Fim do lero-lero: dei aula.

Mudança é aquele negócio: você passa dias tirando caixa de uma casa pra levar pra outra e no final não tá com mais nenhuma vontade de abrir nenhuma, de arrumar nada. Eu deixei as caixas fechadas aqui no blog e fiquei com uma certa preguiça de voltar – a verdade é que eu meio que esqueci, hehe. Que se abra a primeira caixa! Vejamos o que tem dentro.

Parece que ultimamente a vibe de ser professora tem estado em pico dentro de mim. Sabe quando o futuro parece a dois passos de distância? Tenho mais que pensado sobre isso, tenho sentido, tenho me preparado. Outra coisa que vem se delineando é o meu possível tema de monografia. Ontem escrevi um email pedindo bibliografia a um professor e mó simpatizei com ele (com o tema, não com o professor)! Mas minha vó diz que certas coisas é melhor não falar antes que esteja certo. Beleza então, vó.

Acontece que dei minhas primeiras aulas para mais que uma pessoa ao mesmo tempo. Na verdade, pra duas turmas de mais ou menos 30 pessoas. Turmas de licenciatura da UFF, curso de Didática. Eu deveria falar sobre ensino das chamadas relações étnico-raciais na escola, leis, livros didáticos. Sei que no fim da última aula uma das últimas palavras pronunciadas foi “utopia”. E nem fui eu que falei. Vamos lá.

Quinta feira passada foi o primeiro dia. Eu fiquei tão enjoada de nervoso que não comi nada o dia inteiro. Nunca tinha pensado nos efeitos biológicos de dar aula; já tinha pensado que eu ia chorar, me descabelar, etc., mas não que ia passar mal. Mas isso é mais pro fim da história. Cheguei na sala e a professora estava lá, me apresentou e foi embora. Ficamos eu e um monte de gente que, se não da minha idade, mais velhos que eu. Puxei de primeira meu trunfo: “Gente… eu tô muito nervosa. Então sejam compreensivos, tá?”, acho que funcionou. A conversa fluiu e as pessoas participaram. Foi bem legal, saí de lá feliz. Só uma reclamaçãozinha de uma menina quando pedi que lessem um texto pra próxima aula: “SEIS páááginas???”. Mas ela era de matemática, e nem pareceu gostar muito de mim. Relevei.

No mesmo dia, a segunda turma. Enquanto a primeira tinha uma maioria de pessoas de história, a segunda se dividia entre pessoal de matemática e de biologia, mais três meninas da psicologia e uma de enfermagem. E a despeito da minha solidão de área ali, essa turma foi absolutamente fantástica! A ponto de o debate se acalorar tanto que eu tive que pedir encarecidamente que voltássemos ao foco, já que eu falo baixo, estava nervosa e não tinha como competir com eles, hehe. Mas foi muito irado.

Terça feira: segunda aula. Como minha experiência de aluna me avisou que por motivos quaisquer quase ninguém teria lido o texto que pedi, resolvi passar alguns trechos do meu querido Escritores da Liberdade, que poderiam suscitar discussões importantes relacionadas as relações culturais na escola. Minha idéia original era lermos as diretrizes curriculares nacionais (insira aqui o comprido nome do documento) e debatermos, mas isso acabou não rolando. Aliás, acho que um post sobre essa história toda pode ser uma boa. Digam o que acham, por favor.

A primeira turma foi mais complicada nesse dia. Eu continuava nervosa e, como a turma é grande e a rotatividade também, muita gente que não havia ido na primeira aula foi na segunda, assim como muita gente que foi na primeira não apareceu nessa. Aí ficou aquela coisa, todo mundo meio quieto, meio sem saber qual era a minha, etc. Falei um pouco, passei os trechos do filme, propus o debate. Silêncio. Tentei argumentar sobre a importância do assunto, sobre como não costumamos discuti-lo em sala… Silêncio. Apelei pra novos argumentos: a professora não está aqui, temos a oportunidade de discutir o que julgarmos interessante. Se minha proposta não foi interessante, que conversássemos outras coisas! Mas era legal aproveitar o espaço. Nessa hora, diante do meu desespero/silêncio constrangedor, algumas pessoas começaram a falar. Deu um debatezinho, mas uma parte da turma estava quieta ou dispersa. Num dos meus silêncios, a menina da matemática que reclamou das seis folhas me pergunta: “já acabou?” com algum desdém. “Não, não acabei”. “Não vai ter chamada?!” – tomei esse direto. Sofri o golpe do vai-ter-chamada! Que vacilo, mané. Essa pergunta é mais cruel do que se imagina. “Não, não vai ter chamada… vou dar presença pra todo mundo, quem quiser pode ir embora”. Eles sugeriram que eu passasse mais um pouco do filme, e foi o que fiz. Acho que a menina da matemática ficou meio constrangida e ficou na aula até o fim. Saí meio desanimada de lá.

