Lars me deus ótimos motivos pra pensar o que eu penso.

    Ele trabalha com o tema da misoginia no filme, isso é um fato. E a leitura imediata que se faz da personagem feminina se liga imediatamente com isso. O fato de haver uma ligação entre mãe e filho, o sentimento de culpa por ter sido relapsa (tanto quanto o pai foi), isso tudo que você diz que tornam a personagem rica, são fatores que revelam uma determinada concepção do que a mulher é, que eu acho muito complicada. Reprodução e maternidade, que, quando comprometidas, deixam-na completamente fora de si.

    Enfim, n vou me estender mt por aqui, pq só ia suavizar coisas que já deixei bem explícito (e estressadinho) no post.

    Mas obrigada pelo comentário, sua interpretação me fez repensar algumas coisas sim.

  7. Acho que o tema é trabalhado sim, mas não creio que a intenção dele é afirmar isso. Pelo contrário: creio que é criticar, assim como apareceu em Dogville, maravilhosamente bem com a Nic Kidman.
    Eu achei o filme muito forte e com referências claras a Freud, que apesar de ser generalista, não posso jamais ousar dizer que o que ele disse não tem fundamento para algumas pessoas, e muitas por sinal.

    Podemos levar o filme numa reflexão exatamente sobre isso, não?
    😉

  8. Não querem minha opinião né? Resumindo, esse filme é um lixo!

  9. Vocês apenas esqueceram de levar em conta que tudo o que se passa nesse filme é um pesadelo. Na verdade, a mulher só é retratada da forma como vc descreveu porque esse é um pesadelo do cara. Nem sempre podemos confiar nos narradores. Ele enganou vcs direitinho!! O filme é excelente:)

  10. Barbara, não sei se você sabe, mas Dançando no Escuro foi praticamente inteiro dirigido pela Bjork, o Lars ficou putíssimo. Taí a razão de ser o único bom (realmente bom) filme dele. :p

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