Desabafo provocado por “Terra Fria”

Com os primeiros passos do bloguinho acabou vindo também a neura de ter que mantê-lo atualizado. Fico no dilema ente escrever qualquer coisa mais ou menos ou escrever só quando eu tenho realmente alguma coisa relevante pra dizer. O objetivo é pender pra segunda opção, mas muitas vezes eu acabo não conseguindo concatenar as idéias suficientemente bem pra escrever sobre alguma coisa que acho que deva ser dita ou então me enrolo toda nessa vida e perco o fio da meada. Mas vamos tentando que a coisa tem sido bacana até aqui.
Eu tinha jurado pra mim que não faria outro post sobre filme, mas pô… dessa vez não vai ter como. O destino acabou me fazendo assistir hoje Terra Fria, com a Charlize Theron. Minhas amigas sabem o quanto fiquei (ficamos) bolada(s), nos vários sentidos que essa estimada gíria adquiriu. Então eu preciso desesperadamente falar sobre esse filme! Mas isso nem será uma crítica. É mais um desabafo mesmo.

O filme é uma adaptação de um livro que conta a história da primeira ação coletiva por assédio sexual iniciada por uma mulher, Lois Jensen (no filme, Josey Aimes), contra uma grande impresa mineradora. Eu tô aqui lendo uma ou outra crítica sobre o filme, mas só dessa vez vou deixar um pouco de lado os dados pra falar só do que vi. Esse foi um daqueles filmes que eu me emocionei mais do que o comum, me fazendo pensar se eu não tava chorando além da conta por algum motivo externo.

Assédio sexual, cara. Estupro. Discriminação, violência simbólica, física, e tudo o mais que existe de truculento nesse mundo eu vi naquela telinha hoje. A despeito de toda a trama histórica super interessante, essa não é uma daquelas histórias que te faz pensar sobriamente no lado social das coisas. É um troço que mexe com as entranhas.

Na cena imediatamente depois que a personagem da Charlize foi sexualmente agredida, ela caminhava em direção ao agressor no meio de vários funcionários da impresa. E eu fiquei tipo criança em show de fantoche, falando pra ela o que fazer. Não pude pensar em mas nada a não ser enfiar uma lâmina ultra afiada no pescoço daquele infeliz. Naquela cena eu era ela. E não tem nada de mais amargo do que ser a mulher depois do estupro.

Voltei pra casa depois do filme caminhando, conversando com a Flora. Não sei, mas naquele momento falamos com muito certeza que a maior violência possível  contra um ser humano é o estupro. É uma violação de tudo, do seu corpo, da sua alma, sua ética… não sei, não sei. Só pensar que isso acontece com uma pessoa me dá uma multiplicidade de nós na garganta que não dá nem pra dizer. Isso acontece, cara, isso acontece. E ainda tem gente que tem o despautério de dizer que a mulher que provoca! Cara, sinceramente! No estado que eu tô agora, cai toda a argumentação e a vontade que eu tenho é de dar um socão na cara de um infeliz desse.

Aí a gente pensa que essa “gente que fala essas coisas” está do outro lado da divisória, lá, onde estão os conservadores da ultra direitona do mal. É, pessoal… acontece que o machismo inconsequente está muito mais entranhado nas pessoas do que se imagina. Ele ri entre amigos esquerdistas num corredor de faculdade pública. E como ri. Ele caminha nas cabeças pouco reflexivas nas opiniões tão carregadas de certeza de tanta mulher que passeia por essa minha cidade. “Essa mulher com essa sainha desse tamanho… depois não sabe porque as coisas acontecem!” – tá aí. Tantas vezes em vozes amigas.