No intervalo entre as aulas, fui ler um texto no C.A. de história. O pessoal resolver pintar as paredes com várias zoações. Notei que nenhuma pichação era uma citação revolucionária, como costumam ser as de paredes de centros acadêmicos e de grêmios. Zoaram até o pôster do Che. A pós-modernidade naquilo me desanimou, talvez porque eu já estivesse num clima meio acinzentado.

Fui pra segunda turma. Cara, como eles são bacanas! Sorte a minha. Como eu já esperava, o debate comeu solto. Chegava às FARC e eu tinha que puxar de volta. Chegava ao Che e eu tinha que retomar o foco. Santa turma de biologia! hehehe. O debate ficou mais centrado no papel do professor na transformação social, enquanto o tema do racismo ficou sendo transversal. Mas foi bom, foi ótimo. No fim da aula, uma menina muito inteligente e simpática (falha minha não lembrar o nome dela) me perguntou até que ponto o professor é responsável por mudar a realidade dos alunos. Ela disse isso com uma preocupação genuína, argumentando que acha que é papel do professor problematizar a realidade em alguma medida, mas não dar conta da educação total de uma pessoa. Concordei, argumentamos não lembro exatamente o que e eu terminei dizendo que achava que, se no fim de um ano letivo inteiro, de um semestre ou de uma aula, sei lá, se no fim disso nenhum dos seus alunos saísse da sala pensando alguma coisa de modo diferente do que ele pensava antes, aí tinha alguma coisa muito errada. E foi nessa hora que veio. Um menino que não havia falado nada até então disse algo como: “Nós precisamos ter como referência a Utopia. Na prática, problematizar a realidade aos poucos, mas ter como referência a Utopia”. Abri o sorriso. Acho que tá bom de relato já.

Daqui a pouco saio para as últimas aulas. Hoje nem vai ser muito emocionante, vou só monitorar um trabalho lá que eles tem que fazer. Mas vai ser a oportunidade de agradecer pela experiência incrível que eu tive.

Ah, esqueci de dizer que no primeiro dia, como não tinha comido nada o dia inteiro e peguei um ônibus super lotado pra ir pra casa, no maior trânsito, desmaiei e fiz uma pobre moça levantar, passando a viagem toda em pé. Ossos do ofício? hehehe.

Quero mais! 😀

(aula, desmaio não)

PS: Sou mongol e não sei colocar fotos no wordpress.

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8 respostas em “Fim do lero-lero: dei aula.

  1. Gostaria de fazer comentários sobre relações culturais, politicamente corretas e engajadas e de cunho histórico, político e social mas, sou MÃE, com o agravante de ser A SUA MÃE, então só consigo dizer que vc é o MÁXIMO, MARAVILHOSA E QUE TENHO MTO ORGULHO DE VC! Bjs

  2. Sabe, a gente escuta tantas pessoas falando que é uma loucura virar professor e eu mesmo ando tão desanimado nas últimas semanas com as salas de aula que é lindo ver que isso ainda causa emoção desta maneira. Vai ver que na sala, como na vida, o problema é parar de sentir esse nervosismo e essa beleza.

  3. aaaaah, mas há humor nas paredes do CAHis. Ainda que n revolucionário.

    e eu mandava a menina de matemática tomar no cu. só com o olhar.

  4. Mas que relato lindo!!!
    Lecionar é mágico. Mesmo que seja uma coisa boba e não-engajada como inglês. E espero que seja mágico pra vc pra sempre, como é pra mim há 9 anos!!!

  5. Aaah que legal seu relato de dar aula, e tadinha por causa do desmaio =/

    seu blog ameniza meu desespero em relação a trabalhar com educação, viu? Ameniza bastante. E isso é muito bom ^^

  6. Pingback: A Polícia vai à escola. « …ou barbárie.

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