Usos freireanos (e umas dicas de livros)

Hoje é dia do professor! Graças a deus tá sol e o pessoal pode descansar feliz na praia, alunos e professores cansadinhos. Como eu só falo de professor e educação nesse blog, uso a desculpa “não poderia deixar de mencionar esta data!” pra ver se tomo vergonha na cara e atualizo isso aqui. Não sei, o wordpress com toda a sua praticidade e beleza me quebrou o costume de postar com alguma regularidade, mas vou ver se volto a pensar nisso como antes. Enfim: bom descanso pros professores, que é o que esse dia realmente é. Espero que recebam os devidos carinho e reconhecimento pelo menos hoje, já que nos outros 364 dias do ano tem gente recebendo 540 reais por mês no estado do Rio pra trabalhar feito um condenado em condições aviltantes, isso quando o salário não atrasa. As minhas saudações solidárias a quem não deixa a peteca cair e continua acreditando na construção de saberes conjunta e na reflexão crítica em sala de aula.

Obviamente eu tô me referenciando no maior educador brasileiro, no mais incrível, mais inteligente, não é um pássaro, não é um avião… dã, pauloé o Paulo Freire. Tem umas coisas que parece que a gente já nasceu sabendo. Eu não me lembro em que momento ouvi esse nome pela primeira vez, de quando associei o nome à pessoa e à obra. Parece que eu sempre soube que Paulo Freire foi um educador crítico brasileiro, vários livros, várias Pedagogia do(a) __. Paulo Freire é uma unanimidade na sociedade brasileira, ou melhor, é um consenso. Eu fico imaginando que nos gabinetes de professores das faculdades de Educação do país inteiro está lá, uma fotinho dele, uma citação dele pregada no mural, um livrinho, alguma coisa. Consenso e onipresente. Tô falando besteira, tá? Tô falando de uma impressão.

Maneiro. Todo mundo ama o Paulo. Todo mundo lê os livros deles, todo mundo acha que ele é demais. O primeiro livro dele que eu li foi o Pedagogia da Autonomia, pequenininho e baratinho, super fácil de achar. Um livro primário, meus professores todos devem ter lido na graduação. “O clima de respeito que npedagogia da autonomiaasce das relações justas, sérias, humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades dos alunos se assumem eticamente, autentica o caráter formador do espaço pedagógico” – ahm… não, é absolutamente impossível que certos professores meus tenham lido isso. Não leram! Se leram, riram, viraram a página, fecharam o livro, jogaram no lixo. E eu não estou falando de professores exautos com as péssimas condições de trabalho a que são submetidos, a quem não se pode culpar pela falta de vigor nas aulas. Tô falando de galera com doutorado, professor de faculdade, cheio de “flozô”, como diria minha avó.

O segundo livro que li foi Educação como prática de liberdade. educaEsse livro é lindo. E tem uma questão interessante pelo contexto histórico em que foi escrito – o Francisco Weffort (que escreve uma introdução maravilhosa) e o Paulo estão animadíssimos, em plena luta contra a ditadura. “O mundo não está, o mundo está sendo”; um contexto de mudanças profundas estava armado. Esse livro eu li por indicação de um professor meu, também com pós-doc, mas não tão afetado pelo “flozô”, hehe.

Agora eu tô lendo Medo e Ousadia: o cotidiano do professor, graças ao meu amigo Adolpho (valeu, Adolpho!). Me identifiquei com o título de primeira, hehehe, já que medo não me falta, mas também não falta vontade. Esse livro é mais recente, mas também é muito interessante. Ele é de 1986, mas têm um formato inovador: é a transcrição de um diálogo entre o Paulo e omedoeousadia Ira Shor, um professor universitário norte-americano mais novinho que ele, mas muito preocupado com as reivindicações contra a desigualdade que estavam em alta nesse momento (e ainda estão) – gênero, raça, cultura. É muito legal mesmo, leve de ler por ser uma conversa, mas muito inteligente e bem feito. Também é um livro lindo, cheio de questões práticas, mas também cheio de teor ideológico, revolucionário. “O sonho é um sonho possível ou não? Se é menos possível, trata-se, para nós, de saber como torná-lo mais possível”.

Mas, depois das dicas, volto à questão dos usos. É lógico que os usos de Paulo Freire não se restringem aos professores que professam, mas o desconsideram na prática. Tem um número enorme de professores competentes que fazem usos inteligentes dele, com leituras diferenciadas, mas úteis, críticas também. O que me incomoda muito é que, sob esse falso consenso, há usos muito esquisitos do Paulo. Uma coisa é ler criticamente, outra coisa é distorcer. E outra coisa muito pior é colar uma fotinho do paulo no mural e fazer as maiores atrocidades na prática docente. Como isso é comum! De todo modo, acho que até os mais atrozes não escapam de ler a frasesinha no mural e, quem sabe, refletir minimamente sobre ela. Pelo menos isso.

“O meu discurso sobre a Teoria deve ser o exemplo concreto, prático, da teoria. Ao falar da construção do conhecimento, criticando sua extensão, já devo estar envolvido nela, e nela, a construção, estar envolvendo os alunos”

Paulo_Freirecaricatura

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3 respostas em “Usos freireanos (e umas dicas de livros)

  1. Dei aula também, eeee. Substitui o Guilherme. Durante foi muito legal, mas depois que saí de lá, um dia chuvoso, voltei pra casa com um clima estranho. Um clima de que vai ser duro e dificil.

    Vi o filme do Apolonio de Carvalho e é tão lindo, você precisa ver. Vale a pena sonhar, o nome. Copiei pra mim, se você quiser.

    E se ainda puder ser minha amiga com seus horarios loucos (ê saudade) a gente pode ver junto, eu vejo de novo e choro de novo, uhull! \o/

    Te amo. Beijos, Bárbara. =)

    Obs: Ah! Terminei o livro do Drummond. Até escrevi sobre, depois te mostro, hehe. Talvez eu precise dele pro meu trabalho final la da matéria de quinta. Você deixa comigo por enquanto?

  2. Pô, bocó! Vamos dar um jeito sim. Vamo assistir esse filme bolado aí! Tem mais alguns feriados adiante… a gente se fala! Pode ficar com o livro o tempo que precisar.

  3. “Antes de mais nada, reconhecemos que é normal sentir medo. Sentir medo é uma manifestação de que estamos vivos. (…) Mas o que não posso permitir é que meu medo seja injustificado, e que me imobilize. Se estou seguro do meu sonho político, então uma das condições para continuar a ter esse sonho é não me imobilizar enquanto caminho para sua realização.” É simples, e é um livro lindo mesmo.

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