E é por essas e muitas outras que não dá pra parar de ser chata não. “Feminista sem senso de humor é foda”, mas é um tanto de piada sem graça nesse mundo… pensa só. É nas coisas mais inocentes e mais naturalizadas que a gente acaba reproduzindo as besteiras. E elas tem dimensões enormes…

Ah, sei lá. Ainda estou muito bolada. Acabei de ver um filme, comi um lanche com suco de uva com a Flora e vim direto pra cá, digitar desembestadamente. O filme vale muito, muito a pena. E a história a Lois também. Depois do processo, diferentemente do final bonito do filme, ela acabou se tornando uma pessoa bastante reclusa e cheia de problemas de saúde, já que o estresse pós-traumático acabou com o sistema imonológico dela. Ela disse numa entrevista à Minnesota Women’s Press:

“Existem algumas mudanças que eu gostaria de ver. Se nós pudéssemos conseguir mudanças que protejam as mulheres no sistema jurídico, isso ajudaria a todo mundo. As proteções que surgem acabam sendo derrubadas. As mulheres simplesmente apanham por tentar fazer a coisa certa e por defenderem a si ou a outros.”

Um detalhe mórbido: tente procurar “estupro” no google. E 90% dos resultados da primeira página são do tipo “cenas de estupro aqui!!!!”, “vídeos de estupro escolar” e “conto erótico: estupro não, dei porque quis!”.

Tô sem estômago pra falar mais.

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6 respostas em “Desabafo provocado por “Terra Fria”

  1. Concordo completamente contigo. Pelo menos agora acho que as coisas estão evoluindo aqui no ocidente. Mas imagina na Africa, no Oriente Médio, onde essas barbaridades acontecem a cada minuto? As meninas estupradas são acusadas de adultério e condenadas à lapidação. Ja imaginou injustiça maior nesse mundo?

  2. Eu acho que esse assunto, assim como racismo, homofobia e etc. não merece piadas que sustentem coisas terríveis a quem nem pode se defender direito. Uma piadinha aparentemente inofensiva feita por gente esclarecida sobre mulher que gosta de apanhar ou gosta de fazer sexo a força ou ainda que diz não querendo dizer sim, numa boa, pode não gerar estupro ali entre os piadistas, mas sustenta todo esse conceito por ai. As vezes as mesmas pessoas que fazem a piada acham horrivel quando as coisas acontecem, elas não notam que são coniventes, que suas piadas servem de base, enfim.

  3. Gostei muito de Terra Fria. Infelizmente, nunca escrevi sobre o filme, pois só o vi muito tempo depois do seu lançamento, e em dvd. Mas desde que o vi fiquei com vontade de escrever alguma coisa sobre ele, porque é um filme aterrorizante. Uma boa indicação que a maioria da crítica de cinema é feita por homens é que Terra Fria tenha passado em brancas nuvens…

  4. Trevas,
    É verdade que houve alguma mudança legal, mas a aplicabilidade das leis relacionais ainda é muito torta, pelo que eu vejo. Pra assédio sexual então, mais difícil ainda. Porque é uma coisa muito cotidiana, vista como natural, muitas vezes. Que nem mostra o quadrinho que você mandou. Muito maneiro, aliás! hehehe.

    Amanda,
    Você tem toda a razão. O pior são os ocidentais que "respeitam" essas práticas porque "é da cultura deles". Aí é fogo.

    Haline,
    Isso é uma das coisas mais difíceis de mudar, eu acho. Porque a gente tende a achar que no senso de humor as maiores atrocidades devem ser toleradas e, mais, apreciadas. Temos que ter muito cuidado mesmo.

    Lola,
    É verdade, eu mal tinha ouvido falar nesse filme até que amigas minhas sugeriram que a gente assistisse. Eu fiquei me perguntando como uma pessoa pode ver um filme assim e não ter total certeza que é feminista. Taí um dos porquês do relativo silêncio da crítica…

  5. Ah, eu gosto tanto do seu blog, babs. Eu vi esse filme no cinema, com a minha mãe. Foi algo muito marcante, dá essa sensação de revolta, se sente nas entranhas mesmo, como você escreveu.

    Há pouco tempo eu li essa matéria no JB sobre uma menina que tinha sido assediada http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/06/18/e180617565.asp Um dos primeiros comentários (desses feitos pelos leitores) era justamente que a culpa era da menina, que ela é quem tinha sido irresponsável, etc. Um absurdo. Eu comentei, criticando esse comentário e até hoje, não apareceu. Só pra mostrar como isso acontece o tempo todo e como esse pensamento retrógrado e imbecil permanece, infelizmente.

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